Nónioblog

sexta-feira, novembro 25, 2005

"Inteligence"!

A propósito dos supostos voos clandestinos da CIA em Portugal e, num claro defeito linguístico, o porta-voz da Embaixada dos EUA em Lisboa repetiu à TSF que, “a Embaixada nunca faz comentários sobre assuntos que envolvam inteligência”.
Nós acreditamos!

quarta-feira, novembro 23, 2005

A descredibilização da política

A política está em baixa. É uma actividade muito ao nível do assalto à mão armada... pelo menos no que diz respeito à opinião pública.
Prova disso, a recente discussão entre dois candidatos presidenciais acusando-se de serem políticos! Mas a culpa de isto ter chegado a este ponto é apenas deles. São maus e, sobretudo, esqueceram-se de dignificar a sua actividade.
De facto, nos últimos anos, tem-se desenvolvido a ideia de que ser político é mau e o que é preciso é pessoas tecnicamente competentes. Mas... a prática tem dito que não é bem assim. Os sucessivos e competentíssimos Ministros da Economia e das Finanças têm conseguido resultados catastróficos às finanças e à economia do País. A tecnocracia está, até, a invadir a área presidencial, que era (e é) evidentemente, uma área fundamentalmente política e até já se fala que o Presidente deveria perceber de economia.
Ora, se o cargo presidencial é tudo menos executivo, só pode ser político. Mais político do que qualquer outro. No entanto, vemos os candidatos fugirem desse rótulo e fazerem constantemente deambulações acerca das área executivas e mesmo técnicas da Governação.
Tenho sobre isso, uma opinião clara. Provavelmente, haverá quem a não compreende. Mas é a minha opinião. Fazer política é, fundamentalmente, falar. Quanto mais acima se está na hierarquia política do Estado, menos se deveria ter uma atitude de técnico omnisciente e muito maior deveria ser a atitude política e retórica do indivíduo.
Fazer política é também tomar decisões, mas não é fazer contas. Se calhar, nem sequer é explicar contas, sujeitando-se ao enxovalho público da sua verificação matemática na procura do erro. Não é ao Ministro das Finanças que cabe explicar a gralha do Orçamento de Estado. Evidentemente, não foi ele, nem tem que ser ele, a fazer as contas. A sua responsabilidade é outra. A sua habilidade tem que ser outra.
Fazer política é, por isso, ouvir, tomar grandes decisões, arranjar as melhores pessoas para executar o que decidimos e explicar. Falar. Ter razão. Não na medida tecnocrata do termo, mas ter razão politicamente.
Ultimamente, anda tudo trocado em Portugal. Explica-se a escolha de um Ministro com os cursos que tem, as contas que sabe fazer, e a competência que supostamente teve, como professor ou empresário. Mas esquecesse que tem que ser político.
Não sei se o Aeroporto da Ota é a melhor solução. Parece-me que não. A verdade é que ninguém terá ficado esclarecido com as exaustivas explicações técnicas ontem dadas. E porquê? Porque a coisa foi mal explicada sob o ponto de vista político. O Ministro Mário Lino já tinha mostrado a sua gritante inabilidade política, anteriormente. Ontem, voltou a demonstrá-la.
O discurso político tem que ser consistente e, mais do que estudos, que nunca ninguém entende como são feitos, havia que explicar aos portugueses o que se passa na sua cabeça e que mexe com o nosso dinheiro. Ontem, no dia em que se anuncia a “obra do Século”, não se podia dizer que se vai gastar 80 milhões de contos no “velho” aeroporto e que se vai levar para lá o Metro. Pode até ser necessário, imprescindível e verdade, mas o discurso político tem que ajudar a motivar quem paga as obras. E quem as paga somos nós! Como cidadão, tenho que dizer que não compro pneus novos para um carro que vou mandar para a sucata amanhã e, muito menos, mando trocar o motor e pintar a carroçaria.
Ainda que as soluções técnicas sejam correctas e que tudo isto seja bom para todos nós, até para o Porto... Mário Lino e Sócrates nunca poderiam ter deixado a ideia de que o Metro do Porto é para ir “arrefecendo” e, dias depois, admite-se fazer uma linha do Metro de Lisboa para... uma ruína anunciada: o Aeroporto da Portela.
Ser político é, como disse, essencialmente, falar. Falar bem, com razão, com razões, e com certezas. Com convicção, também, e com credibilidade. Estes políticos de hoje, não sabem falar. Não são bons políticos e não chegam a ser bons técnicos. São uma fraude que vamos aturando. Mesmo quando têm razão!

