Nónioblog

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Também quero ser um "...ista"

Já aqui falei em tempos de Saldanha Sanches. Concordo com muito do que diz e entendo bem as suas posições quanto ao papel do Estado. Se bem entendo os seus pontos de vista, Saldanha Sanches considera (como eu) que o Estado deveria fiscalizar mais e punir menos. Eu concordo e comparo. Um ladrão quando assalta um banco não está a julgar se vai ficar preso 10 anos ou 15. O peso da pena não o demove porque, pura e simplesmente, ele não pensa ser preso. Se pensasse não assaltava o banco!
Mas se o ladrão souber que tem elevadas probabilidades de ser apanhado porque a segurança e vigilância é apertada, eficaz e justa, já não se atreve, nem que a pena seja de apenas cinco anos!
Ora, quando falamos de corrupção e de fiscalidade, falamos da mesma coisa. O que é preciso não é desgraçar um contribuinte ou um autarca que foi apanhado. O importante é ter sistemas que impeçam todos de prevaricar.
Este princípio, está correcto, parece pacífico mas não é seguido quase nunca pelo Estado.
Com este princípio, concordo. O que não posso aceitar é que a falta de fiscalização do Estado no passado sirva para que, a todo o momento, o senhor Saldanha Sanches achar o que bem entende de toda a gente impunemente. Como não pode o Estado presumir que todos são inocentes e por isso não fiscalizar, não pode este senhor ou outro julgar que por ser fraco o Estado todos ou grande parte dos autarcas o são.
A não ser que tenha conhecimento de causa. E se tem e ainda não fez denúncias concretas será talvez o maior cúmplice de Portugal.Um cúmplice que não é qualquer um. É alguém que a imprensa, por algum motivo, rotulou de intocável. O que diz é a verdade, sem contestação, sem contraditório, sem dúvida. Tal e qual um certo “constitucionalista” que conheço e que, se abrir a boca... é verdade. Deve ser característica dos “...istas”

domingo, fevereiro 27, 2005

Conteúdos pagos

Os conteúdos do jornal Público passaram a ser pagos. Seria talvez interessante voltar a lançar em Portugal, e nomeadamente entre os "especialistas" na matéria, a questão da gratuicidade da internet: acessos/conteúdos (quais e em que medida devem ser pagos). Numa altura em que a PT Serviços vai ser vendida... era oportuno discutir abertamente estas coisas, até pelo poder político.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Mário Soares

Ontem hesitei bastante depois de ler uma entrevista com Mário Soares. Hesitei se havia de comentá-la ou de ignorar o tema aqui no NónioBlog. Optei pois por ignorar... ontem.
Desenganem-se os que julgam que hoje a comentarei.
As afirmações de Mário Soares e as suas explicações nomeadamente sobre a sua atitude no dia das eleições não merecem mais do que um olhar nosso para o outro lado. Em nome do respeito que a personagem em causa me merece e em nome da sua proveta idade, o melhor é mesmo nada dizer.Mas seria útil também que o próprio (ou mesmo já alguém por ele) providenciasse a abstinência em tornar públicas as suas afirmações no futuro. Não por mim, que já nem as lerei, mas pela dignidade do próprio. Afinal, todos temos o direito de providenciar que envelheceremos em dignidade.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

Moniz, o publicitário

Volto uns dias atrás...
Houve algo que no calor da campanha não coube neste blog, mas que não esqueço e reputo de grave.
Curiosamente ainda não li (perdão a alguém se o escreveu) qualquer crítica ao sucedido, mas que, de facto, é mais do que criticável. Diria mesmo que sob o ponto de vista deontológico é deplorável.
Estava a semana a iniciar-se e o senhor Carlos Cruz disparava no tribunal em sua defesa. Que teria “pago a TVI a alegadas vítimas para o acusarem”.
Ora, esse facto abriu o noticiário das 20 horas da TVI. Com grande “pompa”, dizia o “pivot” que o Director da Estação iria fazer uma comunicação sobre o assunto.
A “ameaça” foi repetida várias vezes entre notícias, com o acrescento de que a TVI iria processar o senhor Carlos Cruz.
Depois de fazer “render o peixe”, lá apareceu a notícia. Às afirmações de Cruz, responderia a TVI com processos crime contra o arguido. Ao lado do “pivot”, lá estava o director José Eduardo Moniz para explicar que a TVI não tolera, a TVI isto, a TVI aquilo. Falou em profissionalismo, seriedade e deontologia...
Ás afirmações do director, o jornalista acenava reverentemente com a cabeça, qual boby entalado entre o retrovisor e o pára-brisas do Mercedes do director. As suas perguntas não eram perguntas, mas antes afirmações que possibilitavam reforços por parte de Moniz.
Até que o “pivot” diz esta coisa fantástica: “É, não merecemos, como profissionais, ainda para mais numa semana em que estamos a preparar uma grande noite de eleições no domingo”. Moniz, pronto, e de discurso preparado, concorda: “É verdade, vamos ter uma grande noite de domingo, será a maior e melhor cobertura de umas eleições que já se fez em Portugal... béu, béu, béu...” O “pivot” concorda e acrescenta-lhe o aniversário da estação e Moniz concorda também e fala do assunto “são 12 anos.... béu, béu, béu...”
O boby já escorria baba, com a língua de fora olhando o poderoso chefe que num ápice passava dos alhos aos bugalhos.
Moniz não tinha ido a antena no meio de um telejornal para tomar posição sobre Carlos Cruz. Estava-se nas tintas para o assunto. Moniz usou a antena em período informativo para fazer a sua publicidade a dois programas. Usou ainda um jornalista, que condicionou, que “obrigou” a fazer perguntas em determinado sentido, não com o intuito de informar, mas com objectivos publicitários.
A TVI pode ser de quem quiserem. E quem quiser pode entregar a TVI ao senhor Moniz para este atropelar o jornalismo. O que não pode o senhor Moniz é tomar como seu o património jornalístico.Vos garanto e sabe que assim seria quem me conhece. Se eu fosse aquele “pivot” Moniz teria ficado sozinho em estúdio durante aquele telejornal.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Comentários

A partir de hoje apenas aceito comentários de utilizadores registados. É que se ainda não admiti aos derrorados o direito de insultar ninguém, por maioria de razão não o darei aos "vencedores" do que quer que seja (se é que o são).
Aliás, gostaria de dizer aos "vencedores", sobretudo aos que não assinaram os comentários que hoje apaguei do post anterior, que poderão ser efectivamente e democraticamente "vencedores", mas está por provar se serão "os melhores".
Como está por provar que tenham a "maioria dos portugueses". De facto, a única maioria que vão tendo é a maioria de deputados na Assembleia da República. A maioria dos portugueses que votou, votou em outros partidos. Se lhes juntarmos os 30% que não votou e todos os outros que não têm direito a votar, concluímos que os justos e vencedores, segundo as regras democráticas, são afinal uma minoria de uns 30%.
Uma minoria vitoriosa, com legitimidade, é certo, mas não passam de uma minoria. Infelizmente, em pelo menos alguns casos, uma minoria sem classe para vencer! E sem força também, pois se apenas sabem falar em "trombas", "cornos" e... por aí fora, "à porrada" certamente perderiam, já que são apenas um para cada dois!
... talvez por isso não se identifiquem.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Os "tachos" de Louçã

Já hoje ouvi várias pessoas dizer que o Bloco de Esquerda ganhou. Penso que estaremos perante mais um caso de vitória crónica, típico do PCP de outrora.
De facto, o BE não ganhou nada. De facto, o BE foi apenas a quinta força política, vendo a CDU ganhar corpo na sua área política.
De facto, Louçã não vai cumprir esse seu repetido desejo de ser a terceira força política.
De facto, não vai cumprir esse outro tão desejado de “condicionar políticas”.
De facto, com oito deputados, num quadro de maioria absoluta do PS, Louçã não manda nada, não ganhou nada.
Se acha que ganhou? Bem, então sou levado a crer que sim! Que ganhou precisamente o que sempre criticou à direita: oito “tachos” no Parlamento. Afinal, se não ganhou o direito a ganhar "políticas", só ganhou mesmo os "churudos ordenados dos deputados", reconhecem-lhe a frase de outros tempos, em que apenas auferia o churudo ordenado de advogado?

“Dia 20 será um alívio vermo-nos livres deste Governo”, repetia Louçã na sua triste e pobre campanha, alimentada por surdos e coniventes jornalistas… “Dia 20 foi um grande alívio termo-nos vistos livres de Louçã no poder”, digo eu!


Só como exemplo, vejam como o autismo de que parece estar a sair o PCP está agora ainda mais à esquerda no Bloco de Esquerda. link BdE II

Ops! Será que nos enganámos a votar? II

"Patrões da indústria aconselham PS a deixar Código do Trabalho como está". in Agência Financeira.

Este vem na sequência deste outro post. Será que a CIP não pensou nisto quando andou a ajudar a deitar o anterior Governo abaixo?

Limites da vergonha

A falta vergonha deveria pagar imposto. Ou multa, pelo menos. Nem que fossem cinco euros ou cinquenta cêntimos para juntar aos de Soares. Como podem senhores como Pacheco Pereira criticar Santana Lopes por não se ter ontem demitido, alegando que este está a "prejudicar o partido"? Se falarmos em "prejudicar um partido", o seu próprio partido em Portugal nos últimos tempos, apenas poderemos continuar a conversa se a começarmos com o nome do próprio Pacheco Pereira, continuando em Marcelo, prosseguindo em Marques Mendes. Depois, poderemos então falar de Santana. Talvez até pregá-lo numa cruz ou deitá-lo aos tubarões. Mas primeiro, antes de tudo, venha a decência e um período de nojo para alguns. Pelo menos enquanto não tiverem a decência que teve o fundador do PSD, Francisco Pinto Balsemão, ao afirmar ANTES das eleições que votaria no seu partido de sempre. É que, medito eu, em quem votou afinal Pacheco Pereira?

Ops! Será que nos enganámos a votar?

Acabei de ouvir o Presidente da CIP, Francisco Bello Van-Zeller, dizer que "a CIP desconhece completamente quais as medidas do PS para o sector económico, pois Sócrates nunca as explicou".
Pergunto eu se, às tantas, não teria sido obrigação da CIP de se assegurar sobre qual seria a política económica do PS antes das eleições, de pressionar para que Sócrates a explicasse e de tomar uma posição sobre o assunto, pública.
Agora só lhes resta dizer: "que sorte, era mesmo isto que estávamos a precisar ou, que azar, afinal este não serve..."
E, digo eu: então para que serve a CIP?

