Nónioblog

segunda-feira, novembro 21, 2005

O "beijo" de Saraiva







José António Saraiva escreveu sábado no Expresso um artigo de opinião intitulado “Beijos na Escola”. É claro que se refere ao caso das duas meninas da Escola Secundária António Sérgio, em Vila Nova de Gaia, que têm uma relação de namoro.
Aparentemente, o caso está a ser mais polémico para os que do seu sofá assistem, pelos outros jornais, ao desenrolar dos acontecimentos, do que propriamente para os alunos da escola.
Para José António Saraiva, o caso resume-se a isto:

1. O que faria eu, se dois jornalistas dos Expresso desatassem aos beijos na redacção?
2. O que faria um comandante, se dois soldados o fizessem na parada.
3. Estas meninas até já são crescidas (17 e 18 anos), uma é brasileira (“nem é de Gaia”, escreve) e, por isso, já são experientes e têm idade para saberem que há coisas que se fazem em privado e não em público.

É claro que esta declarada homofobia de José António Saraiva é disfarçada. Pelo meio, o “senhor Expresso” coloca sempre a ideia de que se fossem de sexos diferentes, a sua opinião seria a mesma. Isto é, dois soldados na parada, poderia ser uma soldada e um soldado e os jornalistas no Expresso, seriam, ou homosexuais ou não.

Mas, o facto, é que o “disfarce” da arrepiante opinião do senhor que aparentemente manda nas carícias e beijos dos seus jornalistas, não cobre todo o seu rabo… que à boa maneira do gato, fica de fora…
É que, quando desenvolve tão absurda comparação entre dois soldados aos beijos numa parada, dois jornalistas acariciando-se numa redacção, ou os namoricos de escola num recreio, José António Saraiva não só comete uma enorme desonestidade intelectual, como revela que já perdeu, há muito, a habilidade para parecer que tem razão, quando não a teve nunca.
Mas alguma vez o senhor Director se preocuparia com os namoricos heterosexuais numa escola em Gaia? Dito de outra forma: saberá Saraiva que todos os dias, há várias décadas, quase todos os meninos e meninas heterosexuais, convivem alegremente com beijinhos e apalpadelas nos corredores e recreios de todas as escolas do País?
Se o assunto foi puxado à sua crónica é, precisamente, porque se trata de homosexualidade. E se trata de homosexualidade assumida por duas meninas.
A frase de que “há coisas que não se fazem em público”, é demonstrativa de apreço de um Portugal que suportou, patrocinou e alimentou a Casa Pia. É reveladora de uma profunda hipocrisia e de insanáveis preconceitos que Saraiva transporta arrogantemente consigo.
E não falo apenas a propósito da homosexualidade.
A referência à nacionalidade de uma menina, insinuando que ser “brasileira” é sinónimo de ser “experiente”, deveria merecer por parte de quem, normalmente, não perdoa as mínimas “gafes” aos políticos, uma pública, enérgica e demolidora censura.
Quanto ao Expresso, lamento que as jornalistas, a partir de hoje, se vejam obrigadas a ter cuidado quando se acompanham à casa de banho e os jornalistas se tenham que sentir constrangidos com um abraço mais fogoso quando Cristiano Ronaldo marcar um golo por Portugal. Façam lá isso na intimidade, porque aí no Expresso, podem levantar as dúvidas sobre a sua própria sexualidade e, pior do que isso, a de alguém.

Há uns anos, assisti a um filme sobre isto. Chamava-se “Filadelphia”. É a história de um homosexual seropositivo (Tom Hanks) que foi despedido do seu emprego, onde era por demais competente, levando o caso a Tribunal. O seu advogado (Densel Washington), em pleno Julgamento, acaba por disparar ao velho “machão” e preconceituoso patrão que o despediu, uma frase que me apetece repetir a alguém neste momento:
“Are you gay”?

12 Comentários:

  • Não me espantaria que o fosse.

    Os machões disfarçam muitas vezes uma latente homossexualidade. Não assumida, castrada na infância e mascarada pelo oposto.

    O gajo que se lixe!

    Eu até já nem leio o Expresso.

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 00:25  

  • E é isto democracia! Realmente... chega a tocar no ridículo. Lamento artigos como este, influenciarem e manipularem tanta gente que se diz sem preconceitos e que apela á igualdade!!! Igualdade... existe? se nada é igual!... Gostei do post e do blog ... claro. Um abraaaaço

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 00:29  

  • È isto democracia!... Lamento que este tipo de artigos influenciem e manipulem pessoas que se julgam sem preconceitos e apelam á igualdade com convicção! Igualdade... existe??? Se nada é igual!... Gostei do post e claro ... do blog. Um abraaaaço

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 00:36  

  • Bem-vindo. Fazia cá falta. Sobre o artigo que acabei de ler está ali tudo...

    Já o conhecia do anterior blog e se bem que nem sempre de acordo gosto do estilo.

    Felicidades

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 03:04  

  • Essa do "Tony" Saraiva achar que na escola não se deve andar aos beijos independentemente de serem homosexuais ou não para mim trás água no bico. O tipo devia ser daqueles cromos que fugia das miudas a sete pés...
    Um abraço

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 09:43  

  • o caminho para a compreensão mútua ainda é longo e é possível que possa voltar a um ponto inicial. as sociedades nascem, desenvolvem-se e declinam. por isso devemos fazer o que horácio disse...

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 11:43  

  • Olá,
    Estou a tentar comentar o teu blog ,mas não consigo publicar o
    comentário! Adorei o post, e claro ... o blog também! Um abraaaço

    golfinhaluar@hotmail.com

    www.paulaluamar.blogs.sapo.pt

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 14:39  

  • Obrigado pelos vossos comentários. Começo a sentir-me, de novo, suficientemente... Nónio!
    O que considero mais absurdo nesta questão é estarmos a ler um artigo de alguém que é Director do Expresso, um dos símbolos do Portugal democrático e livre. Neste artigo, estão profundamente cravados os mais retrógrados e enquistados preconceitos, que vão desde o chauvinismo à homofobia, passando pelo síndroma “eu é que sou o chefe”. Mais grave: é um elogio brutal à hipocrisia, dos “pecados privados” face “às públicas virtudes”. Espero (embora tenha dúvidas) que esta mentalidade “padreca” morra com a decandente geração de Saraiva.

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 14:54  

  • ola nonio.
    apareceste no meu blog embora nao tenhas comentado. mas obrigado por teres aparecido. fiquei a conhecer mais uma coisa de jeito aqui nestes sitios.

    abraço da leonoreta

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 22 novembro, 2005 19:37  

  • Com posts como este não é de admirar que o Nonio ganhe vida! Muito bem conseguido.

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 23 novembro, 2005 08:30  

  • O Papa proibiu os homosexuais de serem padres. Rezemos todos uma "Avé Maria" pelo Saraiva!

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 23 novembro, 2005 11:04  

  • Mal vai um país quando as minorias é que mandam e as maiorias se tornam "anormais".

    Quero emigrar!!!

    por <$BlogCommentAuthor$>, ás 08 dezembro, 2005 10:06  

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