segunda-feira, novembro 21, 2005

O "beijo" de Saraiva







José António Saraiva escreveu sábado no Expresso um artigo de opinião intitulado “Beijos na Escola”. É claro que se refere ao caso das duas meninas da Escola Secundária António Sérgio, em Vila Nova de Gaia, que têm uma relação de namoro.
Aparentemente, o caso está a ser mais polémico para os que do seu sofá assistem, pelos outros jornais, ao desenrolar dos acontecimentos, do que propriamente para os alunos da escola.
Para José António Saraiva, o caso resume-se a isto:

1. O que faria eu, se dois jornalistas dos Expresso desatassem aos beijos na redacção?
2. O que faria um comandante, se dois soldados o fizessem na parada.
3. Estas meninas até já são crescidas (17 e 18 anos), uma é brasileira (“nem é de Gaia”, escreve) e, por isso, já são experientes e têm idade para saberem que há coisas que se fazem em privado e não em público.

É claro que esta declarada homofobia de José António Saraiva é disfarçada. Pelo meio, o “senhor Expresso” coloca sempre a ideia de que se fossem de sexos diferentes, a sua opinião seria a mesma. Isto é, dois soldados na parada, poderia ser uma soldada e um soldado e os jornalistas no Expresso, seriam, ou homosexuais ou não.

Mas, o facto, é que o “disfarce” da arrepiante opinião do senhor que aparentemente manda nas carícias e beijos dos seus jornalistas, não cobre todo o seu rabo… que à boa maneira do gato, fica de fora…
É que, quando desenvolve tão absurda comparação entre dois soldados aos beijos numa parada, dois jornalistas acariciando-se numa redacção, ou os namoricos de escola num recreio, José António Saraiva não só comete uma enorme desonestidade intelectual, como revela que já perdeu, há muito, a habilidade para parecer que tem razão, quando não a teve nunca.
Mas alguma vez o senhor Director se preocuparia com os namoricos heterosexuais numa escola em Gaia? Dito de outra forma: saberá Saraiva que todos os dias, há várias décadas, quase todos os meninos e meninas heterosexuais, convivem alegremente com beijinhos e apalpadelas nos corredores e recreios de todas as escolas do País?
Se o assunto foi puxado à sua crónica é, precisamente, porque se trata de homosexualidade. E se trata de homosexualidade assumida por duas meninas.
A frase de que “há coisas que não se fazem em público”, é demonstrativa de apreço de um Portugal que suportou, patrocinou e alimentou a Casa Pia. É reveladora de uma profunda hipocrisia e de insanáveis preconceitos que Saraiva transporta arrogantemente consigo.
E não falo apenas a propósito da homosexualidade.
A referência à nacionalidade de uma menina, insinuando que ser “brasileira” é sinónimo de ser “experiente”, deveria merecer por parte de quem, normalmente, não perdoa as mínimas “gafes” aos políticos, uma pública, enérgica e demolidora censura.
Quanto ao Expresso, lamento que as jornalistas, a partir de hoje, se vejam obrigadas a ter cuidado quando se acompanham à casa de banho e os jornalistas se tenham que sentir constrangidos com um abraço mais fogoso quando Cristiano Ronaldo marcar um golo por Portugal. Façam lá isso na intimidade, porque aí no Expresso, podem levantar as dúvidas sobre a sua própria sexualidade e, pior do que isso, a de alguém.

