Nónioblog

domingo, outubro 31, 2004

Estatística e insultos

Não deixa de ser curioso olhar os resultados de visitas deste blog. O recorde foi obtido com o tema do famoso Benfica-Porto. Embora o autor deste blog nunca tenha pretendido discutir a questão "futeboleira", mas antes o lado jornalístico da coisa, o certo é que os visitantes acabaram a discutir se a bola entrou ou não. Até aí, o tema que mais tinha provocado a troca de opiniões e de visitas tinha sido o "barco do aborto".
Mas esta estatística pura serve apenas para reparar no seguinte: muitas vezes diz-se mal do futebol e do nível a que é discutido. O certo é que, apesar de mais discutido e de um maior número de visitas (e subjectividade), o futebol acabou por ser discutido a um nível de linguagem mais elevado. Isto é, não se repetiram os insultos gratuitos e desprovidos de qualquer argumentação que verificámos a propósito do barco.
Ou seja, embora a discussão da bola que entrou ou não na baliza parece bem menos objectiva, o certo é que até os benfiquistas ou portistas mais ferrenhos pareceram ter, acerca daquele evento, mais capacidade de argumentação, imaginação e polidez do que os adeptos do aborto que, na maioria das vezes, apenas se limitavam a insultar quem, livremente, estava (neste caso) objectivamente... do lado da Lei.

sexta-feira, outubro 29, 2004

TGV português por maus caminhos

São tortuosos os caminhos por que segue o TGV português. Segundo uma notícia do Publico, o Governo está a “mexer” no projecto de comboios de alta velocidade e, depois das ideias megalómanas do anterior governo, vem agora a cultura da miséria que apenas nos pode levar a gastos perfeitamente desnecessários e que resultaram em coisa praticamente nenhuma.
Já tive oportunidade de experimentar o TVG espanhol, que por lá apelidam de AVE, entre Madrid e Sevilha. São mais de 500 km percorridos e cerca de duas horas. No centro de Madrid, numa gare própria, compra-se um bilhete que custa menos do que o Lisboa-Porto de avião e muito menos do que o Madrid-Sevilha de avião.
Há três classes, a intermédia (Preferente) tem um conforto muito superior à primeira classe de qualquer avião, além do espaço e de uma boa refeição. A bordo, o silêncio é quase absoluto e a oscilação praticamente nula, bem menos incomodativa do que a turbulência de muitos voos que tenho feito.
Ao meu lado, nessa viagem, sentou-se um espanhol, de ar bem disposto e falador. Quando o comboio atingiu os 300 km/h sem que, pelo que se via ou sentia, ninguém era capaz de descortinar, o senhor começou a falar comigo. Era um empresário de Sevilha, que semanalmente se deslocava a Madrid. “Porquê o TGV”, perguntei-lhe. A resposta não podia ser dada com maior segurança: “porque é mais rápido do que o avião e sei que não falho horários”. Mais rápido? Sim, entre a ida para o confuso aeroporto de Barajas, o check-in, a entrada no avião, os habituais atrasos, a descolagem, a aterragem, as voltinhas do avião no aeroporto, a saída no aeroporto de Sevilha, o táxi, o trânsito complicado no acesso a Sevilha… “muito mais rápido”, afirma sem hesitação.
Além disso, o AVE tem algo que o avião não pode garantir: chega a horas. E tanto que assim é que a AVE, pelo menos nessa altura em que viajei, tinha a decorrer uma campanha publicitária que dizia o seguinte: “Se nos atrasarmos 5 minutos, devolvemos-lhe o dinheiro”. Esta campanha é elucidativa da eficácia do TGV espanhol, inaugurado por ocasião da Expo em Sevilha. Esclareceu-me o companheiro espanhol: “Nunca aconteceu, nunca devolveram o dinheiro a ninguém”. É mentira, então, a publicidade? “Não, nunca atrasou”.
O comboio saiu à hora marcada e a suavidade com que rolava era tal que quase me parecia impossível que rodássemos a 320 km/h, mas o relógio não mente, e no minuto exacto previsto para a chegada, estávamos em Sevilha. No centro de Sevilha.
Ficaria cliente, se a vida me obrigasse a viajar de novo entre Madrid e Sevilha.
Este episódio aconteceu em 1997, terão passado dez anos quando o primeiro TGV estiver a rodar (optimista!) em Portugal.
Qualquer coisa que não seja ter uma linha própria, de alta velocidade (sempre a 300 km/h), que consiga competir com o avião, que ligue apenas percursos de longa distância, sem tentações de paragens intermédias e que chegue a horas é deitar dinheiro fora. Quer-me parecer, que tudo o que seja misturar bitolas, misturar velocidades, misturar conceitos e misturar horários (como hoje preocupadamente li no Público) será deitar ao lixo alguns milhões de contos (muitos) e perder a oportunidade de virmos a ter um TGV. Será bonito para cortar fitas, mas andarão vazios os comboios.
Será igualmente uma forma esplêndida de voltarmos a afirmar a nossa miserável forma de estar.

quinta-feira, outubro 28, 2004

Exercício de lucidez sobre o "Caso Marcelo"

Finalmente, alguém com discernimento e inteligência diz a verdade sobre o Caso Marcelo. Num artigo do PortugalDiário que transcrevo a seguir, o advogado Carlos Pinto de Abreu, que é presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados, vem elevar a questão.
Não posso deixar de assinar por baixo as suas palavras que, de tão raras, nem parecem tão óbvias, como no fundo são.
A esta realidade, de que fala o Dr. Carlos Pinto de Abreu e a que tenho aludido em vários posts neste blog, junta-se a que refiro ontem no “País do Press-Release”. Isto é, cada vez há menos “informação” e mais notícias convenientes, às audiências, aos interesses, aos políticos, às empresas… Pura e simplesmente, porque a informação tende a deixar de ser “produzida” pelas redacções e pelo interesse público, sendo antes comandada artificialmente pelos assessores e pelo “interesse do público”. E por maior que seja a pressão e a posição de fragilidade do último elo do sistema (o jornalista) o facto é que (concordo com Carlos Pinto de Abreu), também este se “põe a jeito”.
Assim, há sempre notícias para abrir telejornais. Há sempre um hambúrguer para comer. O que há cada vez menos, é jornalismo.



«Caso Marcelo não vale um tostão»
28-10-2004 09:35
por Cláudia Rosenbusch

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da OA diz que professor é que decidiu calar-se. E acrescenta que os media não estão atentos às “verdadeiras limitações” à liberdade de imprensa
O caso Marcelo Rebelo de Sousa "não vale um tostão" e as verdadeiras "ameaças a um jornalismo e a uma imprensa livres são muito mais graves do que toda a polémica injustificada à volta deste caso", refere ao PortugalDiário, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados (CDHOA), Carlos Pinto de Abreu.
Rebelo de Sousa “não foi impedido de fazer o seu comentário, só não fala porque não quer” e “a grande vantagem” deste caso, é a de nos levar a “reflectir sobre as tentativas de interferência na informação, que sempre existiram”.
De acordo com este advogado,
“nem mesmo os jornalistas se preocupam em perceber o que o poder político anda a defender no que toca às verdadeiras limitações à liberdade de imprensa”.
Desde logo, exemplifica, com o projecto do Executivo que, em matéria de segredo de justiça, decide estender aos jornalistas a proibição de discutir questões pendentes.
A intenção é evidente para Pinto de Abreu: “como não consegue descobrir quem viola o segredo de justiça dentro dos tribunais, decide punir quem está no fim da linha”. Se acrescentarmos que o segredo de justiça pode perdurar por vários anos, “temos aqui outro exemplo”, de uma tentativa de atentar contra a liberdade de informar e de ser informado.
Outra tentativa “flagrante” de silenciar os media parte, de acordo com o presidente da CDHOA, do próprio Procurador Geral da República, “ao preconizar a punição da violação do segredo de justiça através de contra-ordenação, justificando mesmo a possibilidade de calar os órgãos de comunicação social, concretamente, de impedir a sua publicação (no caso dos jornais) e de suspender as suas emissões (tratando-se de televisão ou rádio) por alguns dias”.
As propostas apontam para que os media se transformem numa “caixa de ressonância” dos poderes instituídos.
A concentração dos meios de comunicação social em grupos económicos cada vez mais restritos “preocupa-me, pelo que implica em termos de liberdade de imprensa”, diz ainda Pinto de Abreu.
Por outro lado, alerta para a manipulação feita sobre os jornalistas “que procuram fazer um trabalho isento”, nomeadamente dentro dos órgãos públicos de informação, e que terminam “colocados na prateleira, como é conhecido”.
Finalmente, entende o presidente da Comissão de Direitos Humanos que os jornalistas “também se colocaram a jeito”. O exemplo mais recente é o do “caso Joana”, (a menina de Portimão desaparecida há mais de um mês) em que “temos assistido a um espectáculo informativo verdadeiramente degradante”.

terça-feira, outubro 26, 2004

O País do "Press-Release"

