Nónioblog

quarta-feira, novembro 23, 2005

A descredibilização da política

A política está em baixa. É uma actividade muito ao nível do assalto à mão armada... pelo menos no que diz respeito à opinião pública.
Prova disso, a recente discussão entre dois candidatos presidenciais acusando-se de serem políticos! Mas a culpa de isto ter chegado a este ponto é apenas deles. São maus e, sobretudo, esqueceram-se de dignificar a sua actividade.
De facto, nos últimos anos, tem-se desenvolvido a ideia de que ser político é mau e o que é preciso é pessoas tecnicamente competentes. Mas... a prática tem dito que não é bem assim. Os sucessivos e competentíssimos Ministros da Economia e das Finanças têm conseguido resultados catastróficos às finanças e à economia do País. A tecnocracia está, até, a invadir a área presidencial, que era (e é) evidentemente, uma área fundamentalmente política e até já se fala que o Presidente deveria perceber de economia.
Ora, se o cargo presidencial é tudo menos executivo, só pode ser político. Mais político do que qualquer outro. No entanto, vemos os candidatos fugirem desse rótulo e fazerem constantemente deambulações acerca das área executivas e mesmo técnicas da Governação.
Tenho sobre isso, uma opinião clara. Provavelmente, haverá quem a não compreende. Mas é a minha opinião. Fazer política é, fundamentalmente, falar. Quanto mais acima se está na hierarquia política do Estado, menos se deveria ter uma atitude de técnico omnisciente e muito maior deveria ser a atitude política e retórica do indivíduo.
Fazer política é também tomar decisões, mas não é fazer contas. Se calhar, nem sequer é explicar contas, sujeitando-se ao enxovalho público da sua verificação matemática na procura do erro. Não é ao Ministro das Finanças que cabe explicar a gralha do Orçamento de Estado. Evidentemente, não foi ele, nem tem que ser ele, a fazer as contas. A sua responsabilidade é outra. A sua habilidade tem que ser outra.
Fazer política é, por isso, ouvir, tomar grandes decisões, arranjar as melhores pessoas para executar o que decidimos e explicar. Falar. Ter razão. Não na medida tecnocrata do termo, mas ter razão politicamente.
Ultimamente, anda tudo trocado em Portugal. Explica-se a escolha de um Ministro com os cursos que tem, as contas que sabe fazer, e a competência que supostamente teve, como professor ou empresário. Mas esquecesse que tem que ser político.
Não sei se o Aeroporto da Ota é a melhor solução. Parece-me que não. A verdade é que ninguém terá ficado esclarecido com as exaustivas explicações técnicas ontem dadas. E porquê? Porque a coisa foi mal explicada sob o ponto de vista político. O Ministro Mário Lino já tinha mostrado a sua gritante inabilidade política, anteriormente. Ontem, voltou a demonstrá-la.
O discurso político tem que ser consistente e, mais do que estudos, que nunca ninguém entende como são feitos, havia que explicar aos portugueses o que se passa na sua cabeça e que mexe com o nosso dinheiro. Ontem, no dia em que se anuncia a “obra do Século”, não se podia dizer que se vai gastar 80 milhões de contos no “velho” aeroporto e que se vai levar para lá o Metro. Pode até ser necessário, imprescindível e verdade, mas o discurso político tem que ajudar a motivar quem paga as obras. E quem as paga somos nós! Como cidadão, tenho que dizer que não compro pneus novos para um carro que vou mandar para a sucata amanhã e, muito menos, mando trocar o motor e pintar a carroçaria.
Ainda que as soluções técnicas sejam correctas e que tudo isto seja bom para todos nós, até para o Porto... Mário Lino e Sócrates nunca poderiam ter deixado a ideia de que o Metro do Porto é para ir “arrefecendo” e, dias depois, admite-se fazer uma linha do Metro de Lisboa para... uma ruína anunciada: o Aeroporto da Portela.
Ser político é, como disse, essencialmente, falar. Falar bem, com razão, com razões, e com certezas. Com convicção, também, e com credibilidade. Estes políticos de hoje, não sabem falar. Não são bons políticos e não chegam a ser bons técnicos. São uma fraude que vamos aturando. Mesmo quando têm razão!