Há uns anos, assisti a um filme sobre isto. Chamava-se “Filadelphia”. É a história de um homosexual seropositivo (Tom Hanks) que foi despedido do seu emprego, onde era por demais competente, levando o caso a Tribunal. O seu advogado (Densel Washington), em pleno Julgamento, acaba por disparar ao velho “machão” e preconceituoso patrão que o despediu, uma frase que me apetece repetir a alguém neste momento:
“Are you gay”?

sexta-feira, novembro 18, 2005

Portugal... a voar

Ontem os médicos, hoje os professores, antes os juizes, os polícias, os militares... o Governo resolveu atacar as corporações. Pelo menos, as corporações andam zangadas.
Até concordo (com o Governo), apenas penso que nem sempre a habilidade tem acompanhado os Ministros de José Sócrates. Amordaçados, fariam, certamente, melhor figura.
Estava agora a ouvir a TSF e ouvia um professor queixando-se de algumas “migalhas” e horas que trabalha a mais ou a menos. O que lhe pagam e não pagam e, no final, como sempre, a GREVE. Pois! A GREVE! É quase sempre assim.
E lembrei-me dum episódio que, com certeza, já toda a gente esqueceu.
Há uns anos, a greve da ordem era normalmente dos pilotos da TAP. Queriam ganhar mais, queixavam-se da Administração, de falta de condições, etc, etc.
Até que um dia (11 de Setembro, por acaso), uns terroristas atiraram com uns aviões contra as Torres Gémeas em Nova Iorque.
Os pilotos da TAP cancelaram a greve que tinham prevista. Nunca mais falaram do assunto e passaram, provavelmente, a preocupar-se um pouco mais com o que andavam ali a fazer e qual a sua missão.
A TAP era, então, uma empresa à beira da falência, ou de ser anexada por um qualquer gigante. Curiosamente, esse momento de crise da empresa não motivou os pilotos a fazer um esforço. O que os motivou foi apenas o “cagaço” de ver a sua corporação ameaçada. Naquele dia, eles perceberam que não podiam continuar a dar milhões de contos de prejuízo à sua empresa, com greves que nunca lhe resolviam os problemas. Apenas os agravavam. Uma greve numa companhia aérea significa milhões de contos de prejuízo.
O facto, é que as greves pararam. A TAP recuperou-se, o défice deu lugar ao lucro e hoje, a TAP está a comprar a VARIG (falida), tornando-se num gigante da aviação comercial no Atlântico Sul, pelo menos no transporte de cargas.
Mais, a TAP está compradora de outras pequenas companhias, como a Portugália, e acabou de encomendar mais 17 Airbus.
Esta sobrevivência da TAP em tempo de crise não seria possível sem empenho dos pilotos. O que pergunto é se em Portugal só catástrofes ou efémeros “desígnios nacionais” (Euro 2004, Timor, etc) são capazes de mobilizar empenho e dedicação do povo.
Se este exemplo dos pilotos da TAP, da Administração da TAP e de todos o que tornaram o “milagre” da recuperação da empresa possível, não servir para fazer um pouco mais do que por aviões a voar, então professores, médicos, polícias, juizes, militares, e todos os outros (nós), terão perdido uma oportunidade. A oportunidade de sermos todos portugueses e percebermos que, antes do nosso interesse mesquinho, está o nosso interesse colectivo. Se queremos viver num País melhor e termos uma vida melhor, temos que ser nós a fazer esse País, e não esperar que ele aconteça, só porque politicamente aparentamos razão numa qualquer bem montada notícia do Telejornal, às 20h05.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Isto é que é despacho!

Com a sua teimosia contra a Metro do Porto, o Ministro Mário Lino está a conseguir duas coisas:

1. Impedir uma obra que já está feita (1ª Fase)

2. Parar uma obra que ainda não começou (2ª Fase)

A nossa sorte é que não se pode impedir o que já está feito nem parar o que ainda não começou.

Temos também sorte, porque este tipo não há-de lá ficar muito tempo...