A luta de Sócrates

A conclusão é evidente. O Partido Socialista ganhou. Obteve, aliás, a sua mais expressiva vitória. Mesmo longe da maioria de votos, conseguiu o que nunca tinha conseguido, a maioria de deputados. À partida, tem por isso que se felicitar José Sócrates e congratularmo-nos por ser ele a liderar o partido e já não Ferro Rodrigues ou Guterres. Para o bem e para o mal, Sócrates representa qualquer coisa de diferente na liderança do PS. Há uma renovação de estilo e de vontade que é obrigatório reconhecer-lhe e faço-o com satisfação.
Por outro lado, para o bem e para o mal, temos uma maioria absoluta de um só partido. Nesse aspecto, não concordo mesmo nada com Paulo Portas, quando pretendia evitar essa maioria. O estado do país é de tal forma sério que não seria admissível pairarmos nos próximos tempos com um triunfo do PS sem maioria, gerindo-se os humores do(s) presidente(s) e dos portugueses a todo o momento, condicionando a governação à esquerda de Louçã e à possibilidade de eleições para breve. Assim, a maioria de deputados é bem vinda.
Como sempre disse, a política é um mal menor e este é, ainda assim, o resultado menos mau que poderia imaginar num quadro de vitória da esquerda: o triunfo com maioria do PS.
Não deixa de ser, contudo, para mim evidente que nem no quadro mais surrealista e favorável o PS chegou à maioria dos votos. Nesse aspecto, mantenho tudo o que disse. Portugal não é terreno para uma maioria do PS e mesmo esticadinho, foi o que deu.
Aliás, sendo esta uma grande vitória pessoal de Sócrates, temos que ser claros: o novo Primeiro-Ministro terá que distribuir dividendos, imediatamente, sobre a mais-valia eleitoral. Não ao seu partido, mas aos comentadores, jornalistas, directores de jornais, supostos economistas, Governador do Banco de Portugal, grandes “empresários da finança”, banqueiros, gestores de empresas de sondagens e ao Presidente da República, pelo menos…
Se a vitória é sua, a maioria é desses e serão esses a querer governar Portugal, mais do que ele. E quando falo em “empresários da finança” não falo no tecido empresarial português, nem nos gestores e investidores que constroem Portugal todos os dias, esses deram esta manhã o seu primeiro sinal de alerta, com a bolsa de Lisboa a abrir no vermelho, com todas as acções a baixar, contrariando, aliás, todas as Praças europeias. Para quem via na vitória do PS um bom sinal de esperança...
Dito isto, e reservando para mais tarde os comentários à direita (a Paulo, a Santana e a outros), apenas mais uma observação que me parece evidente: Sócrates foi importante na vitória, mas para que Portugal ganhe com esta tremenda trapalhada política construída por Jorge Sampaio, será importante termos um Governo credível. E não sei se o líder do PS o saberá, conseguirá ou poderá criar.
Ontem, quando ouvia o seu discurso de vitória no Altis, senti um estranho calafrio, ao ver sentados na primeira fila uma série de "detritos" guterristas, com cara de golpistas que acabam de tomar o poder com uma qualquer artimanha apenas própria do estranho e decadente desenrasca português. Do cimo do púlpito, Sócrates era, por outro lado, o espelho do susto, agarrado a um papel que lia enquanto transpirava. Nunca tinha visto um líder partidário, acabado de ser eleito Primeiro-Ministro - o homem mais importante do país - esgadanhar-se com um papel e o seu próprio suor numa noite em que, mais do que palavras escritas priviamente, os portugueses gostariam de ter sentido a sua força para mudar Portugal.
Pela minha parte, estou tão pessimista quanto os investidores da Bolsa. Será Sócrates capaz de governar o país? Não creio, nem de governar o PS mostrou ontem ser capaz de o fazer. Não, certamente pelo medo das câmaras que se atropelavam entre a multidão, não certamente com medo da própria multidão que o elegeu, mas com um terrível calafrio que aquela primeira fila lhe criou na espinha! A ele e a todos nós.
Para completar, a sua saída do Altis foi a continuação de uma triste realidade: Sócrates, confunde-se no meio da populaça, sem escolta decente, sem força para a ultrapassar, sem autoridade para a dominar… No parque de estacionamento do hotel, no mesmo momento, já os "detritos" guterristas se deviam degladear entre a escolha de Mercedes e BMW, pastas e cargos, poderes e poderzinhos...

domingo, fevereiro 20, 2005

Conclusão

O crime compensa. E não me refiro a Soares, mas aos resultados eleitorais...

Resultados oficiais

Ó que é isto?

A tradição democrática de Portugal acaba de ser quebrada por um homem que se julgava ser um dos símbolos da democracia: Mário Soares será alvo de queixa-crime por parte da CNE ao Ministério Público pela suas inacreditáveis declarações à saída de uma Assembleia de Voto.
No fundo, o que fez hoje Soares vem na linha daquilo que disse no meu "post" de declaração de voto: estas foram (estão a ser) as eleições menos democráticas de sempre.
Mas vejamos a notícia do Portugal Diário (IOL) sobre as declarações desse "simbolo da esquerda democrática":

A Comissão Nacional de Eleições (CNE) solicitou hoje, à comunicação social, a suspensão da emissão das declarações de Mário Soares à saída da assembleia de voto, em que este refere uma maioria absoluta no PS.
De acordo com fonte do CNE, Mário Soares fala mesmo em "maioria absoluta no PS" nas declarações prestadas aos jornalistas logo após exercer o seu direito de voto na Universidade Clássica, em Lisboa.
Pouco depois das declarações terem sido passadas pelas televisões, a CNE recebeu "muitos telefonemas" de protesto, alguns de pessoas do PS, e solicitou de imediato a suspensão das mesmas, acrescentou a fonte.
Segundo a CNE, o assunto será agora debatido no próximo plenário da Comissão e a solução "poderá passar por uma queixa no Ministério Público", tendo em conta que foi desrespeitada a lei que obriga a que não se fale nas forças políticas e orientação de voto numa proximidade de 500 metros das urnas.
in Portugal Diário

Resultados

Acompanhe aqui (STAPE) os resultados oficiais do das eleições legislativas, nomeadamente os números da afluência às urnas:

http://www.legislativas.mj.pt/

Se tem dúvidas sobre on acto eleitoral, se pretende informações, se perdeu os documentos, se não sabe o seu número de eleitor, há um serviço online neste site que lhe explica tudo.
Neste site pode obter o seu número de eleitor apenas através do nome e data de nascimento. Em alternativa ligue 800 200 142.

Não deixe é de votar!

Despudor

O despudor da mensagem de Jorge Sampaio deve fazer-nos pensar a todos.

sábado, fevereiro 19, 2005

Post Aberto ao Presidente da República

Escrito a 8 de Outubro de 2004, muito antes da dissolução.

Já agora, vale a pena ler isto no JN, reproduzido também no Micróbio, com comentários interessantes.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Declaração de voto

Já aqui disse um dia. A política e a democracia portuguesa são, há muito, uma escolha de entre o mal menor, sendo isso que está domingo em causa. Mas ainda bem que ainda é uma escolha. Enquanto for uma escolha, isso significa que estamos em liberdade e democracia.
Esta terá sido das menos democráticas eleições de sempre. Quer pela sua génese quer porque houve factores muito pouco democráticos que no futuro a nossa sociedade terá que aprender a controlar. Democracia não é ausência de regras. É, pelo contrário, a existência e cumprimento das mesmas, de forma justa e equitativa. E nem sempre tal aconteceu. Para dizer a verdade, poucas vezes isso aconteceu nesta campanha.
Voltando atrás, em nome dessas regras, nomeadamente do direito que entendo ter esta maioria, em nome também de um risco que vejo no regresso ao "Guterrismo", em nome ainda de um risco real de ver a esquerda radical ascender ao poder, em nome da estabilidade política que a esquerda não conseguiu nunca fornecer ao país, vou votar na direita e vou votar no PSD. Não vou votar a favor de Santana Lopes nem contra José Sócrates. Vou votar no partido e nas pessoas que mais prosperidade, estabilidade e competência trouxeram a Portugal nos últimos 30 anos.
E, neste momento, sinto que tenho que me deixar das “pieguices” do costume. Portugal não é uma telenovela em que simpatizamos mais com o Manuel ou com o João. Portugal é um país. Se votasse segundo a minha simpatia pessoal votaria certamente CDU.
Como voto segundo a minha consciência, votarei do lado certo da história lamentável da senilidade de um Presidente da República que culminou numa inconcebível e arbitrária dissoloção da Assembleia.
Eu vou votar PSD, com toda a minha convicção.

Precedente

Os comunicados da PJ e da Procuradoria Geral da República a propósito do caso Sócrates/Freeport são, no mínimo, um precedente grave.
Se cada vez que uma notícia envolve alguém em algum caso judicial e, de facto, não existirem (ainda) indícios, a PJ desmentir em comunicado, então, o que acontecerá se o mesmo for verdade?
Isto é, se amanhã alguém for acusado de estar a ser investigado num jornal e a PJ não fizer um comunicado, então é verdade? Ou seja, por exemplo Ferro Rodrigues, que foi sobejamente acusado na imprensa, nunca teve direito a desmentido semelhante. Pode daí aferir-se que, de facto, havia fortes indícios?
Assim será aliás, fácil saber o que anda a fazer a PJ e quem está supostamente envolvido em alguma coisa. Basta os jornais - que neste país podem dizer o que lhes apetece sem sofrerem o que quer que seja com isso – começarem a envolver toda a gente em todos os casos, alegando “fontes próximas” e esperar. Se a PJ fizer um desmentido, é porque não há indícios, se não fizer qualquer comunicado, ficaremos então, talvez, a saber que sim!
A menos que se possa admitir que isto é tudo “tanga”. Ou seja, da última vez que me lembro de uma afirmação peremptória de não envolvimento de alguém por parte do Ministério Público, Carlos Cruz foi preso oito dias depois!
Assim, a única razão que poderia ser alegada para estes insistentes desmentidos da PJ às notícias de O Independente só pode ser o período eleitoral. Como estamos em eleições, é preciso esclarecer!
Pois se assim é, isto é, se a PJ se condiciona aos ciclos e interesses eleitorais, então quem tem razão é João Jardim, quando aponta o dedo à oportunidade da PJ em investigar e inquirir na Madeira e em todo o país árbitros e dirigentes no âmbito do processo Apito Dourado.
Para mim, a Polícia de Investigação serve para investigar. Pois se assim é que investigue. Tudo, nomeadamente de onde vêm e para onde vão as notícias e porque aparecem em determinadas alturas. Não só as do Independente mas as do Público e do Expresso também. Aliás, as do Independente têm, neste passado recente de campanha, fontes bem mais identificadas do que as dos outros dois.A verdade é que Portugal terá por ventura uma excelente polícia e um óptimo Ministério Público (será?), mas ambos demonstram ter uma inconsequente falta de capacidade para lidar com a comunicação social. Quer quando serve para a alimentar quer quando a tenta usar para seu proveito. Pelo menos nesse aspecto, quase sempre falha.