Durante vários anos fui jornalista de rádio.
Ainda do tempo em que as velhas máquinas de telex debitavam a actualidade noticiosa em rolos infindáveis de papel.
Era necessário cortar os “takes”, separá-los por temas, arrumá-los, escolhê-los, lê-los.
Tenho duas cicatrizes numa mão. Dois riscos que considero os meus ferimentos de guerra. Foi a máquina do telex que me “mordeu” quando tentava desenvolver a técnica de mudar a fita seca de tinta sem parar o telex, para que nem um “take” se perdesse. E mordeu-me uma vez e… anos depois, segunda vez, noutra rádio, mas conseguiu desenhar-me uma cicatriz quase por cima da primeira.
A minha mão era a mesma e a vontade de não perder notícias também.
Lia todos esses telexes, como quem bebe informação. Eu e os meus colegas de então, nascidos nas rádios piratas, crescidos nas rádios locais que ouviam e transmitiam Assembleias Municipais em directo, amadurecidos em rádios de grandes grupos económicos e com impacto nacional.
Muitos deles passaram à escrita, outros às TV’s, alguns (se calhar os melhores) continuam na rádio. Poucos são políticos, assessores, vereadores.
Tenho saudades dessa rádio que se fazia. Tenho saudades dos telefonemas clandestinos para Timor, Angola… Tenho saudades de me confundir no meio desses telexes e deles extrair o sumo dos dias para contar em três, cinco ou dez minutos.
Tenho saudades de levar comigo para reportagem o “take” rasgado na borda de uma mesa da redacção.
Hoje, a Lusa transmite via Internet a sua informação, que chega de um site ao PC do jornalista. O jornalista de rádio escolhe já dentro da janela do Windows o tema que faz hoje a “actualidade”.
A “actualidade” tornou-se curta. Muito mais curta. A visão do jornalista que nos conta as notícias é mais estreita. Pelas suas mãos e olhos não passaram as centenas de “takes”, milhares de caracteres que, na rua, nos distinguiam na conversa dos outros mortais. Nós, sabíamos mais do Mundo.
Hoje, quando vinha para casa, longe das redacções, agora menos barulhentas do que no meu tempo. Sem o palrar do telex, sem o dedilhar da máquina de escrever, dei por mim a pensar que há agora sempre notícias quentes para dar…
Eu explico.
Apesar nesse tempo nos passar aos olhos muita mais informação, apesar de sermos obrigados a ler quanto mais não fosse todos os temas da actualidade, há 10 ou 15 anos eram mais as vezes em que se nos escapava a expressão “não há nada para contar de novo neste noticiário”, do que as vezes em que nos sobrava informação.
Muitas vezes assisti a uma espécie de frenesim na redacção, não porque o avião tivesse caído, mas porque era preciso ir à procura da notícia. Ao telefone, de microfone em punho ou chafurdando na imensidão de papéis, lá achávamos o que nos apaziguava a alma: a notícia, no que de mais puro tem. E o que melhor poderíamos fazer era dizer aos outros o que eles ainda não sabiam.
Não era perfeito. Era até muito imperfeito. Havia maus jornalistas, pressões, maus directores, mas havia pelo menos uma ideia. Nós, os jornalistas, a redacção, escolhíamos a agenda noticiosa ou tínhamos sobre ela o controlo. Nós fazíamos a informação.
Hoje, quando regressava e ouvia as notícias na rádio, dei por mim a pensar várias coisas:
1. Um terço das notícias não são notícias, baseiam-se em acontecimentos, desenvolvimentos, comentários ou declarações sem qualquer conteúdo substantivo, sem que se consiga perceber onde poderá estar o interesse público de tal informação.
2. Um terço das notícias não tem origem na redacção. Isto é, foram ali parar pela simples imposição de agenda, com origem num qualquer ministério, sindicato ou gabinete. Mal se percebe aqui que haja uma qualquer contribuição do jornalista no sentido de acrescentar à informação veiculada via “press-release” ou “conferência de imprensa” o seu sentido crítico e a sua capacidade de interrogação. É normalmente informação de grande interesse para quem a quer fazer passar, sem grande interesse para o público.
3. O restante terço das notícias resume-se a um restrito grupo de temas, também eles considerados de interesse das “audiências”, como o futebol, o social ou a guerra lá longe. Trata-se de um estreito crivo este que restringe este último terço das notícias e que se resume a pouco mais do que meia-dúzia dos sempre iguais protagonistas.
Não há mais “terços” de notícias. O “queijo” da informação está todo comido.
Não há espaço para pensar, para o sentido crítico inteligente, para o comentário mundano, senão para os temas da agenda dos interesses de terceiros.
Mas se assim é, volto atrás, porque razão hoje há sempre notícias? Porque razão há hoje sempre temas fortes da actualidade, que saltam do julgamento do famoso para a declaração do político até ao disparate que se disse no futebol? Porque razão nos parece que há hoje mais interesse. Há sempre tema quente para abrir o Telejornal?
Haverá hoje mais acontecimentos e menos problemas reais para serem “procurados” pelos repórteres?
Só posso chegar a uma conclusão, voltando a dividir o queijo, agora com outro método: a maior parte da informação que nos chega é oferecida pelo “fast-food” da comunicação, que numa espécie de “macdolnização” do jornalismo. É pré-cozinhada nos gabinetes políticos, empresarias, sindicais, ministeriais e depois cuidadosamente embalada e empacotada para a redacção. Aí, tudo o que o jornalista faz é… aquecê-la, para que pareça de verdade. O ouvinte ou o leitor, come-a! O pouco que sobra deste queijo, uma fina fatia de interesse e sentido crítico, é normalmente relegada para quando não há mais nada que dizer e quando já todos estão de barriga cheia. Sobrevive esta informação, às custas de excelentes embalagens, boas campanhas publicitárias e um bonequinho tipo "Happy-Meal" que nos faz esquecer que o excelente repasto não é mais do que uma tira de gordura, dentro de um pão ressequido, acompanhado por batata frita espanhola, carregada de colesterol disfarçado por sal.
Do lado de fora, com o rádio ligado, chego a pensar que tem interesse o que oiço e finjo-me satisfeito com o “Big-Mac” no estômago, mas, em raros momentos de meditação, como os de hoje, questiono-me: ainda haverá nestas "casas" uma agenda de redacção? E se há, será “outsourcing”? ainda haverá nestas "casas" uma agenda de redacção? E se há, será “outsourcing”?

segunda-feira, outubro 25, 2004

A princesa e Carlos Cruz

Era uma vez uma rapariga do povo. Um dia encontrou um principie amaricado que a propôs em casamento. “Então não? Terá pensado, Ele na cama nem deve existir e o máximo que pode disto resultar é eu arranjar um amante a acabar rica. Além disso, dá um sainete ser princesa. But lá casar”.
A princesa casou. Durante anos, não fez nada, senão atazanar a cabeça à Rainha, porque nem à mesa sabia estar como princesa e abria a boca para dizer disparates sempre que era suposto estar calada.
Enquanto isso, o principie amaricado gostava mas é de uma mulher que parecia um homem com o qual punha os palitos à princesa sempre que podia e com a qual mantinha conversas telefónicas obscenas e de gosto duvidoso que os jornais reproduziam de vez em quando para ganhar muito dinheiro.
A princesa, sem nada para fazer, especializou-se em vomitar sempre que não estava, também ela, a traí-lo com um gajo qualquer, tipo motorista ou jardineiro.
Quando já toda a gente sabia, a princesa continuou a nada fazer senão trai-lo com mais motoristas e o dito príncipe continuava a traí-la com a tal mulher que parecia cada vez mais um homem, o que durou anos a fio.
A princesa começou então a dar entrevistas e a contar a sua escabrosa vida, maldizendo a corte inteira, a rainha e sobretudo o príncipe que continuamente a traia com a mulher que continuava a parecer um homem mas que hipocritamente era recebida no palácio pela rainha, da qual todos diziam mal, sucessivamente.
Um dia, a princesa, que entretanto teve uns filhotes estilo Virgem Maria, já que não tinha relações com o Príncipe (segundo dizia nas entrevistas), quis divorciar-se. Além de levar uma pipa de massa, envergonhou a corte inteira, mas no dia seguinte já tinha engatado um gajo mais rico do que o príncipe, com o qual passeava por todo o lado. O gajo, por sua vez, não fazia nada senão mostrar ardentemente que comia a princesa e gastar o mais possível a inesgotável fortuna do pai.
Numa noite, depois de se enfrascarem num restaurante estupidamente caro, meteram-se num Mercedes estupidamente caro, com um motorista estupidamente bêbado. Entraram num túnel onde a velocidade máxima é de 40 km/h, mas o motorista lava-os a 180 km/h e espetaram-se de encontro a um poste, para delícia dos “paparazi” que iam de lambreta atrás deles a tirar fotos.
Morreram todos, menos um gajo que também lá ia e supostamente deveria ter tratado da “segurança” mas que só não se esqueceu de colocar o seu próprio cinto de segurança. Trincou a língua e nunca mais falou.
O príncipe e a princesa iam atrás a fazer não sei o quê, não levavam cinto de nenhuma espécie, tal como o condutor bêbado, e também morreram.
A rainha, que a odiava, fez-lhe um enterro de Estado e o povo de todo o Mundo chorou baba e ranho como se a mãe tivesse morrido duas vezes. A Madre Teresa de Calcutá também morreu mas a malta passou bem por cima de tal facto.
Não acham esta história muito estranha?
E que linda princesa! Saída da casca, não?
Porque conto esta sórdida e deplorável história de vida e de maus exemplos e recambulescos episódios que apenas diriam respeito ao foro da vida privada?
É que esta princesa apenas merece estar na história da humanidade porque, de alguma forma, abriu o caminho à idolatria do medíocre que hoje se faz na nossa sociedade e a uma preocupante inversão de valores onde o parecer é claramente mais importante que o ser. Pode dizer-se que sempre assim foi antes. Mas a partir dessa data, passou a ser “oficial” e sem vergonha.
A princesa era uma leviana que se casou por interesse, não teve estofo e mais não fez do que trair toda a gente à sua volta. Os seus únicos méritos foram ter saído rica e morta da situação. Dois estados que dão prestígio a qualquer um.
Ela cumpriu o sonho de qualquer sopeira: o palácio, a mordomia, o sexo, o árabe milionário, o dinheiro, o dinheiro, a traição. Uma autêntica telenovela viva. Deplorável, mal contada, rasgando todas as regras que a sociedade lhes impõe a elas, mas que o desejo perverso as faz sonhar.
A princesa nunca foi condenada pela opinião pública. Não porque haja no povo a ideia de que a vida de cada um é com cada um, mas precisamente porque a vida de uma foi, afinal, a forma expiatória de purgar a frustração do povo, amarrado à cozinha, ao camião, à máquina da fábrica, ao carimbo do escritório.
Quando assim é, sentimentos como a inveja, o ódio, a idolatria e o amor andam tão próximos que se confundem, baralham e vedam a consciência.
A princesa não se chama Carlos Cruz, mas poderia chamar.
O seu sucesso pessoal, pouco importa. Os seus crimes, se os cometeu, pouco importam. O povo precisa de alguém, que morra ou que pague, que sobreviva ou que fuja à justiça. A substância não interessa. O que interessa é o fim. Contra um poste no túnel de L’Alma ou contra as grades de uma prisão. O povo quer é rever-se na vida que acha interessante de alguém, que não no marasmo frustrante das suas. O povo quer ser vítima ou herói. O povo quer sangue para carpir a tristeza de ter sido só povo.
O povo não quer saber dos filhos frustrados da princesa, do Carlos Cruz, da bulimia da senhora ou da tara do senhor.
O Povo inveja, deseja, idolatra, condena e ama a cada instante a vida de quem tem uma vida, por sentir que, na sua, não existe senão um destino do vazio.