terça-feira, novembro 15, 2005

O "circo" da Justiça

Há uns anos escrevi que a Justiça Portuguesa parecia querer começar a dizer alguma coisa. Poderia ainda não estar a funcionar, mas dava mostras de o querer fazer.
Afinal, hoje, tenho que dizer que, neste quatro últimos anos, a Justiça apenas conseguiu desacreditar-se. Tenho até vergonha do que escrevi. Os sucessivos processos mediáticos e menos mediáticos, apenas conseguiram provar que a máquina não está só ferrujenta. É pior. Está tudo errado. Nada funciona.
Processos como o da “Casa Pia”, onde se “brinca” diariamente aos tribunais, passando o tema das páginas dos jornais sérios para as “Marias” à velocidade da luz, ou processos como o do “Apito Dourado”, onde é mais do que evidente que apenas se pretendeu atingir alguém e não julgar ninguém, fazem com que o povo apenas se consiga rir do sistema. Sistema corrupto, degradado, incompetente, impotente, ridículo, injusto, injusto e injusto.
A entrada em funções de um novo Governo poderia ter trazido qualquer coisa de novo. No entanto, aquilo que este Ministro conseguiu fazer foi piorar ainda mais. E não falo da conturbada relação do Governo com os Juizes. Falo de algo bem pior e que vai passando despercebido aos “excelentes” comentadores e comentaristas.
Ainda há pouco, ouvi o senhor Ministro dizer que, já que mais de metade dos crimes acabam por não ser julgados “por deficiências várias” – comentou – há que dar prioridade aos mais graves. E promete traduzir isto em Lei. Isto é, este Ministro faz com que os crimes mais graves tenham prioridade e sejam julgados, ficando de lado os menos graves.
Ora, o que o senhor Ministro acaba de fazer é um crime letal à própria Justiça e até à Lei. O que se diz é assim: “os crimes leves não são para julgar, os pesados sim!”.
Ora, então, pode ficar-se a saber que se pode insultar o vizinho ou até roubar-lhe umas galinhas. O que não se pode é matá-lo à machadada.
Desconfio também que o Governo coloque em segundo plano o uso do telemóvel ao volante, e o crime de difamação, já agora. Ou será isso mais grave do que a pedofilia na Casa Pia? E não pagar impostos? Será mais grave ou menos grave do que bater na avó ou deixá-la morrer por negligência? Era bom que o senhor Ministro explicasse e que explicasse a arbitrariedade da Lei. Alternativamente, penso que seria mais dignificante para a Lei que alguns crimes deixassem de o ser e se assumisse que, certas áreas da vida portuguesa estão a saque.
Esta última questão é, aliás, pertinente. Ainda hoje li num jornal que um motorista de uma escola de dança abusava das meninas de 11 e 12 anos, quando as transportava. Utilizava linguagem pornográfica, apalpava-as e praticava outros actos sexuais. Foi condenado a dois anos de prisão... com pena suspensa porque “era um homem respeitado na sociedade e tinha 70 anos!”, dizia a sentença. Foi posto em liberdade, portanto! Ora, sou por isso levado a crer que este será um dos crimes leves a que se refer o senhor Ministro da Justiça, Alberto Costa. Um dos que deve ficar abaixo da fasquia dos 50% e nem sequer ser julgado. Aliás, para sentenças destas, de facto, andou-se a gastar tempo e dinheiro. As meninas ficaram abusadas e humilhadas. Provavelmente, daqui a uns anos, terão consciência da merda do País onde vivem e “nós, os inteligentes políticos”, estaremos satisfeitos, porque vimos mais um gravíssimo crime, como o que ontem conheci na SIC, de um rapaz que roubou um telemóvel e foi condenado a auatro anos de prisão. Esse, terá sido dos graves, pelo que vejo.
Um Estado que, à partida, considera que "há crimes e crimes, e que metade não são para julgar", um Estado que se demite daquilo que deveria ser uma luta primordial, a de garantir a Justiça, patrocinando princípios “bacoco” de cultura da incompetência, assumida, cultivada e até – como agora vai fazer o senhor Alberto Costa – regulamentada, já não é um Estado.
É uma palhaçada. Ainda por cima, nem sequer o circo é bom. Os palhaços são sempre os mesmos e este, que agora fala, já era palhaço há muito tempo, noutro Governo. Julguei-o afundado no pântano, mas ele aí está!

PS: ninguém parece ter reparado que, no mesmo dia, a mãe que matou e esquartejou a filha, com "especial perversidade" (disse a sentença), apanhou menos cinco anos de cadeia do que um Pai que matou um polícia que muito justamente perseguia o seu filho! 20 anos para a mãe, 25 para o Pai. Um dia, quando a Justiça estiver ainda pior e a criminalidade aumentar, já nem será necessário julgar um deles... Alberto Costa considerará um mais grave do que outro (mesmo antes do Julgamento) e chutará para canto...

terça-feira, novembro 08, 2005

Mário Soares... raposa velha?