Os documentos da PJ sobre Sócrates

Não deixa de ser curioso que "não notícias" como as de Cavaco e Cadilhe tenham sido largamente repetidas, difundidas, comentadas e contra-comentadas pelas rádios, sites e televisões, mas que hoje, ninguém faça referência ao Independente. Sobretudo depois de há uma semana toda a gente se ter preocupado em desmontar a notícia do envolvimento de Sócrates no caso Freeport. Dá ideia de que há um jornalismo de "faca e alguidar" destinado a uns e outro jornalismo mais "puritano" para outros. Por mim, só há um: o jornalismo!

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Sondagem ou SCUD?

Ora bem. Sobre a sondagem de hoje e em relação aos comentários do último post tenho a dizer o seguinte:
1. Aqui ficam os resultados REAIS da sondagem:

Em que partido tenciona votar para as próximas eleições legislativas (para a Assembleia da República)?
Intenção directa de voto/resultados brutos:
PS: 34 %
PSD: 22%
BE: 5%
CDS-PP: 4%
CDU: 3%
Outros: 1%
Não vai votar: 12%
Ainda não sabe: 14%
Não responde/brancos/nulos: 5%
Estas são as respostas efectivas. Os 46% são uma "PREVISÃO" tendo em conta não sei quantos factores! OK?

2. A sondagem foi feita nos dias 12 e 13 de Fevereiro. ANTES do DEBATE de que se fala no último post.
3. Confirma-se o que se diz no post. Há um número anormal de indecidos ao mesmo tempo que só 12% dizem que não vão votar. Como toda a gente sabe, a abstenção será sempre acima dos 40%. Ora, como apenas 12% dizem que não vão votar, então isso significa que cerca de 30% das pessoas, pelo menos, estão a emntir.

O que digo no post de ontem é precisamente confirmado nestes resultados. O PS tem uma base de votantes que não terá mudado de ideias. São, certamente, muitoa cima dos 30%. Mas não mais do que isso.
Sócrates não ganhou um voto no debate, enquanto Santana e Portas foram buscar muitos.
É certo que temos que estar preparados para estes SCUDs e para os Patriot que vão ser lançados de um e outro lado. Esta sondagem é um SCUD, não é nada de objectivo ou significativo. A realidade é outra e o PS sabe-o.
Só espero que os SCUDs de amanhã sejam mais leais do que os últimos que Público e Expresso publicaram....
Outra coisa que gostaria de dizer. Não, nem todos os de direita não respondem a sondagens e nem todos os de esequerda o fazem, mas, de facto, neste país, criou-se uma ideia, uma inaceitavel pressão, diria, de que é crime votar em Santana Lopes, por exemplo, como anteriormente havia a ideia de que era crime votar no PCP. Isso prova-se com os resultados do PCP sistematicamente superiores a todas as sondagens. Agora, não ponham nas minhas palavras aquilo que eu não disse e não escrevi.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Voto da liberdade

Estas palavras de Jorge Sampaio a poucos dias das eleições, só podem ter uma leitura: o país despertou (e o próprio Sampaio) para uma possibilidade, após o debate de ontem na RTP: o PSD pode ganhar as eleições. O número de pessoas que hoje perdeu a vergonha de o dizer é notável (é claro que não estou a falar dos comentadores). Com sondagens a rondar os 20% de indecisos e com 50% de abstenção, não há dúvida de que alguma coisa pode vir a surpreender os matemáticos da política, os que dizem que as sondagens não falham, mas que foram incapazes de vaticinar as vitórias do PSD em Lisboa e no Porto nas últimas eleições autárquicas.
E se os abstencionistas e os indecisos têm uma palavra a dizer dia 20, então deixem-me dizer que ontem foi um dia péssimo para a Esquerda. Não digo que tenha perdido votos. Penso que aqueles que se manifestam nas sondagens a favor do PS se vão manter, mais coisa menos coisa. O problema é que Sócrates não ganhou nem mais um voto aos indecisos e aos abstencionistas (e até a esse fenómeno que não é de menosprezar chamado "voto em branco".
Aí, creio que Sanatana Lopes e sobretudo Paulo Portas arrecadaram créditos e terão baralhado as contas que não são certas.
Um dado interessante e que os "matemáticos da política" deveriam levar em conta, tem a ver com os recordes de audiência que os debates televisivos têm tido face a outros actos eleitorais. Demonstra interesse e que a abstenção talvez venha a ser menor do que outros anos.
Se começarmos a pensar em tudo isto e começarmos a fazer contas, verificamos que o núcleo duro de votos que cada um terá conquistado até há dois ou três dias, quando as últimas sondagens foram publicadas, é mínimo.
A inquietação de Sócrates e o esticar da corda do Partido Socialista, mostra que o próprio PS sabe disto, como sabe também que há em Portugal uma outra maioria. Uma maioria silenciosa de portugueses que não tem telefone em casa, se tiver não atende, se atender não responde e se responder mente ou não quer dizer a verdade. Aliás, não tem que dizer a verdade. Essa maioria silenciosa é comunista, é do PP, é do PSD é dos “sem partido”, o que é provado por desvios sistemáticos nas sondagens a desfavor de alguns partidos.
Mas se tudo isto são conjecturas, e regressando ao início deste "post", esta tentativa de Sampaio de enviar, de novo, sinais de fumo provenientes da sua cobardia político e intelectual, mostra que deve haver no Largo do Rato, raciocínios muito semelhantes a este que eu estou a fazer. Um medo de morte do povo e da sua inteligência e independendência intelectual. Um medo terrível do voto secreto, íntimo, anónimo.
Se ainda há pouco tempo assistimos em Espanha e na Ucrânia a tentativas infelizes de contornar a democracia e a inteligência dos povos, e se em Portugal se passa hoje algo de semelhante, então, resta-me a esperança de que também por cá o povo saiba responder, não já por um partido ou por uma personagem política, mas pela liberdade.
É que, sobre este povo, ultimamente, tem sido feita uma inaceitável e vergonhosa chantagem psicológica, urdida por comprovados incompetentes, patrocinada pelo Presidente da República e sustentada por uma criminosa Comunicação Social.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Agora a sério

O PS perdeu hoje a maioria absoluta que faz parte da sua teimosa obcessão. Basicamente, por falta de classe. Portugal não dá maiorias a alguém que não tem classe.

O "sprint" da noite

O homem do campo desistiu, o que ía em bicos dos pés fartou-se de tropeçar e perdeu uma botas, um dos maricas virou-lhe as costas e correu, mas não alcançou os que corriam mais à direita. De mãos dadas, o outro e o miudo ficaram a rir-se e cortaram a meta e ganharam. Mais inexperinete, o miudo ficou em segundo.

Continuo na minha

O Jerónimo é o melhor. Ao intervalo do debate é o que menos asneiras disse!

Hoje deu-me para o "fait-divers"

No “sprint” final para as eleições temos o último debate a cinco (aliás, o primeiro…).
Muitas vezes li hoje a este propósito a expressão: “sprint”
Mal aplicada, pois claro.
É que se a eleição fosse atletismo, que competitividade teria uma corrida entre um menino esfaqueado, um homem do campo, um advogado em bicos dos pés e dois maricas?
Competitividade, certamente nenhuma, mas lá que deveria ser de rir…

Não pensam???

Há coisas no fluxo noticioso português que não entendo. Sempre que uma criancinha ou "crescidinha" contrai meningite, a notícia abre noticiários de rádio, telejornais e ocupa espaço nos jornais todos. Não entendo o critério. Olha se sempre que alguém contrai diarreia, febre, gripe, cancro, tuberculose, hepatite B, C ou D, SIDA, rubéula, sarampo, papeira... acontecesse o mesmo!
Quantas crianças morreram de meningite em Portugal no último ano? E com as outras doenças que citei?
É que acabo de ouvir pela sexta vez esta tarde a abrir os notíciários da TSF que "menina de 13 anos está internada com meningite... os médicos dizem que está bem!"
Ás vezes tenho a sensação de que os jornalistas simplesmente não pensam!

