Nónioblog

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Carta a Cavaco Silva
















Prezado Senhor Professor
Ilustre Presidente da República Eleito


Dirijo-me a Va. Excia., antes de mais, para o felicitar e demonstrar desta forma a minha satisfação pela sua brilhante vitória.

Sempre votei em si. Quer nas Eleições Legislativas, onde fui sempre fiel ao Partido Social Democrata, quer nas Presidenciais, que lamentavelmente perdeu há 10 anos atrás.
Desta vez, procurei, de novo, cumprir o meu dever cívico. E é, também, sobre isso que lhe escrevo.
Serão muitas as tarefas que Va. Excia. irá enfrentar, certamente. Muitas delas representarão enormes desafios. Mas, permita-me a humilde opinião de que haverá uma mais prioritária: a dignificação da vida política e o fomento da Democracia. Sobre isso, saberá Va. Excia. muito mais do que eu. O Professor Cavaco Silva é, na minha opinião, o paradigma da dignidade e daquilo que faz falta à política.
Contudo, a dignificação da vida política não pode começar sem que seja dignificado o mais puro acto de democracia: o acto eleitoral.
Ontem, ao tentar votar, senti que Portugal ainda não é bem um País democrático. Ainda que com as devidas distâncias, cheirou-me às anárquicas Eleições pós 25 de Abril de 1974.
Quase tudo era ontem igual ao que tinha sido há 30 anos atrás. As urnas, os boletins de voto, as canetas, e as cruzes. Portugal parou no que diz respeito ao acto primeiro e último da Democracia.
Não sei quantos países europeus continuam a votar assim, com cartões de eleitor em formato anormal, escritos à mão, acompanhados de Bilhetes de Identidade que não cabem nas carteiras da Europa, sem segurança e sem recursos tecnológicos.
Atrás da urna, gritam-se nomes e chamam-se números, mas a sensação que fica, é que qualquer um vota por qualquer outro. É fácil. O sistema não tem segurança.
Pergunto-lhe: será difícil estar recenseado em mais do que uma Freguesia?
Creio que ainda ninguém testou o sistema.
Mas, voltemos à minha história:
Recenseado há cerca de 10 anos na mesma Freguesia de Vila Nova de Gaia (Santa Marinha), com a mesma morada, já tinha votado em quatro locais diferentes durante esse período, a saber; na Junta de Freguesia, numa Escola Primária, no Pavilhão do Cais de Gaia e numas Caves de Vinho do Porto.
Da última vez, foi precisamente aí, junto ao Rio Douro, que votei. Cada vez mais longe de casa, diga-se.
Ora, logo aí se vê não houve sequer preocupação para esta localização. A um domingo, com a panóplia de bares e restaurantes que, muito bem, a Câmara Municipal de Gaia fomentou no local, torna-se penosa a deslocação àquele local. Em dia normal, por entre vielas e sentidos proibidos que mudam de dois em dois meses, demora-se, pelo menos, uma hora. De carro... pois não há Metro e os poucos Autocarros... demoram mais!
Uma vez chegado ao local, é necessário estacionar... num parque privado que custa caro... se houver lugar.
Ora, por aqui se vê que, numa altura em que se fala de combate à abstenção, qualquer coisa está errada. Em lugar de se facilitar o voto... dificulta-se.
Desta vez, e depois de tantas alterações de local, julguei, erradamente, duas coisas:
1º que votaria na mesma mesa.
2º que a mesma mesa era no mesmo local.
3º que essa informação estaria disponível na Internet.
Três ingénuos erros.
E começa por aí: a informação não está disponível na Internet.
Meti-me no carro, e lá fui eu. Graças aos tais bares e restaurantes, às Eleições e ao sol... demorei 1 hora e 45 minutos a chegar ao local. Só que o local já não era ali.
As caves tinham sido substituídas por um edifício decrépito, como o anterior, numa rua com dois metros de largura, escondido atrás de uns restaurantes.
Entre cães a fazer “xixi”, lá cheguei, a pé. Não há trânsito nessa rua.