Até galinhas velhas ou um ratos de laboratório aprendem. Se apanharem um choque sempre que tentam passar por uma porta vermelha e nada sucede na azul, passam a escolher a segunda ao fim de duas ou três experiências.
Pois os políticos dão com a cabeça 300 vezes na parede e continuam...
Não chamaria Mário Soares de “rato de laboratório”, mas não entendo como é possível ainda haver políticos que ainda não tenham compreendido que não é a dizer mal dos outros que se ganham eleições.
Até agora, ainda não ouvi ao ex-Presidente da República uma frase construtiva. Entre a tentativa titubiante de tentar explicar que está vivo e os ataques abespinhados a Cavaco, Soares resume-se a uma ínfima amostra do que foi. Ou seja, à crítica, ao ataque e à agressão. A antítese do que os portugueses esperam de um Presidente da República.
Nesse aspecto (pelo menos nesse), Manuel Alegre tem sido bastante mais inteligente. Para a frente é que é o caminho, e parece cada vez mais evidente que, se há um candidato da Esquerda para uma improvável segunda volta, é ele.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Rui Rio tem razão

Rui Rio tem-se farto de apanhar “porrada” por ter imposto "regras" à Imprensa. "Regras" que, segundo a própria Imprensa, colocam em causa a Democracia e o livre acesso às fontes de informação.
Entrevistas por escrito, proibição dos Vereadores falarem sem autorização do seu Gabinete, definição sobre o que é “interesse público” por parte da Câmara... são algumas das especiais medidas, motivadas, alegadamente, por uma entrevista que o próprio deu ao Jornal de Notícias. Ou melhor, pela manchete que o JN elaborou para a destacar na primeira página.
Lamento as medidas. Era bom e desejável que políticos e, sobretudo, instituições e órgãos de Comunicação Social pudessem viver numa sã convivência e pudessem colaborar, também, no sentido de melhorar a informação aos portugueses.
Pelo menos neste caso, não será possível... Mas apenas não é possível a colaboração, pois parece-me que, além de tudo, não está em causa o livre acesso às fontes de informação.
Não vejo como a proibição de Vereadores darem entrevistas sem autorização de um Presidente é limitativo das forntes de informação... Se assim pensam e dizem os jornais... estamos muito mal. Onde param então aquelas estranhas e enigmáticas "fontes próximas" que tanto gostam de citar e que tanta perplexidade criam no leitor? Agora já não servem?
Mas, de facto, é fácil bater em Rui Rio – e os jornais, corporativamente, encarregam-se disso. Antes e depois deste episódio, diga-se. Mas, o facto, é que o Autarca, na essência, tem razão. Não sei se eu utilizaria os mesmos métodos para combater o flagelo do mau (digo, do péssimo) jornalismo que, regra geral, se faz em Portugal. Mas, a verdade, é que Rui Rio tem, na essência, razão.
A falta de rigor da grande maioria dos jornalistas (para não dizer, quase todos) é absolutamente confrangedora. Para quem, com eles, tem que comunicar de forma regular, isso é evidente.
E posso falar por experiência própria.
Se dermos “matéria” a um jornalista, se lhe abrirmos as portas da nossa casa e lhe mostrarmos tudo, é mais de 98% provável que algo falhe por pura incompetência e falta de cuidado. Ou nos vão trocar o nome, ou contarão mal os quadros que temos na parede, ou se enganarão no número da porta... ou, simplesmente, farão tudo bem, mas alguém, na redacção, lhe trocará o título.
No caso presente, Rui Rio até reconhece que o texto não está mal. O Presidente da Câmara do Porto queixa-se é da manchete.
Pois, e eu concordo com ele. Aquela manchete é, de facto, um abuso, uma ofensa à sua inteligência e à inteligência do próprio leitor. Sobretudo, aquela manchete é um ultraje à liberdade de expressão.
Pela leitura da entrevista, percebe-se que Rui Rio não quis, nunca disse, e nunca diria o que a manchete pretende espelhar. Ponto final!
O jornalista, o chefe de redacção, o director, que fez o título ou a manchete desse JN, para ilustrar esta entrevista, não se questionou sobre isso? Não lhe terá passado pela mente a interrogação: "terá dito, quis dizer ou diria Rui Rio tal coisa?"
Pelos visto, ou não o fez ou não o quis fazer... em qualquer dos casos, é mau jornalista. É incapaz. Ou pouco rigoroso ou pouco sério. Tem, por isso, menos capacidade para continuar a fazer o que faz do que Rui Rio para continuar a ser Presidente.
Rui Rio terá reagido de forma excessiva? Talvez? Será essa a melhor forma de contribuir para uma boa informação? Talvez não. Mas, no essencial, Rui Rio tem razão e compreendo que a paciência das pessoas, também se esgote.
O mais curioso é que, corporativamente, a Imprensa – toda – em lugar de responder ao Presidente da Câmara do Porto com trabalho, sério e rigoroso, em lugar de se questionar, por momentos, sobre a legitimidade daquela manchete, alheia-se do essencial e volta-se, mais uma vez, para o acessório – a reacção de Rio –, dando razão a Rio. Ou seja, fazendo, de novo, mau jornalismo.
Afinal, o que é mais importante? Informar bem e com rigor, debater a legitimidade da Imprensa para extrapolar afirmações e manipular informação através de títulos falaciosos, ou desdobrar-se em apreciações críticas subjectivas sobre o direito à indignação de quem viu, na capa do jornal mais lido do País, atribuído a si próprio aquilo que nunca disse?
É que, se Rio tem responsabilidades públicas, que deve respeitar, a Imprensa também as tem e não pode evoca-las, apenas, quando lhe dá jeito.