Mais opiniões sobre as entrevistas de Carlos Cruz

Sobre o "post" de ontem, vale a pena ler o artigo de hoje do Correio da Manhã. É sempre agradável verificar que não estamos isolados nas nossas opiniões. Nesta matéria, pelo menos no início, cheguei a temer pela minha capacidade analítica, porque quase toda a gente que conheço tinha opinião diferente da minha.

Já agora, recordo "post" relacionado e publicado no primeiro Nónio a 22 de Jullho

domingo, outubro 24, 2004

Brandos costumes ou pura hipocrisia?


Tem-se falado aqui nos últimos tempos de independência jornalística, de liberdade de expressão, de liberdade de imprensa (são duas coisas completamente distintas que muita gente tem confundido) e de comprometimentos... que também os há e muitos.
Hoje fiquei estupefacto quando liguei a SIC e vi o senhor Carlos Cruz num programa de televisão, falando de "mais ou menos" banalidades sobre pessoas "famosas".
Vi pouco, mas o programa pareceu-me assim qualquer coisa como que a dizer sem querer dizer que os porcos e as vacas da tal Quinta, não são celebridades e, ao mesmo tempo, celebridade é este que aqui está, coitadinho do injustiçado... mas hoje nem se fala disso, a não ser para responder ao senhor procurador, na mais moderna versão de "contraditório" televisivo. Achei piada de mau gosto (ou seria uma ingénua e dispensável preocupação legal) em oráculo permanecer a frase "em directo de Cascais" por baixo da cara compungida de Carlos Cruz, sempre que este falava.
Achei piada, mas não deixei de meditar sobre o país que somos. Há quem goste de afirmar que somos um país de brandos costumes quando aceitamos que alguém que está, como Carlos Cruz, acusado de um dos mais nojentos crimes, em circunstâncias particularmente gravosas, possa alegremente e de forma que quase passa por "normal", participar num programa destes.
Já antes, o tínhamos visto comentar jornadas do Euro 2004 num jornal e dar uma série de entrevistas, como a publicada esta semana no JN (e que mais não é do que uma muito eficaz campanha de bom marketing ao seu livro).
Mas se há quem ache que isto são brandos costumes, eu afirmo que é antes de nojenta hipocrisia. A um mês do início do julgamento (e reparem que não faço aqui qualquer consideração sobre a inocência, presumida ou não, de qualquer dos arguidos), ditaria o bom sendo de um inocente que se resguardasse.
Mas do comportamento do senhor Carlos Cruz neste processo, já não espero eu nada de bom. Esperava antes que, pelo menos da parte da SIC, houvesse alguma memória sobre o processo. Não sobre o processo de pedofilia, que até deve conhecer melhor do que nós, mas sobre o processo execrável de utilização dos media que Carlos Cruz tem feito, não em sua defesa, mas no ataque a tudo o que mexe à sua volta, na tentativa quase sempre bem sucedida de manipular.
Recordando o comportamento da SIC sobre esta matéria, a história diz o seguinte:
A SIC investigou e, ao contrário do que fez com todos os outros arguidos, permitiu que o senhor Carlos Cruz usasse a sua antena pelo tempo que quis e como quis para dizer os mais violentos disparates. O mesmo se passaria depois nas outras televisões, sempre com um tipo de perguntas nada jornalísticas. Enquanto que a Carlos Silvino (Bibi) se faziam perguntas do estilo "tu és culpado, não és, diz lá, anda?", a Carlos Cruz era mais do estilo "olhe lá, como é que alguém pode ser tão estúpido que o envolva numa mentira destas?".
Da mesma forma, no dia em que Carlos Cruz é preso, os comentários que o "pivot" da SIC, que por acaso era director de informação da estação, ia fazendo ao mesmo tempo que recuperava as imagens dessa entrevista, eram mais do genro: "parece-nos hoje incrível que Carlos Cruz possa ter dito isto". Comentários que depois vi e ouvi um pouco por todas as televisões e restante comunicação social.
Passado um ano, com Carlos Cruz acusado e prestes a ser julgado (isto é, numa situação bem mais complicada do que no dia em que foi preso) a SIC volta a abrir as portas a Carlos Cruz, os jornais voltam a dar-lhe as primeiras páginas (não porque o interesse público seja evidente, mas porque o interesse do Carlos Cruz assim o dita).
A SIC, que foi usada quando o escândalo estourou (e percebeu que o foi nas entrelinhas das palavras do director de informação da estação no dia em que foi preso), volta a deixar-se usar, desta vez com plena consciência, em nome das audiências, em nome da defesa de Carlos Cruz, dos lucros de Carlos Cruz e dos alegados brandos costumes nacionais.
Importa aqui referir, que se há ano e meio atrás, poucos acreditariam na culpa de Carlos Cruz, hoje creio que a maioria está consciente da sua culpa.
Pela minha parte, sempre tive uma opinião que não tenho problemas em afirmar: não conheço mais ninguém que estando inocente, tivesse o mesmo comportamento que Carlos Cruz tem tido desde o início do processo.
Estando ou não inocente, os "brandos costumes" nacionais não são mais do que uma estúpida hipocrisia, ditada pelos interesses individuais, egoístas e nada éticos de cada um ou de cada empresa. Em particular, neste caso, dos interesses dos media, que o arguido vai usando e manipulando a seu gosto.
Quase me apetece apostar que Carlos Cruz, neste ano, viu o seu "valor hora de televisão" crescer e que, no dia em que sair em liberdade de um tribunal onde todos os tramites processuais serão explorados até às últimas consequências, mas onde o horrível crime passará a ser secundário, farão fila os directores de TV's, revistas e jornais, para apertarem a mão a “amigo” de sempre e com ele assinarem um milionário contrato.
Serão conversas deste genero: "Pedófilo? Chamámos-te isso? Insinuámos que sabíamos mais que a própria polícia? Apresentámos provas de que és pedófilo? Tínhamos essa certeza? Não importa, assina que nós vamos ser os maiores contigo. Dá cá um abraço e desculpa qualquer coisinha! O lucro está à nossa espera!".
E assim se fecharão também os acordos sobre os muitos processos de difamação que Carlos Cruz já prometeu abrir a quase toda a gente.
Chamem-lhe brandos costumes, para mim são estranhas cumplicidades de insondáveis interesses, sendo que a palavra cumplicidade, neste caso, terá o mais literal e profundo dos significados.

Segue-se e-mail enviado ao provedor do leitor de Jornal de Notícias sobre a entrevista ao JN referida neste post e publicada no dia 22 de Outubro de 2004:

Exmo. Senhor Porvedor

Partindo da entrevista de hoje ao senhor Carlos Cruz, lanço-lhe uma questão que é mais ampla.
Tenho vindo a reparar (e hoje tal situação repete-se no JN) que o senhor Carlos Cruz e a sua esposa, durante este ano que passou, nas dezenas ou mesmo centenas de entrevistas que deram sobre o caso Casa Pia, nunca foram interrogados sobre o senhor Carlos Mota. Num processo onde tantas interrogações e informações contraditórias têm sido veiculadas, seria natural que o interesse público levasse os jornalistas a interrogarem sobre tão estranha personagem: "sabia o passado de Carlos Mota", "onde se conhecera", "desconfiou de comportamentos", "qual era a relação", "onde está", "porque desapareceu"... etc.
Mas não, estranhamente ninguém colocou a questão à(s) senhora(s) Cruz ou agora ao próprio.
Como no meu entender a pergunta seria óbvia e do mais elementar interesse jornalístico, porque não é feita? E aqui há duas hipóteses: ou os jornalistas mergulharam numa preocupante amnésia ou a família Cruz se recusa a responder sobre esse assunto, condicionando as suas entrevistas a que tal tema (será que é o único) seja CENSURADO.
No meu entendimento da coisa jornalística, se o entrevistado impõe determinados limites durante ou antes de uma entrevista, a mesma não terá necessariamente que ser cancelada, julgo que pode continuar, mas deve (TEM) o jornalista que referir no texto final do artigo que tal lhe foi imposto. A recusa em responder ou as condições da entrevista podem ser parte importante da mesma e informação absolutamente relevante que não pode ser alvo de censura.
Recordo-lhe situações como a entrevista a Xanana Gusmão quando estava preso, em que a condição de detido e a presença ameaçadora de guardas condicionaram as respostas. A informação sobre as condições dessa entrevista é, por ventura, tão ou mais importante do que as respostas do entrevistado.
Por mim, não tenho dúvidas que assim é deontologicamente e, enquanto leitor do JN, fica-me a questão: nesta entrevista de hoje, quais eram as condicionantes? Do que se podia ou não falar?

sábado, outubro 23, 2004

Pinto da Costa, os espíritas e os jornalistas

Nos últimos dias muito se discutiu aqui eventuais censuras, influências e incorrecções do ponto de vista jornalístico, ético, deontológico e moral. A conversa centrou-se no jornal “O JOGO”, mas tenho que concordar com todos os que alegaram não ser esta a única publicação onde se "puxa" por determinado clube.
Falou-se inclusivamente nos restantes jornais desportivos, nomeadamente “A Bola” e o “Record”. Pois conto-vos hoje uma história que talvez possa surpreender-vos e que demonstra não só a permeabilidade destes outros jornais mas também que, se calhar, as “influências” não virão assim de sítios tão diversos… em relação a cada um deles.
Explicando melhor.

Os espíritas

Existe no Porto uma polémica entre Rui Rio e Pinto da Costa que tem sido desencadeada a propósito de vários assuntos e temas, que não só o famoso Plano de Pormenor. Um desses temas chama-se “Coração da Cidade”, uma suposta instituição de caridade que mais não é, afinal, do que uma Associação Espírita controlada por algumas pessoas “com peso” e que, além de frequentarem por convicção religiosa aquela “igreja”, a têm usado como uma espécie de clube de luxo.
Uma dessas pessoas é Pinto da Costa, que num súbito acesso de humanismo, resolveu ser “voluntário” (é assim que justifica a sua insistente presença e protecção à instituição) do tal “Coração da Cidade”.
Devo explicar que assim lhe chamam para que lhes seja possível fazer peditórios em nome dos pobres e dos sem-abrigo, como tem acontecido nas ruas do Porto e em pleno Estádio do Dragão. No entanto, este “Coração da Cidade” não existe, não tem personalidade jurídica, não está certificado por ninguém e… mais importante, está longe de fazer aquilo a que se propõe. O que existe são os espíritas, as sessões espíritas, e meia-dúzia de toxicodependentes a quem dão uns iogurtes em fim de prazo e que servem apenas para tapar o sol com a peneira aos mais distraídos.
A falácia da instituição é tal, que a Câmara Municipal do Porto lhes nega alvará (tanto mais que se foram instalar ilegalmente paredes-meias com um infantário), a não reconhece para aquela actividade e se recusa a legalizar o seu funcionamento.
Acontece ainda que o Ministério da Segurança Social lhes não concede o estatuto de IPSS e não lhes concede qualquer subsídio. Nas palavras do Dr. Bagão Félix, há cerca de dois anos, “por ter gasto indevidamente e para fins diversos, dinheiros da segurança social que lhes tinham sido atribuídos”…
A história é mais comprida, mais revoltante e os pormenores são mais recambulescos do que hoje lhes posso contar, ficará para as próximas.