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

Campanha sem rumo

Como profissional do sector da comunicação e imagem, aproveitei esta pausa na campanha eleitoral para pensar no que, de facto, se tem passado em termos de comunicação neste período.
E constato que, além da qualidade objectiva ou subjectiva de cada candidato, além das suas convicções ideológicas e do que cada um deles tem de intrínseco que nos faz ou não acreditar em cada um deles, há um enorme déficit de qualidade nas campanhas.
Explicando melhor. Numa altura em que o Século XXI indicia que as tecnologias de informação e o profissionalismo na comunicação sejam cada vez mais utilizados, o facto, é que verificámos precisamente o contrário.
Se no discurso ouvimos coisas como “plano tecnológico” ou “choque de gestão” encher a boca dos candidatos, a amostra que nos dão dessa retórica nas suas campanhas é absolutamente confrangedora.
E não seria, talvez, necessário inventar muito. Bataria aos candidatos ou aos partidos, socorrer-se de bons profissionais e boas agências que também existem em Portugal ou, na falta delas, recorrer ao estrangeiro. Bem... se quisermos alegar que não há dinheiro para isso, pergunto-me se não o há pelo menos para comprar uns livritos sobre o assunto. Há-os nas livrarias.
De facto, não se nota que em nenhum dos partidos políticos tenha havido um plano sério e profissional dos temas de campanha a abordar, onde abordar e como abordar.
A campanha tem sido feita aos repelões, sem mensagens fortes sob o ponto de vista da imagem e da comunicação e sem coerência.
A engenharia política e o marketing eleitoral são linguagens que os candidatos não dominam e que as máquinas partidárias não colocaram em funcionamento.
Não vi envolvimento das secções locais dos partidos, não vi fluxo de comunicação aproveitando todos os meios disponíveis de forma concertada, coordenada e acertada, não vi estratégia geográfica coerente, não vi, sequer num dia, uma gestão adequada do discurso de manhã a noite. Não vi, ainda, um aproveitamento eficaz das novas tecnologias, da força da internet, dos blogs, da blogosfera. Esse foi, aliás, um campo por cultivar nesta campanha por parte das máquinas partidárias, que o deixaram completamente virgem, entretendo-se ainda algumas dessas máquinas, a enviar SPAM ingenuamente, pensando que dessa forma cativavam votos. Não terão os candidatos sequer percebido que nos Estados Unidos há quem defenda que foi na blogosfera que Bush deu 10-0 e ganhou as eleições.
Os políticos, os seus assessores, os seus homens do marketing, ou eram incompetentes ou não tiveram força suficiente para controlar os ímpetos dos seus candidatos.
Assim, os temas de campanha esgotaram-se tão rapidamente que quando a campanha se iniciou já tinha acabado. Desde aí, os candidatos a Primeiro Ministros não fizeram outra coisa senão gritar em apelo aos indecisos, não tendo percebido duas coisas: que os indecisos eram demais e que se o eram é porque ninguém ainda os tinha convencido.
Se um dos candidatos tivesse percebido isto a tempo, teria por ventura podido pelo menos tentar mudar o rumo dos acontecimentos e estaria agora em muito melhores condições para alcançar uma vitória ou uma maioria.

Em lugar de perceberem isso - que se havia agora mais indecisos isso acontecia apenas porque as mensagens de campanha eram fracas e confusas -, os candidatos continuaram no mesmo rumo de reacção, de contradição, de afrontação. Afrontaram o eleitorado. Afrontaram as suas próprias máquinas eleitorais. Desautorizaram-se, numa palavra.
Hoje, volvidas algumas semanas, nenhum deles é credível, nenhum inspira confiança para governar Portugal, nenhum mostrou segurança, nenhum mostrou ser capaz de fazer algo que se lhe exige: comandar uma equipa, sendo que comandar uma equipa significa, antes de mais, delegar capacidade de decisão nos que sabem mais do que eles em determinada matéria. Claramente, isso não aconteceu no campo da imagem. Claramente, os principais líderes partidários, sobretudo dos dois maiores partidos, mostraram que serão sempre dois maus lideres de Governo. Em lugar de se concentrarem nas suas nobres funções de campanha puramente política, quiseram antes ser arquitectos de campanha, marketers das suas campanhas. A uma semana das eleições, já não sabem o que fazer, nem o que dizer nem como o dizer. Preferiram apenas parar, estafados pela sua própria incapacidade para continuarem a ser candidatos... como hão-se ser, então, governantes?

PS: tenho que admitir que seria altamente injusto este artigo senão assinalasse aqui a minha simpatia, que não política ou ideológica, por Jerónimo de Sousa e pela campanha da CDU. Ainda assim, sob o ponto de vista da imagem e da comunicação, a mais consistente e coerente, a mais bem planeada e a que, na minha perspectiva, melhores resultados poderá dar. Jerónimo é, na minha óptica, e no plano meramente profissional, a grande surpresa desta campanha. Bem assessorado e competentemente eficaz, fez uso de uma pouco normal espontaneidade e simpatia. Penso que tirará dividendos disso. Não é, contudo, candidato a coisa nenhuma, mas merece a minha admiração.

A pior de sempre

O cancelamento das acções de campanha pela morte da “Irmã Lúcia” só podem ter uma explicação: já nem os candidatos têm pachorra para esta campanha.

domingo, fevereiro 13, 2005

Esclarecimento sobre o "post" anterior

Sim, claro. Acho que a PJ deveria investigar e julgar os jornalistas que escrevem coisas destas, totalmente falsas e não fundamentandas. Poderão ter cometido pelo menos 3 crimes: abuso de liberdade de imprensa, difamação e tráfico de influências. Ou será mais grave tentar influenciar o trabalho de um árbitro do que o voto dos portugueses?

Leia o estatuto editorial do Expresso. Dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

sábado, fevereiro 12, 2005

Crise de crescimento?


Os últimos dois anos foram pródigos em descobertas em Portugal.
Privados das naus que outrora os levaram além-mar a descobrir e conquistar outras paragens, os portugueses têm-se dedicado agora a vasculhar os bolsos uns dos outros, para ver se encontram a mica e a pimenta que foram buscar à Índia mas nunca patentearam.
Foi o caso “Casa Pia”, foram as Câmaras Municipais, foi até o futebol. Não há semana que não tenha árbitros a sair e a entrar nos corredores de tribunais e das instalações da PJ. Os médicos viram-se também incomodados com a questão dos “congressos” e das empresas que os levavam em passeios “técnicos” e agora têm que ter mais cuidados.
Até os deputados se viram a contas com uns problemas de umas viagens fantasma que faziam... ou melhor, não faziam.
“Peculato”, passou a fazer parte do vocabulário dos portugueses, pois até há dois ou três anos atrás ninguém sabia o que era isso.
Curiosamente, estes casos apenas começaram a ser realmente investigados depois de terem acontecido duas ou três coisas. Uma delas tem a ver com a existência de legislação. O código penal sofreu uma evolução no que diz respeito, por exemplo, aos abusos sexuais, bem como os crimes de corrupção desportiva. Até há bem pouco tempo, comprar um árbitro não era crime, era um assunto interno do futebol. Hoje não é assim.
Outro dado importante teve a ver com o facto de, após a aprovação da legislação, ter, a determinada altura, havido vontade política para executar a Lei.
Aparentemente, no passado, havia uma cultura política que impedia que certas pessoas fossem incomodadas pela Justiça. Por alguma razão, os profissionais da Justiça parecem ter-se emancipado!
Coincidência, certamente (se esta minha afirmação é ou não irónica, fica ao critério de cada um), há outro “marco” nesta matéria. A chegada à Procuradoria de República de Souto Moura e a saída de Cunha Rodrigues. De facto (é de certeza coincidência), foi a partir daí que a expressão “vai ser abafado” começou a ter menor aplicabilidade.
Quero com isto dizer o quê?
Foram precisos quase 30 anos para que amadurecesse a democracia portuguesa em certos aspectos. Perguntam-se se já está madura? Claro que não! Estará numa enorme, lamentável e ridícula crise de crescimento, apenas. Tipo, borbulhas na cara.
Pensa a Justiça que faz justiça, quando depois se deixa enredar num emaranhado de fragilidades processuais no caso Casa Pia, por exemplo, pensam os portugueses que vivem num país das descobertas, quando vivem num reles quintal onde as flores murcham ou por terem sol a menos ou água a mais.
Estamos, por isso, numa fase, apenas. A fase em que não se pode fazer uma data de coisas que sempre se fez e que deixou de se poder fazer, não por convicção de que está certo ou errado, mas porque uma classe ou corporação se legitima em novos e nobres valores para fazer o que lhe apetece, discricionária, levianamente e quase sempre carregada de incompetência.
É claro que, como em todas as crises de crescimento, há sempre um lado positivo: está-se a crescer.
Pois bem. Admitamos então que estamos a crescer e demo-nos por satisfeitos quanto a esse ponto. Esta é, portanto, uma crise necessária. Um mal necessário, onde no meio de processos e famosos julgados na praça pública, se vão carpindo os males nacionais e se vai esquecendo que estamos cada vez mais longe de viver melhor, de viver como os outros europeus.
E esse pode mesmo ser o problema. É que talvez esta crise de crescimento esteja apenas a atingir um braço, uma orelha e, por exemplo, o dedo grande do pé, e que estejamos a assistir à criação de um pequeno monstro chamado Portugal.
Se vejo hoje aplicarem-se em Portugal Leis que importámos de outras paragens. Se vejo chegar a Portugal a tecnologia de outros países. Se vejo implementadas na nossa sociedade técnicas de outras democracias, vejo atrofiar a cultura da responsabilidade democrática, do civismo, da deontologia e da honra.
Certamente, o jornalismo, a Imprensa, se quiserem, é um sector esquecido nesta “crise”.
Tal como no futebol há uns anos, no jornalismo continua a poder comprar-se o árbitro. Tal como na medicina há uns anos, no jornalismo continua a poder chamar-se congresso às férias oferecidas. Tal como nos crimes sexuais há uns anos, no jornalismo violação de um rapaz continua a ser apenas atentado ao pudor. Tal como neste país há uns anos, no jornalismo há personagens intocáveis e casos “abafáveis”…
Para que Portugal cresça. Para que este rectângulo de flores murchas tenha esperança de voltar um dia a descobrir o Mundo, será necessário um crescimento sustentado e, parece-me a mim, Portugal não deu conta do poder que está na comunicação social, deixou-o à deriva, nas mãos de iletrados, fanáticos, fundamentalistas e imbecis. Sem cultura democrática, sem Leis, sem controlo, sem escrúpulos e sem vontade de encontrar caminhos.
Distraídos, também, pois não repararam ainda que minam o seu próprio território e que é debaixo dos seus pés que um dia o país vai explodir.

É que, se estamos a atravessar uma crise de crescimento, se tudo o que se tem passado nesta campanha é apenas um severo ataque de acne, não podemos deixar de nos lembrar que é na adolescência que muitas vezes se ganham os vícios que nos impedem de nos tornarmos homens adultos. No nosso caso colectivo, numa verdadeira democracia.

Triste país!

Não tenho esperança nenhuma neste país. Numa altura tão difícil como esta, deparo-me com um Presidente idiota, candidatos chanfrados e uma imprensa ridícula e que pensa fazer de todos anormais.
Ouvi hoje da boca de Santana Lopes a primeira grande verdade desta campanha: “isto já não é uma democracia”. Eu acrescento: “isto já não é um país”.