quinta-feira, novembro 03, 2005

A trica...

Não me esqueci do comentário à atitude de Rui Rio em relação à imprensa... comentarei ainda hoje.
Abro este post apenas porque acabo de pegar na Visão e de passar os olhos pela longuíssima entrevista a Soares. A política e o jornalismo estão assim: num olhar rápido sobre as perguntas da Visão, 95% contêm nomes. Cavaco, Guterres, Sócrates, Alegre... etc, etc.
A oportunidade de abrir uma janela sobre o cérebro de um mito da política portuguesa e, por acaso, candidato à Presidência da República dá, para a Visão (e, com certeza, com Soares a alimentar), a absoluta fulanização. Dito de uma forma menos simpática: a trica política.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Estou de volta

Reabro este blog, depois de longa ausência. Espero ter capacidade para o continuar a alimentar...

A minha ausência do blog, onde nem sequer assino com o meu nome (embora também não o esconda), deve-se ao facto de ter estado, nos últimos tempos, envolvido politicamente numa Campanha Eleitoral Autárquica.
Com este jejum, evitei duas coisas... a “perda de tempo” nesta escrita e “a canibalização” deste blog, que sem nunca ter tido a veleidade de ter qualquer espécie de independência em relação ao que quer que seja, assim manteve a sua “alma própria”.
Passou! Como todos, sempre, em todas as Eleições... ganhámos. Claro que ganhámos. Conquistar os votos dos eleitores é sempre um exercício de vitória, de conquista. Quanto mais não seja, de conquista democrática. Uma conquista que é feita na enorme solidão que representa a presença na mesa de voto, perante o boletim. Uma vitória feita contra os que tentam desvalorizar derrotas ou pretensões frustradas apelidando o povo de “estúpido”.
O povo, digo eu, não pode ser “estúpido” quando escolhe os candidatos dos outros e “inteligente” quando escolhe os nossos. Nem “estúpido” nem “inteligente”. O povo é tudo isso e muito mais. O povo é soberania. E sem soberania não há democracia. Sem democracia, digo eu, não quero cá estar.
Mas não queria muito falar de política, hoje.
Venho aqui, apenas para dizer que estou meditando sobre a conferência de Rui Rio acerca do “corte” que deu à Imprensa, em particular ao Jornal de Notícias, na sequência de uma entrevista. Ou melhor, do título de uma entrevista.
Mais do que discutir a entrevista e atitude de Rio, é, se calhar, importante meditar sobre esta coisa dos título e da sua manipulação.
Quanto vale um título de um jornal? Como ex-jornalista, ex-chefe de redacção e ex-fazedor de títulos, tenho a minha opinião e... infelizmente, concordo com Rui Rio.