O desaparecimento do político

Mas vamos à censura. No Natal do ano passado, instalaram os senhores da Associação Espírita uma tenda enorme no jardim da luxuosa casa onde supostamente se faz caridade. Dizia que seria para a Ceia de Natal dos "sem-abrigo". Só que, dias antes, ali se realizou antes um Jantar para determinadas personalidades do Futebol Clube do Porto e da política portuense.
Lá estava Pinto da Costa, lá estava Reinaldo Teles, João Pinto (o N.2) e outros conhecidos senhores do clube azul e branco.
Com eles estavam também jornalistas dos três jornais desportivos, fazendo a cobertura do acontecimento. Tratar-se-ia de uma festa para angariação de fundos, diziam, alegando que a refeição custaria 50 euros… para os sem-abrigo. Para os acompanhar, foram contratados fadistas e outros artistas, que tocaram até de madrugada ajudados por uma potente aparelhagem sonora que acordou a vizinhança. A intervenção policial, a pedido de moradores, terminou com uma conversa entre Pinto da Costa e dois agentes da PSP, às 3 da manhã, que… se foram embora deixando a ilegalidade continuar.
Mas o mais estranho de tudo isto não foi, para mim, o desplante com que esta gente faz de lorpa os que vão caindo no conto do vigário e dão a esmola, para mim, que sou interessado por estas coisas da Comunicação Social e do jornalismo, é que, no dia seguinte, tendo os três desportivos noticiado, com foto e com grandes elogios o acontecimento, descrevendo pormenorizadamente o acontecimento, indo ao ponto de classificar a ementa, e nomeando cada um dos presente cujo nome é conhecido da opinião pública, se tenham TODOS esquecidos de dizer que no mesmo local se encontrou a jantar o Dr. Luís Filipe Meneses!
“A Bola”, o “Record” e “O JOGO” fizeram o jeito a Pinto da Costa, publicitando uma instituição que funciona ilegalmente, cujos fins hoje aqui não se discutem (mas que deveriam ser discutidos um dia), nomearam os presentes e… não viram Meneses do outro lado da mesa???

Será legítimo "vestir a camisola"?

A estranha cegueira colectiva dos jornalistas e o carácter anónimo do conhecido político remete-nos para uma questão interessante que foi levantada nos últimos posts. Será legítimo a um jornal dedicar-se mais ao FC Porto? Claro que sim! Penso que isso é perfeitamente normal e penso que não há nenhum mal em que o Record e a Bola se dediquem mais a um outro clube, como nem sequer vejo mal que assumam editorialmente as cores de determinada causa, seja ela de que teor seja.,
Não me parece por isso condenável (bem pelo contrário) a atitude da Capital ao assumir em editorial um dos lados das eleições norte-americanas.
Mas uma coisa é a Capital assumir em editorial, outra é a censura de factos, e a deturpação da realidade, como acontece de forma sistematica em O JOGO e aconteceu em particular na sórdida história do golo que não foi.
Curiosamente, em editorial, nenhum dos desportivos assumiu alguma vez o seu evidente “clubismo”, mas todos praticam censura e todos são cometem pecados sob o ponto de vista jornalístico.
O que hoje vos queria dizer, e na sequência dos comentários aos posts, é que, também esses jornais supostamente anti-Pinto da Costa e anti-portistas o são muito pouco. Ao dito senhor, concede-se uma reverência patética, apenas semelhante a barões da droga em países Sul-Americanos ou a chefes mafiosos no Sul de Itália, a ponto de se fazer desaparecer pessoas de locais onde elas evidentemente jantaram.

Todos são reverentes a Pinto da Costa

E mesmo quando Pinto da Costa trata a imprensa abaixo de cão (foi o caso recente da decisão de ir jogar à Luz, em que os jornalistas ficaram toda a noite esperando Sua Excia. que nunca apareceu), o que fazem corporativa e reverentemente os jornalistas é calarem-se e… deixarem ser Rei, que não é.
E esta atitude, independentemente dos conteúdos jornalísticos mais próximos do clube A ou B neste ou naquele jornal , é uma atitude sistemática e controlada por Pinto da Costa, a norte ou a sul. Ele é que manda na “cambada” que assiste aos jogos de futebol e depois é suposto escrever ou relatar.

sexta-feira, outubro 22, 2004

Ainda sobre o "post" de ontem

O "post" de ontem recebeu mais de 500 visitas, ultrapassando todos os recordes anteriormente batidos por "posts" publicados no Nónio. Por isso, e depois de ler os muitos comentários e e-mails enviados sobre o assunto, permitam-me recolocar a discussão que não pretendia ser sobre futebol, mas sim sobre jornalismo.
O futebol não é uma ciência, mas antes um jogo e um negócio de contornos muito específicos, onde a aliatoriedade e a inspiração momentânea podem fazer toda a diferença. E é também uma fonte de paixões, desilusões, alegrias incontidas.
Não espanta por isso que surjam sempre opiniões e distorções sobre a realidade e que nada têm a ver com objectividade. É essa subjectividade que permite que situações como as que vimos em O JOGO e comentámos no "post" de ontem ganhem "adeptos" entre os leitores. Mas o facto da situação ter subjectividade não implica que o jornalismo o tenha.
Poderíamos obviamente falar de outros jornais, desportivos ou não, que exploram de forma absolutamente tendenciosa e falaciosa a credibilidade que ganham entre os leitores, não por explorarem a objectividade da informação que transmitem, mas antes por tirarem partido da vontade e do interesse do leitor em acreditar em determinada informação.
Se quisermos sair do desporto e entrar no Processo Casa Pia encontraremos muitas situações destas, com informações totalmente infundadas, não confirmadas, contraditórias e inverosímeis a serem transmitidas pelos jornais e rapidamente a ganharem adeptos.
O que faz este tipo de informação "passar" não é a sua qualidade ou a forma ética e deontológica como foi construída, mas antes o "interesse" ou a "vontade" de determinado grupo em acreditar de que "aquela" é a verdade. Uma verdade que não tem origem em factos, na credibilidade da fonte jornalística ou na sustentabilidade da informação, mas que acaba por ter apenas como base sustentadora a necessidade de podermos dizer a velha frase: "é verdade, vinha hoje no jornal".
Assim, pouco importa se a bola entrou ou não, pouco importa se o leitor tem olhos ou sentido crítico, o que importa é alimentar-lhe o desejo. E o desejo do portista é dizer que "a bola não entrou". Ao benfiquista tem que se lhe dar um qualquer boneco para que possa dizer no emprego: "a bola entrou". Se o boneco é bem ou mal feito, pouco importa, pois aqui (e esse é um terrível pecado em jornalismo) o importante é explorar a crença, a fé, o clubismo, o bairrismo, o chauvinismo, o racismo, o sectarismo, o seguidismo ou o que mais quiserem, do leitor.
No fundo, trata-se de municiar ao leitor o seu desejo, o seu prazer, a sua frustração. Isso é próprio do "entretimento" e não da informação.
Assim, e respondendo a alguns, poucos, que entenderam que o meu "post" de ontem não era sobre o golo, dou mais uma achega: aceito perfeitamente que O JOGO siga a equipa da sua cidade, como aceito que o Correio da Manhã se dirija aos leitores do Sul ou de Lisboa, dando-lhes mais informação, melhor informação, sobre a sua área o sobre os clubes da sua zona. Mas permitam-me que não concorde que a informação possa ser manipulada, deturpada e censurada em nome do interesse financeiro, desportivo ou pessoal de alguém, como é o caso. Isso, deixem-me dizer-lhes, é apenas próprio das sociedades ditatoriais e é gravemente lesivo do nome e da imagem dos jornalistas que o são e o assumem ser até às últimas consequências. E as últimas consequência a que um jornalista deve levar a sua profissão é sempre, tem que ser sempre, contar a verdade, com objectividade e rigor.
Quanto à bola, ao jogo, ao Benfica, ao Porto, a Luis Filipe Vieira e a Pinto da Costa, apenas gostaria de lembrar alguns nomes de “ídolos” de massas associativas e que, ou acabaram acusados, ou passaram pela cadeia ou viram os seus clubes descerem de divisão: Bernard Tapie, Gil y Gil, Vale e Azevedo, Valentim Loureiro, Sílvio Berlusconi. Eles foram ou são ainda ícones para os seus adeptos e cidades. E nem a verdade, provada ou não provada, lhes retirou o protagonismo e o apoio de muitos adeptos… Cegos? Distraídos? Não, qualquer destes senhores deu aos seus adeptos aquilo que eles queriam: vitórias, glória e se da cadeira caíram alguns deles, não foi porque os adeptos tenham um dia percebido que em nome dessas vitórias muito dinheiro passava para as mãos de alguém. Se isso aconteceu foi porque, um dia, as vitórias deixaram de acontecer…

Leia também os "posts" relacionados A censura; Sr. Presidente; Quem ri...; Não há pachorra; O jornaleirismo de José Rodrigues dos Santos; Marcelo, Sampaio, Pinto da Costa... haverá independência jornalística?

