Nónioblog

segunda-feira, novembro 07, 2005

Rui Rio tem razão

Rui Rio tem-se farto de apanhar “porrada” por ter imposto "regras" à Imprensa. "Regras" que, segundo a própria Imprensa, colocam em causa a Democracia e o livre acesso às fontes de informação.
Entrevistas por escrito, proibição dos Vereadores falarem sem autorização do seu Gabinete, definição sobre o que é “interesse público” por parte da Câmara... são algumas das especiais medidas, motivadas, alegadamente, por uma entrevista que o próprio deu ao Jornal de Notícias. Ou melhor, pela manchete que o JN elaborou para a destacar na primeira página.
Lamento as medidas. Era bom e desejável que políticos e, sobretudo, instituições e órgãos de Comunicação Social pudessem viver numa sã convivência e pudessem colaborar, também, no sentido de melhorar a informação aos portugueses.
Pelo menos neste caso, não será possível... Mas apenas não é possível a colaboração, pois parece-me que, além de tudo, não está em causa o livre acesso às fontes de informação.
Não vejo como a proibição de Vereadores darem entrevistas sem autorização de um Presidente é limitativo das forntes de informação... Se assim pensam e dizem os jornais... estamos muito mal. Onde param então aquelas estranhas e enigmáticas "fontes próximas" que tanto gostam de citar e que tanta perplexidade criam no leitor? Agora já não servem?
Mas, de facto, é fácil bater em Rui Rio – e os jornais, corporativamente, encarregam-se disso. Antes e depois deste episódio, diga-se. Mas, o facto, é que o Autarca, na essência, tem razão. Não sei se eu utilizaria os mesmos métodos para combater o flagelo do mau (digo, do péssimo) jornalismo que, regra geral, se faz em Portugal. Mas, a verdade, é que Rui Rio tem, na essência, razão.
A falta de rigor da grande maioria dos jornalistas (para não dizer, quase todos) é absolutamente confrangedora. Para quem, com eles, tem que comunicar de forma regular, isso é evidente.
E posso falar por experiência própria.
Se dermos “matéria” a um jornalista, se lhe abrirmos as portas da nossa casa e lhe mostrarmos tudo, é mais de 98% provável que algo falhe por pura incompetência e falta de cuidado. Ou nos vão trocar o nome, ou contarão mal os quadros que temos na parede, ou se enganarão no número da porta... ou, simplesmente, farão tudo bem, mas alguém, na redacção, lhe trocará o título.
No caso presente, Rui Rio até reconhece que o texto não está mal. O Presidente da Câmara do Porto queixa-se é da manchete.
Pois, e eu concordo com ele. Aquela manchete é, de facto, um abuso, uma ofensa à sua inteligência e à inteligência do próprio leitor. Sobretudo, aquela manchete é um ultraje à liberdade de expressão.
Pela leitura da entrevista, percebe-se que Rui Rio não quis, nunca disse, e nunca diria o que a manchete pretende espelhar. Ponto final!
O jornalista, o chefe de redacção, o director, que fez o título ou a manchete desse JN, para ilustrar esta entrevista, não se questionou sobre isso? Não lhe terá passado pela mente a interrogação: "terá dito, quis dizer ou diria Rui Rio tal coisa?"
Pelos visto, ou não o fez ou não o quis fazer... em qualquer dos casos, é mau jornalista. É incapaz. Ou pouco rigoroso ou pouco sério. Tem, por isso, menos capacidade para continuar a fazer o que faz do que Rui Rio para continuar a ser Presidente.
Rui Rio terá reagido de forma excessiva? Talvez? Será essa a melhor forma de contribuir para uma boa informação? Talvez não. Mas, no essencial, Rui Rio tem razão e compreendo que a paciência das pessoas, também se esgote.
O mais curioso é que, corporativamente, a Imprensa – toda – em lugar de responder ao Presidente da Câmara do Porto com trabalho, sério e rigoroso, em lugar de se questionar, por momentos, sobre a legitimidade daquela manchete, alheia-se do essencial e volta-se, mais uma vez, para o acessório – a reacção de Rio –, dando razão a Rio. Ou seja, fazendo, de novo, mau jornalismo.
Afinal, o que é mais importante? Informar bem e com rigor, debater a legitimidade da Imprensa para extrapolar afirmações e manipular informação através de títulos falaciosos, ou desdobrar-se em apreciações críticas subjectivas sobre o direito à indignação de quem viu, na capa do jornal mais lido do País, atribuído a si próprio aquilo que nunca disse?
É que, se Rio tem responsabilidades públicas, que deve respeitar, a Imprensa também as tem e não pode evoca-las, apenas, quando lhe dá jeito.