PS: a edição de hoje do Expresso é um panfleto reles, triste e mal feito de campanha eleitoral. A ideia de que foi Santana Lopes a colocar a notícia do Cavaco no Público é não só um insulto a Santana Lopes, a Cavaco Silva, aos partidos, aos portugueses e à sua inteligência, como é também um despudorado e lamentável atestado de estupidez aos “camaradas” do jornal Público, “anjinhos” que foram na fita.

sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Mudaram os tempos

Engraçado.
Já repararam que quando o PSD era Governo, nos tempos de Cavaco Silva, qualquer notícia sobre corrupção, ilegalidade, investigação ou acusação, era logo sinónimo de demissão. A oposição saía em gritos à rua, falava em negociatas, em corruptos e em favores, exigia demissões, mesmo muito antes de haver mandatos, investigações, processos judiciais e, obviamente, qualquer espécie de condenação e trânsito em julgado.
Sempre estive contra isso.
Hoje, anos depois, e quando começaram a pender sobre líderes socialistas mais do que desconfianças, e reuniu o Ministério Público, por exemplo, no caso Casa Pia, fortes indícios que levaram mesmo à prisão preventiva de um deles, as coisas mudam.
Agora, só se pode falar destes assuntos quando transitar em julgado. E, já se sabe, como funciona a justiça portuguesa...
Hoje, como anteriormente, como sempre, sinto-me mal com o “jornalismo” de “O Independente”, como me senti há dias com o do “Público”. Mas sinto-me melhor porque não vi nenhum líder partidário, opositor de Sócrates pedir a sua exclusão do acto eleitoral.
Não sei se a conclusão que daqui poderemos tirar é boa ou má. Será que a nossa cultura democrática subiu de nível e respeitamos hoje mais o valor da presunção da inocência do que nos tempos de Cavaco? Ou estaremos hoje tão despidos de valores basilares da sociedade que, mesmo sobre tão graves acusações, aceitamos estes homens, presumíveis corruptos, como nossos possíveis governantes?
Uma coisa sei: o jornalismo não está hoje melhor.

Quando votar no PS estará a votar neles...


O PS é hoje visado no semanário "O Independente" por causa de um alegado favorecimento ao FreePort. Segundo o Jornal, a Polícia Judiciária investiga um eventual financiamento do Partido em troca de favores legislativos. Ou seja, aquilo que Louçã costuma chamar de "negociata".
Entretanto, depois de ler "O Independente" esta manhã, deparei-me com algo bem pior do que a "negociata". Mais à frente, aquele semanário mostra-nos um autêntico filme de terror. O rosto dos futuros ministros socialistas. Isso sim, preocupa-me verdadeiramente.
Clique na imagem para ampliar, olhe para eles e diga-me se é este conjunto de "engraçados" que quer para governar Portugal. O estranho disto, é que temos opção. Não é obrigatório votar nestes gajos, podemos votar noutros...

Actualização:
O PS emitiu um comunicado a dizer que José Sócrates nada tem a ver com este assunto!
Vejamos então o despacho do Concelho de Ministros publicado em Diário da República:
Alterações ao ZPE (Zona de Proteção Ecológica) Decreto-Lei 140/2002 de 20 de Maio
Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 14 de Março de 2002. —António Manuel de Oliveira Guterres
Rui Eduardo Ferreira Rodrigues Pena — Luís Garcia Braga da Cruz — Luís Manuel Capoulas Santos — José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Recordando "post" que escrevi no dia 2 de Fevereiro

Ainda a propósito da notícia do Cavaco, das desculpas pouco assumidas do Público e de um comentário sobre a eventual luta de interesses dos senhores José Manuel Fernandes e Eduardo Dâmaso dentro do jornal, recordo um post que aqui escrevi sobre um editorial que passou despercebido a muita gente, mas que, logo naquele dia, me pareceu a mim como uma viragem histórica do jornalismo em Portugal.
Tinha razão. Repito-o agora:

O umbigo de José Manuel Fernandes

Os últimos meses da vida política nacional têm, de facto, sido diferentes. Depois de Jorge Sampaio ter pretendido ficar na história da “democracia” portuguesa pelas piores razões, dissolvendo uma Assembleia da República que sustentava um Governo que não estava demissionário, também no jornalismo político se faz história.

De facto, o editorial de hoje (dia 2 de Fevereiro) do jornal Público, escrito por José Manuel Fernandes, constitui um marco histórico para o jornalismo do 'pós-25 de Abril'.
Embora seja prática habitual que os jornais diários norte-americanos assumam editorialmente um dos lados da campanha, ficando o leitor “avisado” para a tendência daquele órgão de comunicação, já em Portugal não havia precedente.
É evidente que muitas vezes se notam essas tendências, ainda assim, mas vão sendo disfarçadas e mesmo evitadas, numa procura de determinada isenção na cobertura noticiosa das campanhas.
Ora, o texto de José Manuel Fernandes é pura e simplesmente um acto de ataque, pessoal e político sem precedentes a um chefe de Governo em Portugal num editorial de um jornal generalista e independente, com a particularidade de acontecer em plena época de campanha eleitoral, na véspera do único debate entre os dois candidatos.
Ou seja, a partir de hoje "comprou" o jornalismo português um “tique” do jornalismo, diria, da “máquina eleitoral” americana. Se para bem ou para mal, não sei. Se legítimo ou ilegítimo, não sei. Fica à consideração dos teóricos da profissão.
O que gostaria de comentar em relação ao que escreve o director do Público é apenas isto: admiro-o pela coragem, felicito-o por ter tido pelo menos a honestidade intelectual de expor de forma transparente a linha editorial do seu jornal nesta campanha… mas lamento o tom de uma certa "imbirração" pessoal que noto na sua escrita.
É que se as suas violentas palavras têm mesmo esse tom que eu julgo poder ler-lhes, então retiro a admiração e a felicitação que comecei por lhe prestar. O país, a Governação e o jornalismo não servem para satisfazermos o nosso umbigo. Não servem para satisfazer o de Santana Lopes, não podem servir para o mesmo efeito no de José Manuel Fernandes.

os comentários de então

Desculpas envergonhadas

O Público percebeu hoje que tinha errado e pediu desculpas. Antes tarde do que nunca. Mas, de facto, muito tarde. Como hoje muito bem disse Duarte Lima na sua crónica na TSF, “o que não escreveria o seu director em editorial se tamanho erro tivesse sido cometido por um dos candidatos às legislativas”.
Mas é preciso ler o texto do Público com atenção. E se o fizermos, como leitores sérios, ficaremos com dúvidas sobre se serão de aceitar estas "desculpas".
De facto, a breve nota assinada pela “Direcção Editorial” não é clara. Como não foram as várias notícias que a motivaram. A ambiguidade do título que o Público agora confessa ser falacioso, sem que tenha a coragem de o dizer, repetiu-se em todo o texto e repetiu-se ontem, quando desajeitadamente tentou repisar a ideia e atrevo-me a dizer que se repete hoje no pedido de desculpas. Como se repetiu nas alarvidades que o senhor Dâmaso foi explanar à SIC Notícias, como se repetiu em tantos outros artigos e opiniões.
Como leitor sério, eu não aceito este pedido/justificação, assinado por uma entidade de todo abstracta para o leitor. Voltando à linha de pensamento indiciada por Duarte Lima, tratando-se de um erro político, aceitaria o editorialista José Manuel Fernandes, nas suas cáusticas crónicas, que o PSD ou o PS assinassem uma breve nota sem uma retratação pessoal do político em causa, do líder do Partido? Aceitaria o director do Público e os exigentes jornalistas do Público um “desculpem lá, fui infeliz” sem uma demissão, caso Santana Lopes fosse autor de equivalente erro?Claro que não. Teriam pedido a sua cabeça, que no Público não cai.
O pedido de desculpas do Público é fraco e justificativo, não tem a intensidade da notícia nem a humildade de quem aceita que errou.
Sobretudo, o pedido de desculpas do Público pelo seu repisado erro, não apaga eventuais prejuízos eleitorais. Nesse aspecto, Santana Lopes perdeu. Perdeu votos, mas sai a ganhar num aspecto: o seu tom, a sua compreensão, a sua serenidade ultrapassou a minha, a de outros militantes e penso que até a de Cavaco.
E, sendo assim, até eu poderia tentar esquecer este episódio triste que colocou a profissão de que tanto gosto num plano que não imaginava até há bem pouco tempo. Mas, para ficar completo este momento de infelicidade nacional, ajudaria que, mesmo com subterfúgios e até pleonasmos, conseguisse José Sócrates ter uma atitude a que chamaria de “homem” e viesse a público (e, já agora, porque não ao Público) pedir também desculpas. A Cavaco, aos eleitores, a Santana… será capaz?

"O rigor de uma informação completa e fundamentada - sobre factos e não sobre rumores -, a imparcialidade da atitude jornalística, a correcção, clareza e concisão da escrita são, para o Pùblico, regras essenciais" in site institucional da SONAE.COM. Conforme alguém que comentou num post anterior, também eu já lavrei o meu protesto directamente à SONAE, pedindo o afastamento da Direcção do jornal.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Os jornalistas incompetentes que afastaram os jornalistas competentes