quinta-feira, outubro 21, 2004

As "Mãos sujas" do jornal O JOGO


Escrevi aqui há dias que não voltaria a falar da "bola nacional". Pois e mantenho. Do que vou falar (isto é para os mais distraídos) é de ética, deontologia, jornalismo, rigor e das tão famosas manipulações de órgãos de Comunicação Social.
E não é por o tema das notícias ser uma modalidade desportiva, que a face do jornalismo no seu todo sai menos beliscada por "trabalhos" verdadeiramente vergonhosos e atentatórios da inteligencia como o que vi ontem no jornal O JOGO.
Ainda a propósito do tal jogo de futebol, uma série de "brincalhões" resolveu tentar inventar qualquer coisa em cima das imagens televisivas para provar que a bola não entrou na baliza.
De régua e esquadro, assassinaram a matemática, a geometria descritiva e chamaram de burros todos os que perderam tempo a olhar para aquilo. Quer para os "trabalhos" dos que tentavam provar que a bola estava dentro, quer para os que procuravam provar o contrário. Só valeu a pena porque, em alguns casos, o humor ou a estupidez do autor davam um certo ar cómico aos "desenhos".
Mas o pior não foi as brincadeiras que circularam na net. O pior de tudo foi alguma imprensa se ter dado ao ridículo de as reproduzir. O JOGO, em particular, cita vários desses disparates mas, ao contrário do que terão imaginado os próprios autores dos "bonecos", O JOGO dás-lhes credibilidade. Em particular a um deles.
Trata-se de um pequeno filme onde foi feito um trabalho de animação, mais ou menos rudimentar e de fraca qualidade. Se o virmos imagem a imagem acontecem coisas absolutamente contrárias às leis da física, como a bola tocar por duas vezes o solo, antes de prosseguir o seu caminho!
A esse trabalho de animação sem qualquer base de credibilidade, que O JOGO foi "buscar" (terá sido, ou terá sido o próprio jornal a colocá-lo??) à net, é chamado às páginas do jornal como se de algo científico se tratasse, chegando mesmo aquele jornal controlado por Oliveira e, claro, Pinto da Costa, que o filme "prova que a bola não entrou".
Mais grave, O JOGO faz de parvinhos e ignorantes os seus leitores, aludindo a uma tecnologia milagrosa (DivX) que permitiria um milagre que nem Bill Gates alguma vez conseguiria resolver informaticamente: dar profundidade real a imagens bi-dimensionais.
Ora, para os que não sabem (e muitos dos que por aqui passam já sabem do que estou a falar), a tecnologia DivX é nem mais nem menos do que uma forma de codificar e descodificar imagens, permitindo o seu armazenamento, com boa resolução, sem perda de qualidade, e a sua posterior reprodução através de um leitor.
É muito usada para comprimir filmes de clubes de vídeo online ou pelos "piratas" dos filmes "sacados" da net.
Ou seja, em termos práticos, DivX (ver site oficial) nada tem a ver com este trabalhinho de animação que, conforme mostra o que mostra, poderia ter colocado a bola a dar sete pinchos dentro da baliza, a bater no rabo de Vítor Baia e a desaparecer de um momento para o outro.
A quem fez o trabalho, nota 1 de 0 a 20, pois é de fraquíssima qualidade.
A O JOGO, por ter tentado enganar os leitores de forma tão absurdamente idiota, nota 0.
É pena que a Alta Autoridade para a Comunicação Social não se tenha ontem entretido, além de ouvir Ministros, a tratar de tão escandalosos ataques ao jornalismo e à informação que diários como O JOGO continuam a cometer, sem escrúpulos, sem respeito, sem rigor, sem dignidade para continuarem a ser publicados.
Afinal, e esta foi a maior das verdades que neste processo se disse, "não é só o futebol que aqui está em causa. É de dinheiro que se fala". Muito dinheiro mesmo se ganha e se perde, quando as mãos sujas de alguém deixam escapar uma bola que entrou... mas não podia ter entrado.

quarta-feira, outubro 20, 2004

O dia seguinte...

Por mais do que uma vez, o Blog do programa da SIC “O Dia Seguinte” publicou “posts” do Nónio. O último referia-se a um artigo publicado no antigo Nónio a 15 de Julho, reproduzido neste blog em Setembro, aquando do lançamento do NónioBlog no BlogSpot.
Apesar de escrito em Julho, entendeu o blog da SIC reproduzi-lo. Talvez porque a sua actualidade é mais premente do que nunca. Talvez porque fale daquilo que todos viram mas ninguém quer ver, talvez porque fale de algumas das razões pelas quais certas coisas tardam a mudar.
A Comunicação Social, tantas vezes crítica de compadrios e comportamentos, também é criticável e nisso (apenas nisso) concordo com o tal Ministro, autor de algumas das mais ingénuas e pré-concebidas afirmações do ano, no que diz respeito a censura e à função jornalística.

terça-feira, outubro 19, 2004

Será que ressona?

Nestes dias torna-se difícil não falar da sesta de Santana Lopes. No fundo, mais um episódio da esquizofrenia noticiosa em que caiu o país. O “PM dormiu”, diz o Expresso, “não dormiu”, dizem os assessores, “dormir é bom”, dizem os outros, “Mário Soares dormia”, recordam ainda outros.
A questão não é se dormiu ou não dormiu. A questão é que tudo isto é algo que não faz parte nem do jornalismo nem da governação. Estamos a assistir à utilização abusiva da nossa atenção e até da nossa paciência. E digo isto porque ofende a minha inteligência querer convencer-me que efectivamente estamos a falar de uma sesta.
Eu não faço ideia do que foi fazer Santana Lopes ao final da tarde naquele dia, se foi fazer alguma coisa ou se o que fez (se fez) é ou não contra os “costumes”, segundo os critérios ou preconceitos do Expresso, o que me parece é que não estamos a falar de uma sesta.
Andam a falar-nos em código e isso é, sob o ponto de vista do jornalismo e da governação, absolutamente execrável. Se este assunto tem lógica, discutiremos de seguida se Santana Lopes ressona e logo teremos alguém a defender o incómodo ruído.
Sempre aprendi que jornalismo seria sinónimo de objectividade e isto, certamente, não é jornalismo. Sempre aprendi também, que governar seria antes de mais zelar pelos interesses colectivos. Isto, certamente, não é governar!

segunda-feira, outubro 18, 2004

O deficit democrático


Os resultados eleitorais nos Açores e na Madeira deram maiorias absolutas a Carlos César e a Alberto João Jardim. Sim, mais a eles do que aos seus partidos. A verdade é essa. É claro que, a partir destes resultados regionais, PS e PSD procuraram fazer leituras e leituras.
Mas a verdade é que é preciso algum cuidado com as análises que, por mais profundas que sejam, esbarram sempre numa realidade: estas eleições não são como as outras. E não são, porque o meio é muito diferente, porque o controlo da comunicação social o é também e porque o cargo de Presidente do Governo Regional é algo que propicia a reeleição, estando muito mais próximo em termos eleitorais do cargo de um Presidente da República lá do sítio do que de um Primeiro-Ministro regional.
É ver o que se passa com Alberto João Jardim, eleito pela oitava vez e logo oportunamente a chamar a atenção para o facto de, em 30 anos, o PS ter crescido na Madeira... 5%!
Já nos Açores, tenho dúvidas sobre se Mota Amaral não poderia ter-se também eternizado no cargo, caso não tivesse deixado de se candidatar. Ao "faltar" a uma eleição, Mota Amaral deixou que o povo escolhesse Carlos César, que agora herdou a "coroa" até... quando quiser.
O preocupante desta situação, não é o povo escolher Jardim, que até prova em contrário tem que ser considerado como um "motor" de desenvolvimento da Região. Nem é preocupante Carlos César voltar a ganhar e a ganhar e a ganhar, pois todos reconhecem que a ele se deve uma muito maior abertura dos Açores ao Continente e ao Mundo. O que me deixa preocupado é o desajuste da Lei Eleitoral e do processo democrático. Isto é, da forma como as coisas se processam, da forma como tudo está montado, há um completo esvaziamento ideológico e mesmo político nestas eleições regionais.
Bem sei que o mesmo tende a acontecer nas eleições nacionais e, em muitos casos, vai acontecendo nas eleições autárquicas, mas, ainda assim, o país vai sendo governado por partidos políticos e isso vai sendo claro na cabeça das pessoas. Não adianta dizer que é no Primeiro-Ministro que os portugueses votam, pois na realidade há em cada partido um capital eleitoral fixo muito importante que condiciona à partida os resultados, mesmo que aqui e ali, o resultado penda para um dos lado, graças a uma ou outra personagem. Não é isso que se passa nos Açores e na Madeira, onde já não existe qualquer matriz ideológica nas eleições regionais. Esta ideia é de tal forma forte, que estou farto de ler e ouvir, 12 horas após ter tido 27% dos votos na Madeira, que “o PS ganhou as eleições regionais…”, (exemplo: O Barnabé). Ganhou??
Nesse sentido, seria interessante retomar a discussão dobre o famoso "deficit" democrático nas Regiões Autónomas, não no sentido da interpretação que lhe foi dado há uns anos, como se fosse uma acusação pessoal (o que é normal, por tudo o que se disse atrás), mas no sentido de fornecer substância ao tema e recolocar a Madeira e os Açores no panorama político nacional e devolver às Regiões Autónomas um sistema de alternância democrática mais justo e politicamente motivador.
A discussão deveria ser de tal forma elevada e responsável que não colocasse ao povo, nos pratos da balança, a necessidade de escolha entre "deficit democrático" e o "outro deficit" nem colocasse aos governantes a ideia de que o sistema seria contra uma ou outra personagem. Nesse sentido, o anúncio de Alberto João Jardim e Carlos César de que cumpririam os seus últimos mandatos, abre à classe política uma oportunidade de ouro para relançar a questão e reformar o sistema.
Não sei como tal se poderá ou deverá fazer, mas certamente que os defensores da Regionalização saberão como pretenderiam evitar este tipo de perversão, caso as Regiões tivessem avançado, como queriam, também no Continente!

O pior de tudo...

O pior de tudo não é a criancisse de dirigentes, as bocas foleiras, as ligações políticas, os trogloditas das claques, a "dama" do Pinto da Costa, nem sequer os adeptos portistas engolirem reverentemente cada vómito do "seu presidente". Nem que este esteja a dizer o maior disparate do Mundo (eles vão repeti-lo por 365 vezes nos próximos sete dias). O pior, é que, como eu, muitos portugueses (adeptos ou não da equipa que lidera o campeonato, pouco importa) se terão ontem desinterassado completamente pelo futebol nacional. É que, seja qual for a vantagem com que o Futebol Clube do Porto vencer no final (e vai vencer), ficará sempre a ideia de que houve batota.
Com ou sem Scolari, com ou sem Figo, ganhando 7-1 ou empatando 2-2, para quem gosta da bola como entretém, e não como uma estranha e falseada religião, sempre vale mais a pena sofrer com a Selecção. Pelo menos, nos jogos da UEFA e da FIFA, a coisa percebe-se melhor: quando a bola entra na baliza, é golo.
É por estas e por outras que, reunida a direcção do Nónio, ficou decidido: aqui não há mais bola nacional.

sábado, outubro 16, 2004

Embirrar... com estilo!