Mas, quando cheguei, vi que a minha mesa era agora... no Candal!
Nunca vivi no Candal. Nunca votei no Candal. Porque voto agora no Candal?
No Candal... onde?
No Centro Paroquial!
Pois aí está. Em Vila Nova de Gaia, onde há um Palácio da Justiça recente, uma Câmara antiga, tantas Juntas de Freguesia, Escolas que nunca mais acabam e o Governo quer fechar, e tantos outros edifícios públicos, tinha o Estado Laico que me obrigar a entrar no Centro Paroquial de uma localidade que não conheço, longe da minha casa. Pergunto-me se o “Clero”, que muito respeito, cobrou pelo espaço, que estranhamente, é necessário ao Estado para que este possa desencadear o seu mais nobre acto democrático. E pergunto-me se alguém que mora em Soares dos Reis, tem que ir votar ao Cais de Gaia ou ao Candal, quando, a 50 metros, há uma enorme Escola Secundária, em frente uma Primária, a 100 metros um enorme Palácio da Justiça, a Câmara, a Junta de Freguesia (onde até já votei), etc, etc...
Mas, a minha aventura prossegue rumo ao Candal... que mal conheço.
“Ora bem: Centro Paroquial deve ter a ver com Igreja”, pensei eu. E lá vou eu, imaginando o idoso que não tem carro e mora na porta ao lado a tentar votar. Ao chegar à Igreja do Candal, vejo um pavilhão com muita gente. Depois de esforço e tempo para lá chegar, dou com um enorme e respeitável... funeral.
Lamento, Senhor Presidente Eleito, mas fui para casa. Não votei!
Arrependido, contrariado, revoltado e esperançoso que não houvesse uma segunda volta por... um voto. Ou por quinhentos ou mil, pois não me senti sozinho neste sentimento de miséria democrática em que vivemos. Miséria de atraso estrutural profundo, não só a nível produtivo, como parece hoje evidente, mas também na nossa forma de pensar e viver a Democracia.
Somos pobres e temos pobres políticos. Tacanhos e deformados.
Foi, no passado, Va. Excia. um exemplo do espírito contrário ao que descrevo. Deposito na sua actuação, como Presidente da República, moderadas esperanças. Esperanças, motivadas pela sua diferente postura. Moderadas, porque o sinto sozinho nos seus propósitos.
A democracia começa no voto. E, ultimamente, tem-se provado que o voto não é nos políticos, nem sequer na política. Muito menos, nos Partidos.
Provou-se tal nas Autárquicas, prova-se agora nas Presidenciais.
Tanto maior foi a independência, e maior a votação de cada um dos candidatos. Va. Excia. e o Dr. Manuel Alegre, provaram-no. Como o tinham provado uns tantos independentes nas eleições locais.
A sensação que me fica é que: tivesse havido um bom independente nas Legislativas, e teriam todos os Partidos levado percentagens próximas às do Dr. Mário Soares.
Finalizo com um desabafo pessimista. Não reconheço hoje aos Partidos, qualquer capacidade autocrítica. Repare, Senhor Professor, que depois de derrotas tão estrondosas como as de Gondomar, nas Autárquicas, nunca ouvimos ninguém do PSD questionar em que falhou o Partido para ter apenas 7% dos votos, face a Valentim Loureiro, ou o PS, apenas 18%! Em vez disso, preocuparam-se em abusar do Poder Legislativo que têm, para impedir candidaturas futuras!
Como não questionam, agora, a razão pela qual não quis Va. Excia. os dirigentes partidários por perto, e porque razão teve o Dr. Mário Soares menos votos do que o Dr. Manuel Alegre.
A única preocupação visível, nos Partidos, foi assegurar o futuro da carreira política dos seus dirigentes e seguir em frente.
Por ventura, a todos os derrotados ou não vencedores da política, quer após Autárquicas, quer após Presidenciais, apenas restará uma interrogação: como conseguiremos fazer com que não concorram da próxima vez? Como podemos condicionar o voto? Como pode o sistema que está a enterrar o País, sobreviver?

Com os meus respeitosos e cordiais cumprimentos,

Eleitor Indentificado