Vai fazer um ano. Foi a 11 de Março de 2004 que um infame ataque terrorista lançou o pânico em Madrid. Estávamos a dois dias das eleições e José Maria Aznar tomou uma de entre tantas más decisões da sua governação. Iludir a verdade.
Na redacção do principal jornal espanhol (El Pais) discutia-se a Machete.
No escrupuloso cumprimento da mais elementar ética e deontologia jornalística, o director decide-se por não apontar o dedo a ninguém. Embora tivesse indícios de que o ataque poderia ter sido preparado pela ETA e outro que, ao contrário, poderia ter origem na Al Quaeda, o director preferiu um título neutro: “Carnificina em Madrid”. Horas depois, mudava de opinião e alterava, com a rotativa à vista para “Carnificina da ETA em Madrid”.
A história havia de mostrar, horas depois, a verdade. O atentado não era assinado pela ETA, mas pela Al Quaeda.
No dia seguinte, o director do mais prestigiado e vendido diário espanhol, abriu o seu editorial para pedir desculpas. Aos seus leitores, à ETA e aos seus jornalistas. Ao contrário do que tinha feito na véspera, o director, sério, ético, deontológico, revela a fonte e as razões que o levaram a apontar o dedo à ETA. “A minha fonte pareceu-me credível”, escreveria. “A minha fonte foi o Primeiro-Ministro, que me telefonou pessoalmente assegurando-me que estava na posse de provas do que dizia. Enganou-me. E eu peço desculpa por isso”, remata.
José Luis Cebrian, Administrador do Grupo PRISA, que detém o El Pais, ex-director do jornal e um dos mais conceituados jornalistas a nível mundial, diria mais tarde que fez muito bem o seu director. Em mudar o título e em pedir desculpa no dia seguinte, revelando a fonte. Numa entrevista a que assisti na RTP2 há uns tempos, afirmou Cebrian: “Pensávamos que o Primeiro-Ministro era uma fonte credível. Pedimos desculpa, mas aprendemos que não… pelo menos em Espanha não é”.
Vem isto a propósito do que se está a passar com o jornal Público nestes últimos dias.
Perante um erro (terá sido erro???) e perante o desmentido por parte do visado nas declarações, o Público não revelou a falsa fonte, não pediu desculpa, não fez mea-culpa, não respeitou o leitor. Ao contrário, o Público veio hoje, omnisciente e omnipresente, afirmar que o que diz Cavaco Silva não é o que ele pensa ou gostaria de dizer. "Quem tem razão somos nós. Ele, o visado, diz isto, mas o que lhe vai na cabeça é outra coisa".
Vai mais longe, qualifica a intenção do que disse e do que pensa. Porque o disse e como o pensa e, finalmente, deturpa até o que dizem os que não acreditam no que disse. Ao título “Santana diz que ex-primeiro-ministro arrisca-se a ser um novo Freitas do Amaral”, não corresponde, afinal, nenhuma afirmação do actual Primeiro-Ministro. Conforme se lê no próprio texto do Público, Santana Lopes não disse nem pouco mais ou menos algo que possa levar a um título destes. Como não há de outros, sistemáticos, matemáticos, atrevo-me, que o Público tem publicado.
O que se está a passar com o Público e eventualmente com outros órgãos de comunicação social portugueses é da maior gravidade, não só para o jornalismo, não só para um personagem que caiu na desgraça (Santana Lopes) mas sobretudo para a nossa democracia e para a nossa estatura moral. Sim, para a nossa, o Público não são só os jornalistas que o fazem e fizeram durante estes anos. O Público foi feito pelas notícias (leia-se: verdade) e pelos leitores.
Roubando a Pacheco Pereira uma expressão que ele já terá eventualmente roubado a alguém: “Quem nasceu lagartixa nunca será jacaré”. Diria assim também: “quem nasceu Público nunca será El Pais”. E é por essas e por outras que, tristemente, nunca Portugal chegará a ser Espanha.
Apetecia-me dizer, com optimismo, que será chegada a hora de também os jornalistas competentes afastarem os jornalistas incompetentes.

Mas receio, no mais justificado pessimismo, que terá já sido a hora em que os jornalistas incompetentes, afastaram os jornalistas competentes”.

O asno e asneira

Fiquei perplexo quando ontem ouvi um senhor Eduardo Dâmaso falar na SIC Notícias em representação do Público (onde é sub-director) sobre o caso da “aposta” de Cavaco. O que ele disse dava-lhe chumbo em qualquer disciplina relacionada com jornalismo, português ou comunicação em qualquer curso secundário ou superior.
“Por ventura o verbo ‘apostar’ é demasiado forte, o que queríamos dizer era ‘prevê’”, disse o dito senhor que, de seguida, mostra a incompreensível manchete de hoje.
Pior do que incorrer num erro é cometer outro maior para emendar o primeiro, tentando justificá-lo. Não sei se a história conseguirá ou não deitar todos os energúmenos que passeiam pela escrita pelos jornais portugueses para o desemprego, mas se um destes vier um dia a debater-se com a sua consciência por ter impune e desonestamente ajudado Sócrates a chegar ao poder, já não será mau de todo.
Entretanto, infelizmente, pude ontem confirmar que Portugal é uma sociedade muito tolerante, pois permite que os idiotas cheguem a cargos de direcção de jornais, repitam e defendam idiotices na televisão e não sejam incomodados por ninguém.
Mas se tudo isto é apenas a minha opinião, discutível, claro. Já o sorriso “malandro” (estou a ser simpático) do dito senhor enquanto teorizava sobre a questão era por demais evidente. A baba só não lhe caiu por sorte. Paracia dizer: "eu é que sou o 'chico-esperto', sou inteligente e o povão engole tudo".
Portugal é dos espertos, não há dúvida, ou dos que se julgam espertos, pelo menos. Mas não será para sempre!
Outra coisa que nada tem a ver: maso era sistematicamente o personagem com a função de asno nos romances de Eça de Queirós, não era?

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Sócrates justifica-se

José Sócrates, depois de comentar a "não notícia" do Público sobre algo que Cavaco Silva, pelos vistos, nunca terá dito, veio agora comentar no seu blog o comentário ao comentário de Alberto João Jardim... comentando também o não comentário de Cavaco Silva ao seu próprio comentário que, afinal, não tinha feito... mas também não desmentiu a não ser por uma elgada... "fonte próxima".
Estranho este último... "comentário" sobre o comentário do comentário... feito por Sócrates, já que comentar os comentários negando comentários que nunca se fizeram afinal, a avaliar pelo comentário da fonte próxima, é apenas HÁBITO DAS ALCOVITEIRAS e não propriamente de quem quer fazer campanha pelo positiva, pelas propostas do Partido Socialista e sem criticar os adversários... ou não era isso que o PS ía fazer?
Fala Sócrates em "jardinização"? Só se for a sua, sendo que o PS, neste caso, seria um jardim de mau cultivo, com uma florizinha de cheiro e muito susceptível no seu centro, chamada... Sócrates.
Agora um mais objectivado comentário:
alguém ouviu ao PS uma única proposta nos últimos dias?
E agora outro:
que espécie de propostas terá um partido que centra todo o seu discurso numa ideia: "este PSD está irreconhecível", que é como quem diz "eles normalmente são melhores, mas pontualmente nem por isso"?

Início do Jornal da Noite da SIC

"Boa Noite. Divisões no PSD acentuam-se na campanha eleitoral..."
Em rodapé: CAVACO DESMENTE APOIO AO PS

Jornal Público: nasceu uma nova forma de jornalismo

A opinião e as mais graves e controversas opiniões, afirmações e declarações em Portugal deixaram de estar assinadas e de serem assumidas. Mesmo quando se trata de pessoas e figuras tão insuspeitas como Cavaco Silva. O artigo de hoje no Público não existe por si só, não é jornalismo, nem a verdade, nem se assemelha. Só há uma hipótese perante isto: ouvir o próprio, (o que o Público não diz sequer ter tentado fazer) colocar as suas palavras entre aspas ou estamos no mais puro domínio do boato, que não é nem melhor nem pior do que o boato de que Sócrates "abichanou". Gostava, aliás, que o Público defenisse bem o sentido do "boato" e da "boca" e que claremente pudesse distinguir tal coisa do "jornalismo".
Aliás, Cavaco é um das figuras de maior prestígio da política portuguesa. É por isso inaceitável que deixe a sua opinião (esta opinião, em particular) ou o que "acha" ou não "acha" entregue à boca de outros. Ou Cavaco Silva aparece rapidamente a desmarcar-se deste artigo e a processar judicialmente o Público, por usar o seu nome e a sua palavra na mais pura e baixa campanha eleitoral, ou então deixa de ser necessário, a partir de hoje, ouvir a sua opinião em discurso directo. Os políticos podem arrumar as botas, deixa de ser preciso entrevistas e comícios. O Público sabe o que cada um "acha" e escreve, sem fundamento, sem fonte, sem jornalismo. Mesmo que eventualmente concorde com tal opinião, uma personalidade digna e intelectualmente honesta não pode aceitar que seja um jornal, na mais pura das especulações, a atribuir-lhe a si, afirmações com tão grande dimensão política. Cavaco tem, por isso, obrigação de estar zangado com este artigo e de esclarecer urgentemente: quer ou não que o PS ganhe as eleições. Se o não fizer, então terá entrado para o mesmo clube de Freitas do Amaral e necessitará apenas que o passemos a ignorar, a partir de hoje.
Reparem no texto do Público de hoje, para que não haja dúvidas:
"Aníbal Cavaco Silva aposta numa maioria absoluta do PS nas legislativas de dia 20 e considera que esse é o melhor cenário para o lançamento da sua candidatuta à Presidência da República. Cavaco está mesmo convencido de que esse cenário se vai concretizar".

O terror


Este cartaz foi retirado de "O Acidental". Desculpem, mas não resisto a reproduzi-lo...

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

A minha sondagem


Em tempo de números eleitorais, também tenho os meus. É com agrado que registo que o Nónio bateu o recorde semanal de visitas. Na semana que ontem terminou, registei 1.122 visitas no NónioBlog. É verdade que quando foi a questão do aborto e do golo que não foi golo, num só dia ultrapassei as quinhentas visitas, o que atribuo a um e a outro "post" mais feliz ou especial, que interessaram o público e que chegaram, por isso, a ser reproduzidos em outros blogs e até sites nacionais.
Esses momentos não têm, contudo, o valor do resultado global desta semana.
Poderão dizer-me que é pouco, cerca de 200 visitas diárias. Será, com certeza, se compararmos o Nónio a blogs de referência como o Abrupto ou o Barnabé. Mas para mim, que não tenho nem nome, nem fama, nem me apoquento a auto-promover a minha opinião, é muito significativo.
Afinal, o Nónio é um dos meus pequenos mundos, uma forma civilizada de não reprimir a rebeldia e, à medida que os anos nos consomem, estes pequenos desejos, satisfeitos, fazem-nos vivos.
A minha satisfação com estes números tem outra razão. O que escrevo não tem objectivo definido. Quando se grita porque nos pisam um pé não se grita por se ter o objectivo de deixar de ser pisado. Mesmo que estejamos sós. Mesmo que quem nos pisa o pé seja uma rocha que se soltou da montanha. Mesmo assim, gritamos!
Os gritos de dor, revolta, alerta são sobretudo gritos que damos para que nos oiçamos no eco. Para que nos atire a voz para onde não nos deixa ir o pé preso pelo peso insustentável.
De certeza, este blog não me levará a lado nenhum onde eu não esteja já. De certeza. Nem com o meu nome de humano o assino, aliás. Que me reveja apenas no eco do éter que ensopa a blogosfera. Que faça alguém tapar os ouvidos uma vez e, já saberei que estou vivo. Nem que esse alguém seja eu.

Nesse sentido, acontecer o recorde de visitas num período que considero tão importante para a nossa vida comum (ou pelo menos para a nossa vida política), deixa-me particularmente satisfeito. Deixa-me particularmente vivo.
Quero com isto dizer: que o que escrevo, escrevo sem um objectivo, mas com uma única ideia.
O que escrevo, pode nem ser a verdade, mas é certamente a verdade em que eu acredito.