José Sócrates é, sem dúvida, a face mais civilizada que o Partido Socialista conheceu nos últimos 10 anos. Ao "chocado/enjoado" de Guterres, sucedeu o ar "pedreiro" (sem ofensa para os ditos) de Ferro. Da embirrenta postura de ambos, passou-se agora a uma face mais urbana e bem mais própria do Século XXI (ou pelo menos do XX) de Sócrates.
Mas a postura, o modo como fala e sobretudo como ouve (algo que os seus antecessores apenas sabiam fazer se fossem eles próprios a falar) do novo líder do PS não pode começar a esbarrar na prática.
Parece-me que é isso que está a acontecer acerca do caso do Orçamento de Estado para 2005. Que o PS tenha necessidade de apresentar propostas de alteração ao Orçamento para o votar favoravelmente, compreendo. Creio é que Sócrates escolheu mal a exigência.
O corte dos benefícios fiscais (falemos claro, dos descontos proporcionados pelos PPR) pode não agradar a todos. Certamente não agrada aos que fazem PPR’s e têm dinheiro para os fazer. Mas o certo, é que a medida, quando combinada com a redução efectiva das taxas de IRS, sobretudo se a sua incidência for sobretudo nos escalões mais baixos, não deixa de ser da mais elementar justiça social. Mais se tem que concordar com ela quando Bagão Félix parece ter “entornado” toda a verba proveniente desses benefícios no desconto no IRS.
Só que, por razões mais ou menos matemáticas, uma das medidas apenas poderia fazer sentido acompanhada da outra, já que na actual conjuntura não seria possível encontrar dinheiro no orçamento para baixar o IRS sem cortar nos benefícios. Isso mesmo foi alegado pela oposição quando Santana Lopes anunciou que desceria o IRS, por não ter explicado onde iria buscar o dinheiro.
Ora, Sócrates, ao criticar apenas o fim dos incentivos, faz exactamente o mesmo, pois fica por explicar se, na sua opção, as vantagens dos PPR se manteriam em prejuízo das taxas de IRS ou se, efectivamente, manteria apenas a medida da descida. Assim sendo, faltariam 300 milhões de euros no OE, cujo "nascimento" o líder do PS só não explica porque... não terá de aplicar o Orçamento.
Esta crítica fácil de José Sócrates é, por isso, um tiro no pé. Pois significa um recuo e uma colagem ao discurso fácil e demagogo que a oposição viu nas palavras de Santana Lopes há uns dias atrás.
Mas não é só aí que erra o socialista. Sócrates esquece aquilo para que há dias chamei a atenção num outro post: "o Povo não é estúpido"O Povo não faz PPR, ou se preferirem, só 10% faz PPR, e mesmo assim, não sei quantos desses votam.
A "Classe Média", que entrou no discurso da oposição, não foi atacada com o Orçamento de Estado, bem pelo contrário e Sócrates esqueceu que esta classe, em Portugal, apesar de lhe chamarem média, é muito baixa e não tem dinheiro para aforrar há muito tempo.
Se em termos substâncias Sócrates não tem razão, em termos políticos e de opinião pública, nada ganhará com esta estratégia, senão afastar-se ainda mais daquilo que são os problemas e os sentimentos dos portugueses. Porque não tem razão, porque quase ninguém achará que a tem e porque, além disso, não leva consigo nem o ar "chocado/enjoado" nem o ar "pedreiro" que, sabe-se lá porquê, convenceu alguns portugueses (apesar de tudo muito menos dos que os que serão beneficiados pela medida de Bagão Félix) durante algum tempo.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Agora já se entende!

Se no meu último post disse que “não se entende…”. Pois agora já se entende porque os arruaceiros continuam a existir. Para quem não quer ver o que se passou, “alguém” financiou os Super-Dragões para que estes adquirissem os bilhetes, antes da polémica se iniciar. “Alguém” tinha interesse em apontar o dedo ao Benfica e lançar a confusão nas vésperas de um jogo importante. E “alguém” teria até interesse em que O JOGO fosse adiado, se calhar porque nem por isso a sua equipa esteja em muito boa forma. Quem é esse “alguém”. Eu não sei… O JOGO deve saber.

quinta-feira, outubro 14, 2004

Candonga às claras


Os Super-Dragões compraram 2 mil bilhetes para o Benfica-Porto em bilheteiras e nas Casas do Benfica e colocaram-nos à venda, segundo noticiaram as televisões e O JOGO em primeira-mão (esta noite surge a notícia de que pode haver muitos bilhetes falsos produzidos!). E fizeram-no perante as câmaras de televisão. As autoridades nacionais, que se fartaram de deter pessoas à porta dos estádios e nas ruas das cidades por estarem a vender meia-dúzia de bilhetes na "candonga" não fizeram nada! A Lei não continua a ser a mesma? E não acrescem agora razões de segurança?
E já agora, onde foram os Super-Dragões desencantar de um dia para o outro dezenas de milhares de euros para comprar tantos bilhetes? Ainda ninguém se questionou sobre a súbita capacidade financeira de uma claque de futebol no sentido de cometer uma confessada e pública ilegalidade, anunciada e "publicitada" na televisão?
O desentendimento de que não saem imunes nem o Futebol Clube do Porto nem o Sport Lisboa e Benfica, é lamentável e deplorável, não se entendendo porque razão quem promove e vive de um espectáculo, o procure degradar desta forma, arruinando o seu próprio negócio, mas é também pouco compreensível porque razão os arruaceiros das claques continuem impunemente a fazerem o que querem por esse país fora, acima da Lei e do respeito pelos cidadãos que, estranhamente, ainda gostam de ver este futebol.

Nónio atribui prémios - Sampaio já está nomeado

A esquizofrenia política nacional já invadiu praticamente todos os cantos do quadrante político, atravessa o desporto e assalta-nos os bolsos. Por isso, o NónioBlog resolveu promover uma gala virtual no final do ano, que atribuirá os Nónios do ano.
Os prémios serão divididos em várias classes, sendo que a primeira tem já um candidato. Jorge Sampaio merece assim ser o primeiro dos primeiros nesta iniciativa, ao candidatar-se ao Nónio “Mais Valia Estar Calado” com a sua frase a propósito do Prémio Carlos V. As nomeações podem ser vistas na coluna da direita deste blog e, cada uma delas, merecerá um link para o “post” que lhe deu origem. No final do ano, serão os visitantes a escolher os vencedores dos Nónios 2004.

Somos uns exagerados...

Portugal 7 Rússia 1

quarta-feira, outubro 13, 2004

Não era suposto estar calado, senhor Presidente?

Jorge Sampaio recebe hoje o Prémio Carlos V, pelo seu desempenho em defesa dos ideais europeus. O Presidente, que está outra vez na fase letárgica de nada dizer (“ás vezes o Presidente tem que ficar calado”, disse) a que me referi já em post anterior, diz que, “desta vez” o prémio é mesmo para si, "O prémio, desta vez, vai ser para mim. Não vai haver associações de caridade. Os tempos vão maus" (sic).
Que Jorge Sampaio fique com os € 90.000,00 do prémio, ainda compreendo, mas já que está na fase de estar calado, bem que poderia ter omitido a segunda parte da sua extraordinária afirmação (“porque os tempos vão maus”).
Vão maus os tempos para Jorge Sampaio, que na hierarquia da Função Pública… está no topo? Vão maus para Jorge Sampaio, que vai usufruir de um interessante ordenado vitalício? Vão maus para Jorge Sampaio, que em vez de renda da casa tem ao seu dispor um palácio cujo orçamento dava para alimentar algumas cidades ou vilas deste país? Vão maus para Jorge Sampaio, que não paga gasolina, nem mensalidade do carro, nem luz, nem gás, nem café, nem sopa, nem passe social, nem avião? Ou vão maus precisamente para as instituições de solidariedade?
Não sei se Jorge Sampaio merece ou não o prémio, nem tenho notado que tenha feito tanto pelos ideais europeus, - ("Fiquei muito surpreendido, porque obviamente não andei a dar passos para isso, e também muito honrado porque me dá fôlego para continuar", disse o Presidente*) - , mas se está a fim de estar calado, perdeu uma boa oportunidade para o fazer. Pode até ter uma grande sensibilidade para com os europeus (?), mas mostrou uma enorme infelicidade em relação aos portugueses. Aos que pagam aquilo tudo que ele não paga, aos que não ganham o que ele ganha, aos que não têm hipótese de dar os inúmeros prémios que o Presidente recebe. E recebe, não por se ter destacado “a estar calado”, mas simplesmente, porque é o Presidente de Portugal, como o espanto do próprio parece provar.
Mas nesta história do prémio, estranho outras coisas. Convidado para o acto, José Saramago (um anti-europeista convicto!!!) veio dizer esta coisa extraordinária: “que gostava de ver o primeiro Rei de Portugal ressuscitado”. As suas qualidades como destacado escritor e a sua enorme inteligência e perspicácia não terão, com certeza, permitido que o vencedor do “Nobel” tenha deixado escapar uma “gafe”. Por isso, admito que tenha mesmo pretendido dizer o que disse e, o que disse, é uma censura no mínimo incómoda a Sampaio e mesmo à República (pelo menos a esta última).
Numa altura em que o Presidente apela à serenidade e quer fazer-nos querer que está a deitar água na fervura, depois de ter regado a fogueira com gasolina e riscado um fósforo, este conjunto de “infelicidades” vem provar, de facto, que por vezes é mesmo preferível estar calado e que, se calhar, a censura por vezes daria um jeito considerável, pelo menos na defesa da dignidade do Estado, dos portugueses e dos valores nacionais (que não os europeus).
Recordo o meu "Post Aberto a Sampaio".

* força para continuar a dar os passos que não deu????

terça-feira, outubro 12, 2004

Foi ele, foi ele...

Um dia, há mais de 20 anos, ía a dirigir-me para uma miuda numa discoteca de Lisboa, levei um encontrão e caí. Quando me levantei ela já lá não estava. Hoje, pelo que estou a ver na TV, e pensando bem, acho que foi o Santana Lopes que me empurrou. Acho não, tenho a certeza!

Se tiver sido vítima de Santana Lopes, conte a sua história nos comentários. Nós, as vítimas das "pressões" de Santana Lopes não podemos mais ficar calados...

Cuidado com o Povo!

