Nónioblog

quinta-feira, julho 21, 2005

Questões pessoais

Em Portugal há esta coisa de nunca ninguém saber muito bem se alguém se demitiu ou se foi demitido. Herdaram-se dos tempos da outra República formalidades bacocas, ocas e, sobretudo, carregadas de hipocrisia e pequenas mentiras de Estado, oriundas de uma visão censória e despudoradamente fascista.
Não nos libertámos nunca dessas grilhetas do passado, que nos arrastam – a nós e ao Estado – por entre incompetentes falhados e falhados sem competência.
Falhados, mas com dignidade… pois nada mais há do que a dignidade de ser demitido em Portugal. Todas as outras dignidades (a de bem governar, a da honestidade a da verdadeira e única dignidade de ser homem), já se perderam.
Agora outra coisa: não terá o povo - sim o povo (palavra maldita que o 25 de Abril nos emprestou, mas por pouco tempo – veja-se o caso do PPD que passou a PSD) – o direito de saber se o gajo que era suposto tratar dessa enormidade que são as finanças públicas se demitiu ou se foi demitido???
É que se continuam, constantemente a enunciar questões familiares para justificar demissões, então, não será legítimo ao Povo saber - antes de serem eleitos - quais as condições familiares de cada um dos candidatos???
Ou seja, se as razões familiares e pessoais continuarem, constantemente a serem evocadas para demissões sucessivas de gajos importantes a quem pagamos ordenados, não será melhor que todos façam uma espécie de entrevista à Caras antes de serem empossados?
Tipo: diga lá. A sua mulher concorda que tenha as noites ocupadas? Tem filhos pequenos a quem mudar a fralda? Fica cansado sempre que dá entrevistas ao Público? É homosexual e o seu namorado não o deixa participar em Concelhos de Estado porque há muito homem baboso por lá? Tem tendência para a impotência e, ao fim de 100 dias de Governo, devido ao stress tem que optar: ou governa ou satisfaz a mulher? E outras perguntas do género...
É bom reflectirmos sobre isto.
É que as questões pessoais não podem continuar a ser evocadas como motivo para atirar ao ar as finanças públicas, défices e rigores orçamentais e, simultaneamente, serem tabu ou crime nas campanhas eleitorais, só porque alguém fala disso.

quarta-feira, julho 20, 2005

O arrastão de Freitas do Amaral

Hoje apetece-me falar do Freitas do Amaral. Ou melhor… do arrastão!
Aliás. Talvez venha, no fundo, a ser tudo uma mesma coisa.
De facto, nem os “pretinhos” do arrastão eram ladrões nem Freitas o “papão” que se dizia que era, por aí.
Senão vejamos. Ficámos hoje a saber que, afinal, fomos todos enganados quando nos disseram que 500 (sim, quinhentos) “estrangeiros” tinham “varrido” a praia de Carcavelos. Ora aí estava logo a primeira questão. Só alguém muito ingénuo ou racista poderia achar que os “pretos” são tão estúpidos que organizassem um mega-assalto, que nem a Al-Quaeda teria capacidade para organizar, e… se arriscassem a roubar bronzeadores aos pobres da linha… Esse é uma primeira evidência que, aliás, já tinha lido algures.
E o que tem isso a ver com Freitas do Amaral? Pois bem, só alguém muito ingénuo ou racista poderia achar que o homem, lá por ter sido do CDS, ia aproveitar cada entrevista para tirar o tapete ao Governo.

Depois, há o fenómeno dos idiotas dos jornalistas, a quem contam um ponto e tomam logo como conto.
Pois foi o que aconteceu em Carcavelos. Terá sido, mais ou menos isto:
“Olhe lá, senhor jornalista, anda para aqui uma pretalhada que não para de jogar à bola. Parece uma invasão”!!
“O quê? Invasão ou arrastão??”
“OK, deve ser isso, arrastão…”

Tal como neste caso (parece que foi mais ou menos assim), também no caso Freitas se passou a mesma coisa:
“Olhe lá, senhor jornalista, é difícil explicar que, depois do défice… vem mais défice”
“O quê? O Sócrates é maricas??”
“Não, apenas estava a tentar dizer que se explicou mal”
“O quê? O Sócrates governa mal?”
“OK, deve ser isso…”
O mais engraçado é que há outra analogia. Ficámos também hoje a saber que, quer num caso quer noutro apenas há um único queixoso. O que é suspeito.
Na praia foi uma senhora a quem furtaram… o bikini! (terá sido?)
No caso Freitas o único a queixar-se… foi um anão, que, por ventura terá perdido os óculos e leu a entrevista "ao viés".
De facto, num e noutro caso, no meio de tanta culpa e de tanto mal entendido, alguém se esqueceu de algo. É que para haver crime tem que haver criminoso e vítima. Ou seja, para haver roubo tem que haver ladrão e roubado. Da mesma maneira, para haver ofendido, terá que haver quem ofenda e ofendido. Só que nestes dois casos, faltam as vítimas. Não há nem roubados nem ofendidos... pelo que se conclui que, num e noutro caso, alguém, eventualmente racista, resolveu fazer a festa, deitar os foguetes e apanhar as canas e, quando se deu por ela, além dos jornalistas, ninguém estava preocupado com o assunto!


Bem, no caso do Freitas ainda por aí anda o Anão aos gritos… mas também, já ninguém lhe liga!

terça-feira, julho 19, 2005

Ri, porquê?

Ando com pouco tempo para o blog (já repararam) e com pouca pachorra para políticos. Mas algo me deixa intrigado e me leva a escrever, perante os primeiros outdoors de campanha eleitoral para as Câmaras Municipais. É que todos (ou quase todos) os candidatos aparecem a rir. Alguns, mesmo a roçar a gargalhada.
Tal facto apenas pode ser explicável ou com um preocupante desfasamento em relação à realidade ou com uma grande dose de cinismo. Nós, os que não somos autarcas nem governantes, nunca sorriríamos perante a paupérrima situação do país e perante a deplorável amostra de candidatos que se nos tem apresentado.
O sorriso dos futuros ou presentes autarcas, desbragado, em muitos casos, é quase uma forma subtil de apelo à abstenção e à indiferença. Se calhar, a mesma indiferença que os próprios partidos têm demonstrado em relação a esta eleição.
Espantados com esta minha afirmação sobre a indiferença? Então que dizer das apostas do PS para as duas principais Câmaras do País? Carrilho??? Assis??? E que dizer das apostas socialistas aos municípios em que o PSD meteu os pés pelas mãos e vetou os seus próprios candidatos? Como se chamam os candidatos do PS nesses grandes municípios de Oeiras e Gondomar?
E que dizer da incapacidade do PSD para renovar apostas, com nomes de peso, nas corridas autárquicas? Onde está, pela parte de PS e PSD (que tanto querem limitar os mandatos de autarcas) a vontade de renovação, se mais não fazem dos que recandidatar todos ou quase todos os que já lá estão?
Estas eleições autárquicas poderiam ser um bom ensaio para oposição e partido do poder fazerem um esforço de renovação, depois do banho de incompetência que, uns e outros, têm dado nas suas passagens pelos Governos. Mas são, afinal, o espelho da incapacidade dos dois principais partidos portugueses para se renovarem, para alterarem métodos, nomes, posturas.
É que a mudança, não passa por encher a boca com a palavra “credibilidade”. É preciso tê-la. O povo não é “parvo”, como li há dias nas palavras de um “candidato fora da Lei”. Têm-no feito de parvo, é certo, mas não tardará o dia em que os sorrisos desbragados lhes farão mais cócegas do que é habitual.