Tantos colos...


Numa primeira leitura transversal, vejo que os meus receios eram ontem fundados quando me referi à página de abertura da TSF Online que abaixo reproduzo. A Imprensa (Público, JN, Correio da Manhã...) teve hoje medo de mostrar a realidade. No arranque da campanha eleitoral, o PSD, se mais não fez, no mínimo deixou um sério aviso à navegação. As eleições ainda não estão perdidas e a máquina laranja só agora arrancou para o sprint. É claro que o PS vai à frente e que os comícios de Castelo Branco não mudaram de um dia para o outro as intenções de voto dos portugueses, mas certamente que ontem, ao verem Guterres, muitos sentiram o mesmo enjoo que eu senti. Penso também que muita gente terá ontem colocado pela primeira vez uma questão: "PORQUÊ?"
PORQUÊ Guterres se foi embora? PORQUÊ Guterres voltou agora? PORQUÊ Sócrates precisa de Guterres? PORQUÊ Sócrates tem que levar com Guterres? PORQUÊ caiu Santana? PORQUÊ? E PORQUÊ as sondagens de hoje põe Cavaco Silva a esmagar Guterres numa eventual eleição presidencial?
Estas são, de facto, as questões ontem levantadas com o arranque da campanha. Um arranque cujos factos são, o aparecimento de Guterres e a força do PSD, que foi ao reduto de Sócrates pregar-lhe um susto e dar-lhe uma lição de mobilização e força.
Seria, por isso, normal que hoje esse fosse o facto jornalístico em destaque.
O que é, afinal, a notícia? Ted Turner diz que notícia é quando apertamos o botão do interruptor e a luz não acende. Ou seja, notícia é o que não estamos à espera. É a anormalidade. O que foi ontem anormal e não esperávamos que acontecesse? Claramente, um arranque cheio de força por parte do PSD, onde as divergências internas em relação a Santana se esbateram face a uma surpreendente demonstração de que a máquina laranja não está morta nem adormecida e que vai vender cara a derrota.
Sócrates percebeu-o e, à noite, já em Portalegre, disparou em todos os sentidos, falando de autocarros que supostamente levariam militantes. Mas fê-lo com vergonha, sem assumir a acusação directamente. Ou seja, Sócrates acabou ontem o dia a "mandar bocas" ao PSD, curiosamente, tentando minimizar a demonstração de força que vinha do lado do seu adversário com os mesmíssimos argumentos que ouvi ao seu novo "agente" António José Teixeira, "comentador da TSF".
Tudo maus sinais para as hostes socialistas. Ontem foi um mau dia para o PS. Talvez o pior desde que Sampaio dissolveu a Assembleia.
Mas não é isso que vemos hoje reflectido nos jornais.
Leio e oiço, isso sim, as explicações mais ou menos teóricas sobre como o PSD conseguiu ganhar a batalha dos comícios e sobre a relatividade do apoio popular a Santana no reduto de Guterres e Sócrates. Há mesmo quem se dê ao luxo de contabilizar militantes, achando que o PS tinha mais. Só quem nunca entrou num e noutro espaço pode dizer tal coisa.
Interessante é tudo isto ser da maior previsibilidade. Ontem, quando me referi aos jornais de hoje, não sabia o que lá iria ler, mas previ-o. Reproduzo a seguir algumas primeiras páginas picadas da net, dos sites mais visitados e dos jornais mais lidos. E podia reproduzir outros, pois o tema ou é a "bola" ou é Sócrates. Façam a análise e digam-me, por favor, se houver melhor opinião: a imprensa em Portugal é livre? É isenta? É imparcial?
Depois de ontem e de hoje apenas posso concluir duas coisas:
1. Que o PS ainda não ganhou as eleições.
2. Se o PS as ganhar, fica a dever à comunicação social portuguesa muitos "tachos" para pagar tantos empurrões... tantos colos...

domingo, fevereiro 06, 2005

Sócrates continua à base de "empurrões"


A home-page da TSF Online no dia de arranque da campanha eleitoral (oficial) é exemplificativa do estado deplorável da comunicação social portuguesa. O dia não foi isto! O que se passou em Castelo Branco foi antes um sério aviso de que o PS tem que acordar e que as "favas não estão contadas". Pelo menos, o PSD e Santana não vão facilitar.
Esta home-page (e estou certo que a generalidade das primeiras páginas dos jornais de amanhã) o que mostra é um triunfante Sócrates (a fazer a saudação nazi??).
Depois não se queixem se alguém falar em empurrões...

Aposta

A campanha arrancou e... afinal havia outro: chama-se António Guterres. Se a vergonha matasse, um comício inteiro tinha ido hoje ao ar.
Agora uma aposta que eu faço depois de ter ouvido o comentário na TSF. O "comentador" António José Teixeira tem, de certeza, um cargo já garantido no próximo Governo PS... ou na PT, que é a mesma coisa. Resta saber se o próximo Governo PS está para breve...

Agora sim, começou a campanha

Finalmente. Foi preciso João Jardim para dizer a verdade. O Governo caiu aos pés dos interesses da Banca!

sábado, fevereiro 05, 2005

Cuidado com as precipitações

Apercebi-me agora que a campanha começa hoje. Temos pela frente duas longas semanas de campanha eleitoral. Digo isto porque, depois do debate, parace que houve uma certa sensação de "pronto, já está".
Vamos ver!

Calaram o RIAPA - o comentário

O famoso RIAPA foi retirado da net. O Sapo alegou os termos de utilização do serviço para retirar o controverso blog do ar. O conteúdo do mesmo site, que visitei uma única vez e nunca linkei no Nónio, já que os textos não me seduziram particularmente, foi considerado ofensivo e mais não sei o quê.
A verdade é que existem inúmeros blogs, sites, jornais e até programas de televisão cujo conteúdo não é muito diferente, quanto a ofensas, invasões das vidas privadas e quanto a pornografia, seja ela verbal ou através de imagens.
Quando há tempos visitei o tal RIAPA, que basicamente fazia insinuações, com nomes fictícios, sobre o processo Casa Pia, e não só, fiquei apenas espantado com o facto de estar alojado no Sapo, um servidor nacional, o que, quer em termos jurídicos quer por ser matéria sensível e bem conhecida dos portugueses, não deixou de me chamar a atenção.
Mas agora pergunto: têm folheado o 24 Horas? E certas páginas do Correio da Manhã? E certas reportagens da TVI, têm visto? Já nem vou falar em blogs, no sapo ou noutros servidores da mais pura e dura difamação e pornografia.
Já nem vou falar do “Muimentiroso” que, li há dias, parece ter origem nos computadores do Correio da Manhã… Já nem vou falar de tantos sites e disparates “anti” ou “pró” Carlos Cruz, Bibi, e fulano ou sicrano que por aí há. Ou nas capas das revistas “cor-de-rosa” a quem apenas falta colocarem na cabeça de Carlos Cruz e da sua família a coroa que com facilidade roubariam à Nossa Senhora para conseguir uma boa foto.
Por mim, tanto me faz. Como visitei o RIAPA por uma vez, fui também ao “Muimentiroso” por uma única. Os textos também não me interessaram, apesar do estilo ser supostamente outro.
Mas se o tema Casa Pia pouco me interessa, a não ser porque como cidadão desejo que todos os culpados de qualquer que seja o crime sejam julgados e punidos, interessa-me este tema da comunicação social e das novas tecnologias.
A arbitrariedade do Sapo para deixar navegar blogs de conteúdo claramente ofensivo mas retirar do ar um único e específico em determinada altura (período de campanha eleitoral) preocupa-me.
O país está cheio de porcaria emoldurada em jornais, blogs, sites, ecrãs e (muito menos, verdade seja dita) em rádios. E ninguém faz nada. Há tempos, um jornalista do Correio da Manhã fez dezenas de horas de gravações ilegais, guardou-as, negligenciou-as, “deixou” que se difundissem, copiassem, vendessem. Um jornal, pegou nelas, transcreveu-as, cortou-as e publicou-as. Essa malta continua a vomitar todos os dias e a atormentar-nos. Estão identificados, dão entrevistas a defender o indefensável e ninguém faz nada. Não pode? Não quer?
Não gosto do estilo do RIAPA, como não gosto do estilo do Muimentiroso. Não gosto e dou-lhe a credibilidade que têm. São blogs e toda a gente sabe o que é um blog. É um espaço de liberdade, de disparate, muitas vezes de divagação. O que aqui escrevo tem a credibilidade que tem, a que cada um quiser dar.
Grave, é quando se utiliza a capa da “verdade” que um título de jornal com 30, 50 ou 100 anos confere aos textos que publica para distorcer, alegar fontes não identificadas, utilizar subterfúgios linguísticos e jornalísticos, sempre com o intuito de conseguir passar ideias, que podem até ser boas ideias, mas não são certamente jornalismo e a verdade jornalística.
É pena que a mão do Sapo, que até é da PT Multimédia (proprietária também de alguns desses jornais), não consiga apagar certas coisas, destituir certos “jornalistas”, calar determinados “editorialistas” e “colunistas” cuja relação com a realidade dos factos é tão virtual como a do mais fantasiador dos blogs, mas que escrevem em jornais ditos “sérios”.

PS: já agora, uma referência ao Barnabé, um dos blogs com mais prestígio e que até já deu livro. Os seus comentários passaram a ter a aprovação prévia dos seus autores. Compreendo e eu próprio já meditei aqui em voz alta sobre o assunto. Mas daí a censurar determinados comentários só porque não são da mesma "cor" política... O Barnabé deixou, por isso e pelo conteúdo e obsessão dos seus posts de ser um blog de referência, passando a ser um posto de campanha do PS. Se ligarmos isto ao que escrevo neste post, talvez possamos então acreditar que, mesmo antes de ser Governo, Sócrates já montou a sua "mega-central-de-informação". E funciona, mesmo sem precisar que o amigo Sampaio a promulgue.

sexta-feira, fevereiro 04, 2005

Há vida para além do debate?