Santana Lopes achou que, com o discurso da “treta” anunciando aumentos de salários e menos impostos, iria convencer os portugueses e fazia esquecer o caso Marcelo.
Por sua vez, Marcelo achou que ficando calado e mandado dizer que tinha sido censurado..., a malta acreditava e se vergava aos seus pés com compaixão, comprometendo-se no voto presidencial.
O Presidente, achou que recebendo Marcelo estava a penalizar o Governo, a redimir-se do "pecado mortal" anteriormente cometido, mas que toda a gente acharia que estava a cumprir a sua nobre função reguladora e fiscalizadora.
Paes do Amaral achou que com uma reportagem patética feita pela sua própria redacção fugia à culpa que lhe imputam, evitando uma conferência de imprensa.
A oposição (PS, Bloco, PCP) achou que colando-se à "teoria da censura" estaria em melhores condições para ganhar as próximas eleições e que mais ninguém se lembraria dos seus próprios telhados de vidro (e paredes, em pelo menos um dos casos) nesta matéria.
Os opositores de Santana no PSD, acharam que apoiando Marcelo poderiam ganhar alguma coisa com isso, ainda que não acreditem minimamente no que andam a dizer.
Portugal está muito mal servido e continua a ser comandado por idiotas que nos acham mais estúpidos do que somos. A paciência do povo tem limites. Não menosprezem o povo.
O Povo já deu provas de que está lentamente a sair da "mornice" em que foi cozinhado em "banho-maria" durante meio-século. 30 anos depois, o Povo está farto destas palhaçadas e, cada vez mais, parece estar a ganhar sentido crítico e alguma maturidade. A classe política não tem acompanhado essa realidade, daí Fernando Gomes ter sido expulso do Porto, sem que até hoje percebesse porquê e mais exemplos virão.
Cuidado com o Povo… roubem, matem-se e esfolem-se, mas não abusem da paciência de quem paga a factura...

Este post, liga-se muito bem a um anterior que escrevi a propósito da Justiça.

segunda-feira, outubro 11, 2004

A censura

“Olha lá: quem tem mais pontos? O piloto P ou o piloto R?”
Esta aparentemente inofensiva questão que o director M de um jornal desportivo O para o jornalista J tinha uma razão de ser. O futebol que costuma ocupar 95% das páginas desse diário desportivo e 100% do pensamento do seu director, era nesse dia incomodado pelo automobilismo. Em quarto anos de edições, nunca o director se tinha debruçado, preocupado ou comentado o automobilismo.
Nesse dia o director estava atento e até sabia a pontuação de um campeonato menor, que não o de Fórmula 1 ou o Nacional.
A razão da pergunta tinha aparentemente a ver com um artigo publicado dois dias antes, em que se dava conta da eminente desistência de um promissor piloto português (R) a competir no estrangeiro por falta de patrocinadores, enquanto outro (P), já com longa carreira sem resultados à vista, tinha mesmo alguma dificuldade para distribuir os “sponsors” pelo seu carro.
Acresce que, informava o artigo, esses patrocinadores eram quase todos de empresas públicas, aludindo às coincidentes relações próximas com o poder político de então por parte desse piloto, da sua família e dos seus assessores.
“Olha lá: quem tem mais pontos? O piloto P ou o piloto R?” poderiam ter sido as únicas mas eloquentes palavras do director M. A questão estaria arrumada e o teor dos meus artigos mudaria. O jornalista J passaria a saber que a questão era incómoda e passaria a preocupar-se apenas com as corridas: quem fica à frente e quem fica atrás. Como circunstancialmente, o piloto P até estava à frente do piloto R no dito campeonato, a questão estaria resolvida… não fosse o jornalista J… um jornalista e, por isso, interrogativo e capaz de desenvolver sentido crítico.
E sendo assim, a conversa prosseguiu. O jornalista J argumentou e explicou ao director, que nem sempre quem está à frente é o melhor. Além disso, o que ali se fazia era informar: “com certeza, os leitores não percebiam porque uns ficam pelo caminho e outros continuam as suas carreiras. Aqui, havia uma razão extra-desportiva que eu conhecia, daí dar-lhes essa informação”, argumentou. “E achas que essa informação é boa para este jornal?”, prosseguiu o director M.
Este diálogo prosseguiu até ao ponto em que o director M pergunta ao seu jornalista: “porque escreveste aquilo?”. O jornalista J respondeu-lhe: “por ser verdade”.
Dias depois, sentavam-se à mesa da sala de reuniões desse jornal, o jornalista J, outro dos directores do jornal, um editor do mesmo jornal, o piloto P, o manager do piloto P e o assessor de imprensa do piloto P. A questão é debatida durante mais de três horas, sem que o director saísse alguma vez em defesa do seu jornalista.
No final, depois de uma análise detalhada sobre a questão, o piloto P, que se manteve também sempre calado, deixando os seus assessores falarem por ele, faz uma pergunta ao jornalista J: “sabendo que me prejudicavas com essa notícia, porque a escreveste?”. O jornalista respondeu: “porque é verdade”.
A conversa terminou por ali. O piloto R deixou de competir muito pouco tempo depois, o piloto P continua hoje, sete ou oito anos depois, a competir… sem ganhar. Os seus patrocinadores já não reflectem hoje tanto o peso do Estado, até porque o Estado já tem hoje outros comandos politico-partidários. O piloto P senta-se hoje ao lado do Administrador T, num carro de competição, sendo que esse Administrador T até é um tipo que tem andado a ser muito falado ultimamente por causa da censura.
O jornalista J manteve-se no lugar durante algum tempo, continuou a escrever com o mesmo espírito, até que um dia lhe foi comunicado que tinha sido dispensado da sua função, para a qual era remunerado a recibo verde, "a partir de amanhã", disse o editor Z, encarregue de lhe dar a notícia. É claro que a razão não foi a questão do piloto P ou do piloto R. A razão tinha unicamente a ver com o facto do jornalista J ter colocado acima de qualquer outro, o seu compromisso com a verdade.
A questão foi esquecida e hoje, o jornal O, no que diz respeito ao automobilismo, limita-se a publicar classificações das corridas de Fórmula 1, que o próprio editor Z redige...
Como é evidente, nunca o director M irá confirmar a conversa com o jornalista J, nem nunca o piloto P irá reconhecer o encontro no jornal O. É claro que se um deles tivesse “peso político” e 50% de audiência televisiva ao domingo à noite, o Presidente da República teria recebido alguém em Belém e teria ficado preocupado. No fundo, tão preocupado como o director M, que até ali tinha ignorado a questão, embora ela fosse bem evidente.

Com esta história que não pretendo impingir a ninguém em jeito de vitimização de ninguém (isso hoje já pouco importa ao jornalista J), procuro apenas demonstrar o seguinte:
1
A censura faz parte do dia-a-dia dos jornais e a única “entidade” que a poderá impedir é a cultura, a formação e a vocação dos jornalistas. Como é evidente, na sua deformação, os políticos e o Presidente da República, sonham logo com repressão, regulação e… censurar a censura. Mas é “por baixo” que estas questões se resolvem. São os jornalistas que fazem os jornais e não é possível regular consciências, senão fornecendo cultura (ética e da outra), fornecendo educação (moral e da outra) e emprego de qualidade. Isso não se faz em três dias, nem se resolve por decreto.
2. O Presidente da República, ao receber Marcelo Rebelo de Sousa, deu um sinal extremamente negativo ao país, aos directores, aos jornalistas, mostrando que em Portugal, nas redacções e no interesse público, há “uns” e há “outros”. “Uns”, os poderosos, são políticos, são os que têm capacidade de influência e são discriminados positivamente, em detrimento do interesse público. Os “outros” não têm qualquer importância.
3. Jorge Sampaio teve em relação à questão da liberdade de imprensa, a mesma atitude que o director M assumiu em relação ao automobilismo no seu jornal. Ignorou sempre que existia, até ao ponto em que ela mexeu nos seus interesses (ver exemplo do caso Casa Pia).
4. No final de tudo isto, quando muito rapidamente a questão for esquecida, tal como no jornal O, ficará tudo como dantes, ou talvez um pouco pior…


Nota: a fonte desta "notícia" presenciou todas estas conversas e só pode, por isso, ter sido ou o jornalista J ou o director M. Porque neste blog não se aceita a figura da "fonte próxima" ou seja, do "diz que disse". Pergunto: acreditam que tenha sido o director M a colocá-la neste blog?

Afinal há censura...

Jorge Sampaio descobriu que em Portugal há censura. Deve ter sido o que Marcelo Rebelo de Sousa lhe disse durante aquela hora no Palácio de Belém, pois até aí nem desconfiava de tal. Sampaio tem, no entanto, a solução para o problema: uma nova entidade reguladora do sector.
Era bom que o presidente explicasse o que (e como) deveria fazer essa entidade. Censurar a censura?
Até aqui existia a Alta Autoridade para a Comunicação Social, mas já toda a gente tinha percebido que não funcionava. Daí ter sido extinta por decreto, embora ainda funcione até ser substituída por outra entidade cujo funcionamento está a ser estudado.
Ou seja, Sampaio anda um bocado distraído e vem parar a esta questão com um certo atraso, pois chega agora a uma conclusão a que toda a gente já tinha chegado há muito tempo atrás.
O problema é que nem ele nem ninguém parece saber como é que se faz esse controlo sem que tal controlo possa ser confundido com Censura.
Afinal, quando o presidente fala em "regulação", refere-se a quê? A uma entidade omni-presente que irrompa pelo jantar entre Pais do Amaral e Marcelo e dê duas bofetadas ao patrão da TVI se este falar em "modificar o formato da crónica"? Ou a uma entidade que aplique o rigor jornalístico de um lápis azul às notícias sobre a Casa Pia em que o nome de Sua Excelência seja referido?
Em vez de andar a falar a jornalistas espanhóis sobre este assunto, levando os portugueses a "picar" este tipo de informação em Espanha, Sampaio deveria solicitar aos seus assessores de imprensa (também os tem, como Santana Lopes, e também ganham muito. Quanto?*) para pensarem no assunto e, já agora, para pensarem num nome engraçado para essa nova entidade, desde que não se chame Direcção Geral de Sampaio (DGS)...

* NDA: espero que não seja censurável falar deles.

domingo, outubro 10, 2004

Mas que "fontes" são essas?