A questão é mesmo essa. Sócrates poderá não ter ganho ontem um debate, mas ganhou o que ele mais queria ganhar: as eleições. E fê-lo não debatendo. Ao fim ao cabo, depois da polémica do "debate-não-debate" tivémos ontem um não debate. As respostas às cirúrgicas perguntas forama também elas cirúrgicas, às vezes fiquei mesmo com a sensação de que despejavam os candidatos o "rolo N34" dos muitos que decoraram e treinaram durante a tarde sobre determinado tema.
Na prática, não houve réplicas, interpelações, contradições, contra-afirmações. O debate foi "clean", foi uma verdadeira co-incineração de ideias, chegou a ser estranho... e acabou depressa.
Ficámos sem saber o grau de comprometimento de Sócrates com o seu ex-governo, com os seus ex-futuros ministros, ficámos sem saber qual será a verdadeira política económica do futuro governo, quais as roturas com o passado (o passado recente e o passado de Guterres), ficámos sem saber com quem Sócrates fará coligações pós eleitorais, se já as fez, como governará o país em caso de não ter maioria, se com acordos parlamentares ou sem eles. Ficámos sem saber o que Sócrates pensa das inaceitáveis pressões que os políticos têm feito sobre a Justiça, ficámos sem saber qual a opinião de Sócrates sobre a ala esquerda do seu partido e como é que a sua acção se reflectirá num futuro Governo. Ficámos sem saber qual será o rumo da política externa do futuro Governo, qual a sua posição, por exemplo, em relação ao Iraque ou face a um futuro conflito noutro país do médio-oriente, face a Bush, face à Nato, face a Espanha... Ficámos sem saber se Sócrates defende os casamentos homosexuais, se defende a adopção de crianças por casais homosexuais. Ficámos sem saber como Portugal vai ser governado, por quem vai ser governado. Ficámos sem saber em que homens sustentará Sócrates o próximo Governo na área económica... Ficámos sem saber em que áreas da governação Sócrates estaria disposto a fazer concessões ao um Partido Comunista ou ao Bloco de Esquerda, caso isso fosse necessário... Ficámos sem saber qual a política de saúde de Sócrates, o que vai fazer para combater as listas de espera. Ficámos sem saber como vai ser o próximo concurso de colocação de professores, qual a sua política em relação à Galp, à PT Multimédia, à RTP. E ficámos ainda com uma série de afirmações absolutamente falsas e absurdas no ar, sem resposta, sem réplica, sem pergunta. Espantou-me que se pudesse dizer que um cartaz com a cara de um adversário fosse algo inédito em Portugal, quando não é, de todo, e quando ainda há poucos meses o Bloco de Esquerda espalhou "outdoors" com a cara dos seus opositores de Direita e quando o Partido Socialista está farto de o fazer em eleições passadas... e tanto mais que ficou por dizer, por replicar, por discutir!
Foi um debate sem discussão, sem espontaniedade. E discutir é bom, faz bem.
Sócrates ganhou ontem ao não debater, ao trazer para Portugal o pior dos vícios de campanha americano. Mas Sócrates terá ganho antes disso até. Ganhou quando praticamente todos os comentadores, directores, "meta-comentadores", supostos inteligentes, intelectuais da suposição se renderam aos seus encantos, não por o considerem o melhor para Portugal, mas porque não queriam lá Santana Lopes.
Sócrates não precisa de atacar o Governo, tem José Manuel Fernandes, António José Teixeira, Marcelo Rebelo de Sousa, Pacheco Pereira e todos os outros que um destes dias se medirão com as suas próprias consciências.
A minha sensação, horas depois do debate, é que não houve eleição menos democrática do que esta desde que há democracia em Portugal.
Pena que a economia do país não possa florescer dentro de 15 dias apenas por decreto dos comentários e das quintas colunas. Estaríamos safos!

Sobre o debate

A questão é: alguém mudou de intenção de voto depois deste debate?
Na minha opinião, mais uma vez, ao importarmos dos Estados Unidos um modelo de debate ficámos a perder.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

O umbigo de José Manuel Fernandes

Os últimos meses da vida política nacional têm, de facto, sido diferentes. Depois de Jorge Sampaio ter pretendido ficar na história da “democracia” portuguesa pelas piores razões, dissolvendo uma Assembleia da República que sustentava um Governo que não estava demissionário, também no jornalismo político se faz história.
De facto, o editorial de hoje do jornal Público, escrito por José Manuel Fernandes, constitui um marco histórico para o jornalismo do “pós-25 de Abril”.
Embora seja prática habitual que os jornais diários norte-americanos assumam editorialmente um dos lados da campanha, ficando o leitor “avisado” para a tendência daquele órgão de comunicação, já em Portugal não havia precedente.
É evidente que muitas vezes se notam essas tendências, ainda assim, mas vão sendo disfarçadas e mesmo evitadas, numa procura de determinada isenção na cobertura noticiosa das campanhas.
Ora, o texto de José Manuel Fernandes é pura e simplesmente um acto de ataque, pessoal e político sem precedentes a um chefe de Governo em Portugal num editorial de um jornal generalista e independente, com a particularidade de acontecer em plena época de campanha eleitoral, na véspera do único debate entre os dois candidatos.
Ou seja, a partir de hoje "comprou" o jornalismo português um “tique” do jornalismo, diria, da “máquina eleitoral” americana. Se para bem ou para mal, não sei. Se legítimo ou ilegítimo, não sei. Fica à consideração dos teóricos da profissão.
O que gostaria de comentar em relação ao que escreve o director do Público é apenas isto: admiro-o pela coragem, felicito-o por ter tido pelo menos a honestidade intelectual de expor de forma transparente a linha editorial do seu jornal nesta campanha… mas lamento o tom de uma certa "imbirração" pessoal que noto na sua escrita.
É que se as suas violentas palavras têm mesmo esse tom que eu julgo poder ler-lhes, então retiro a admiração e a felicitação que comecei por lhe prestar. O país, a Governação e o jornalismo não servem para satisfazermos o nosso umbigo. Não servem para satisfazer o de Santana Lopes, não podem servir para o mesmo efeito no de José Manuel Fernandes.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Ataque pessoal ou ao "lobby gay"?

Parece ser opinião unânime: a campanha eleitoral está a descambar.
Mas não é de agora. Já em Dezembro, mais propriamente no dia 15 de Dezembro, eu tinha colocado neste blog um post irónico que dava a entender que as coisas iriam por aí. E foram. E, diga-se, se concordo em absoluto que o jogo é “sujo” quanto às qualificações pessoais que vêem do lado de Santana Lopes, sobretudo as não concretizadas e veladas, a verdade é que o é também quando, desde há muito mais tempo vêem também da esquerda para a direita.
Estranhamente, quando insinuações semelhantes foram lançadas sobre Paulo Portas, não vi nem colunista nem jornalista, nem político nem comentador sair em sua defesa.
Depois, é tudo uma questão de linguística interpretativa, de clubismo faccioso e de vitimização pessoal. Se quisermos ler nas palavras tudo o que nos apetece, podemos então achar “nojento” um e entender que não há metáfora no outro. Se quisermos ser “literais” então mais vale que os senhores jornalistas perguntam frontalmente as coisas aos candidatos, o que não acontece por… preconceito?
A suposta homosexualidade de um ou de uns, a suposta instabilidade pessoal e familiar de outro ou de outros, os “valores” familiares de todos são ou não temas abordáveis numa campanha eleitoral? Esta questão tem que ser colocada à esquerda e à direita, pois já ouvimos Louçã atacar Portas por este não ter filhos (o que será certamente inédito a nível mundial), Sócrates fazer trocadilhos com o casamento e a união de facto e Santana insinuar sobre o que se sabe ou não sobre Sócrates.
Hoje nos jornais e ontem no Abrupto, li que há quem considere (mesmo no PSD) que se está a atingir o “ponto de ruptura” entre quem tece estas acusações e o eleitorado.
Talvez sim ou talvez não. Mas como quem escreve no Público e no Abrupto é uma pouco representativa classe, será ao povo a quem caberá a última palavra e ficaremos, finalmente, a saber o que os portugueses acham disto tudo.
E, às tantas, esta é até uma boa oportunidade que os portugueses têm para dar uma machadada no preconceito, discutir questões fundamentais dos direitos e garantias, discutir a união de facto entre homosexuais, o casamento e a adopção, em lugar de enterrarem a cabeça na areia como a avestruz, hipocritamente escondida.
De resto, não deixa de ser curioso que alguns dos maiores defensores do direito à vida privada homosexual de uns, sejam os mesmos que nunca saíram em defesa do direito à vida privada heterosexual de outros.
Por isso pergunto: onde está o preconceito? Se calhar está dos dois lados. Por outras palavras, porque se aceitam os comentários jocosos sobre a vida pessoal de Santana Lopes e de outras personalidades políticas e públicas e só não se aceitam os de Sócrates por alegadamente ser homosexual (se o é)?
Porque a alguns apenas subiu a palavra “nojo” para classificar os ataques pessoais quando eles se referiam alegadamente à homosexualidade? E porque razão a palavra homosexualidade é deixada de lado pelos que vêm agora defender Sócrates dos supostos ataques. Porque razões saem em sua defesa falando eufemisticamente em “características pessoais”?
De facto, concordo: as opções de Sócrates são as opções de Sócrates, mas ao escusar-se ao debate sobre a matéria e ao deixar para Jorge Coelho o discurso da vitimização face aos ataques de que é alvo, Sócrates e o Partido Socialista dão, deles próprios, a ideia de um líder e de um partido, de facto, cheios de pruridos e preconceitos.
Como nota adicional diria ainda que, às tantas, seria até útil que o debate viesse à luz do dia de forma clara e sem hipocrisia, sobretudo numa altura em que o caso Casa Pia está ainda a fervilhar nas “paixões” noticiosas. Caso contrário, e com evidentes prejuízos para o próprio Partido Socialista, a confusão latente entre o alegado envolvimento de líderes socialistas nesta “trama” e o tema “homosexualidade” pode até ser confundido e, isso sim, seria particularmente grave, não só para a política, mas para a eventual confusão de valores. Ser homosexual não é ser pedófilo e seria pena se, por falta de esclarecimento, essa acabasse por ser a leitura pública, se o não é já.
Por fim, uma referência que não pode deixar de ser feita. Quando falamos em “ataques pessoais” e em intromissão na vida privada, não podemos deixar de levantar aqui outra questão, que tem a ver com uma realidade política: existe ou não um forte “lobby gay” em Portugal, ideologicamente transversal com capacidade para condicionar o poder? Eu diria que sim. E se existe, como eu penso que existe, então era bom que a questão fosse efectivamente levantada, debatida e, sem hipocrisia e preconceito, porque não, tema de campanha eleitoral.

Recordação

Recordo post de Setembro