Na coluna à direita deste blog coloquei um novo item: "PARA NÃO ESQUECER". Nesta secção vou apenas colocar dois ou três links periodicamente. Esses links serão uma forma de recordarmos momentos, notícias ou simplesmente posts deste ou de outros blogs ou sites. Procurarei aí, manter, na medida do possível, um pouco mais vivo um ou outro tema que tendemos a esquecer, no nosso muito português tique de nos esgotarmos nos temas jornalísticos tão depressa como os esquecemos.
Para inaugurar esta secção escolhi precisamente um link para o “Post Aberto ao Presidente da República”, pois creio que este momento da nossa vida colectiva, sendo triste anedótico não pode ser esquecido. No futuro, os presidentes que vierem a sentar-se em Belém deverão também eles ter uma secção com o título “Para não esquecer” com este caso, para que não tenham o mesmo comportamento absurdo, infantil e da mais mesquinha jogada política que TODO o país político (não há excepções nem à Esquerda nem à Direita, nem do lado do próprio Presidente e do Governo) está a demonstrar.
O outro link é para uma notícia do Jornal de Notícias e, na substância, deveria ocupar-nos bastante mais do que o tema dos últimos dias. Aparentemente, nada tem a ver com o assunto do outro link, mas no fundo, tem tudo a ver.
Em Portugal há pessoas que todos sabemos serem corruptas, que todos sabemos fazem e cedem a pressões, que todos sabemos estarem a derreter o património público em nome dos seus próprios lucros.
A verdade, é que esta é uma pequena notícia do JN, comparada com as manchetes que o “diz que disse” de Marcelo tem provocado. A verdade também, é que esta notícia deveria merecer-nos mais atenção e, sobretudo, mais consequências do que as que estamos habituados. Afinal, as fontes desta notícia são perfeitamente fidedignas e identificadas, não “as são fontes próximas” que dão autoridade a jornais supostamente de referência azo a que tudo possa ser dito.
Sim, porque eu questiono-me (e essa deveria ser a primeira atitude do jornalista) sobre a credibilidade de uma “fonte próxima”, como a que o Expresso apresenta ontem.
Reparem: duas pessoas tiveram uma reunião de manhã, aliás foi jantar na véspera, aliás não foi jantar… e dali resultou uma conversa que mais ninguém ouviu. Um deles contou algumas coisas a “uma fonte próxima” depois da bomba ter estourado. Essa “fonte próxima” contou ao “Expresso” (e este será o caminho mais curto que podemos imaginar, mas pode haver mais intermediários, não sabemos).
Pergunto eu, à luz daquilo que aprendi modestamente ser a ética e a deontologia jornalística, a “fonte” que devemos considerar, sobretudo quando se trata de uma “fonte” que não identificamos, não deverá ser de inegável credibilidade? Isto é, não deverá o jornalista abdicar de a citar se não tiver a certeza absoluta de que a informação que lhe está a passar é inteiramente verdadeira? Pois se assim é (e é!) como é possível ter essa certeza a ponto de publicar se, neste caso, “a fonte” nem sequer assistiu à conversa, como é público e notório? Se Pais do Amaral já falou e disse tudo o que supostamente quer que acreditemos que seja a verdade, como é possível e jornalisticamente sustentável que uma notícia venha agora basear-se no que ele terá supostamente dito a alguém, sobre o que supostamente tenha dito a outro alguém?
E questiono mais, sendo essa fonte tão íntima de Pais do Amaral ao ponto de ter a certeza absoluta de que o mesmo lhe contava a verdade (provocando no jornalista que “bebeu” a informação anónima a mesma certeza), que espécie de relação teria com o mesmo a ponto de o trair, passando essa informação ao Expresso e, no fundo, chamando-lhe com isso de “mentiroso” e até “censor”? Suponho que Pais do Amaral apenas contaria tal coisa a uma ou outra pessoa, muito íntima e amiga, a ponto de lhe dizer a verdade que negaria a pés juntos ao país, ou não? Que espécie de amigo seria essa então? E que espécie de credibilidade teria?
Essa “fonte” que cita o Expresso, é afinal, das duas uma: ou alguém de muito má índole e de uma falta de ética e solidariedade assinalável para com a “fonte primeira da notícia” – Pais do Amaral – (o que logo deveria ter feito o Expresso desconfiar) ou é alguém que não é “fonte” nenhuma, mas talvez que esteja interessado em dizer aquilo que o Professor Marcelo não quer dizer… talvez porque não seja verdade.
O Expresso, lamentavelmente, e como acabo de provar, bebeu água inquinada, de forma ingénua (?) ou mentindo aos seus leitores sobre a verdadeira “fonte” da notícia (?). Uma ou outra hipótese arrepia-me.
Sobre a questão das "fontes" recordo um post anteriormente publicado no Nónio a propósito do processo das cassetes do Correio da Manhã.
Para terminar, deixo a questão: por que não se ocupam mais os nossos “jornais de referência” na investigação de casos como o do Plano de Pormenor das Antas? Aí há fontes concretas e bem identificadas, há contas feitas sobre quanto custaram aos bolsos dos portugueses e dos portuenses os negócios feitos à margem do Estádio. Será que nomes como os de Pinto da Costa, Grupo Amorim ou Nuno Cardoso são, afinal, fontes de maior “pressão” do que os do próprio Primeiro-Ministro? Afinal, quem tem levado mais “coça” da Imprensa, uns ou os outros?
Quando, muito brevemente, esquecermos um e outro assunto… continuaremos como hoje: sem saber a verdade.

sexta-feira, outubro 08, 2004

“Post” aberto a Jorge Sampaio – Demita-se


Senhor Presidente

Venho, em nome do voto que não lhe conferi – em democracia é mesmo assim: o meu voto também é seu, agora – pedir-lhe que se demita.
Afinal, tem sido Va. Excia. a maior fonte de destabilização do país dos últimos tempos. Quer pelos constantes recados que vai deixando cair nos seus discursos, que colocam sobre este Governo (escolhido exclusivamente por Va. Excia e não nos consultando para tal) uma insustentável suspeita, quer pela forma desregrada e nada pluralista com que tem encarado a sua agenda presidencial (ainda agora, ouvindo apenas uma parte de um problema de um comentador que se despediu da sua função).
Va. Excia. parece ter tido medo da escolha que o povo faria, caso tivesse convocado eleições e, agora, muito pouco tempo depois, parece estar com medo da sua própria escolha.
Mesmo admitindo que possa parecer de mau gosto a comparação, Va. Excia. é simultaneamente o terrorista e o sequestrado, ao tornar-se refém de decisões de que não gosta. Sempre com a bomba na mão, para a qual aponta insistentemente, vai mantendo um poder ilusório e temporário que apenas o poderá levar a explodir-se a si e a alguns poucos inimigos.
Percebendo isso, e como forma de penitência, amarrando-se de mãos e pés perante um Governo por si nomeado mas que Va. Excia. odeia, tenta agora exercer os direitos que negou a si próprio.
Amordaçado e sem margem de manobra, tenta agora escapar, mas não consegue melhor do que espernear perante os nós cegos que continua a negar, mas que lhe apertam pernas e mãos. Desatá-los é reconhecer uma incompreensível incompetência recente, ao não aceitar eleições. Manter-se atado, é manter-se como o mais anedótico refém da História de Portugal.
Espero, Senhor Presidente, que não lhe passe pela cabeça a ideia de se auto-decapitar, como forma de colocar um ponto final no assunto. Seria mais um episódio triste e sórdido da vida política nacional, que tenta Va. Excia. penosamente comandar.
É por isso que lhe escrevo esta carta, pois vislumbro uma saída airosa para esta situação embaraçosa em que se colocou Va. Excia., arrastando consigo um Governo e um país.
Os sussurros que Va. Excia. vai largando do seu lamentável cativeiro, sem nunca afirmar com a frontalidade que os portugueses desejavam, aquilo que pensa, tem um fim possível: demita-se Senhor Presidente, passe a ser o Jorge Sampaio e goze de um estatuto que dá prestígio em Portugal (mais do que o de ser Presidente) nos últimos tempos: o estatuto de “demitido”.

Veja os exemplos do Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, que de comentador passou a sentar-se numa cadeira ao lado da sua; do Dr. Durão Barroso, que de Primeiro Ministro saltou para a Europa; do Eng. António Guterres, que de mau governante passou a saudoso ex-Primeiro Ministro; de Murteira Nabo, que de ex-Ministro em fraude fiscal passou a Presidente da Portugal Telecom, de Mira Amaral, que de ex-administrador passou a reformado milionário.
Demita-se e salve a sua carreira, a sua imagem, livrando-se das insuportáveis grilhetas com que teve a habilidade de se prender e que, em honestidade, já nenhum português entende.
A propósito Senhor Presidente, no caso de se não demitir, e tendo eu sido alvo há uns anos de um despedimento sumário por parte de um jornal - e que, posso admitir, tenha tido origem censória - acha Va. Excia. que ainda irei a tempo de uma audiência preventiva no Palácio de Belém? É que sempre tive curiosidade de aí entrar, não pelo Palácio em si, mas mais para tentar perceber o que faz Va. Excia.

Cumprimentos respeitosos

Um e-leitor como os outros

Ponto de ordem sobre o caso Marcelo:

1. A atitude do Ministro Rui Gomes da Silva é, em si, um acto censório, despropositado, desinformado e que revela pouca inteligência política. Isto é, é um erro político infantil.

2. Não sabemos porque se demitiu Marcelo Rebelo de Sousa. O seu silêncio, 48 horas depois, indicia, no entanto, que se tratou de uma jogada política. Se Marcelo tivesse sofrido pressões e estivesse de boa fé no processo, teria a possibilidade de fazer uma de três coisas: ou se mantinha no cargo e denunciava-o em pleno comentário; ou se demitia e contava inequivocamente o que se tinha passado; ou se borrifava para o assunto e continuava os seus comentários normalmente.

3. Os que normalmente aceitam a censura como o dia-a-dia das suas vidas (por exemplo, os deputados comunistas) deveriam, nesta matéria, ter a decência de se manterem calados (como estão alguns).

4. Há uma histeria colectiva e despropositada sobre esta matéria, de que o Presidente da República é principal culpado, irresponsavelmente.

5. Espero que o Presidente da República não venha amanhã falar de pluralismo e democracia a propósito desta matéria, quando decidiu apenas ouvir uma das partes.

6. Marcelo Rebelo de Sousa não é obviamente censurável, pois se abrir a boca para o que quer que seja, terá sempre um microfone disponível para o ouvir. Para falar na censura e auto-censura que existe no nosso país, e que está nas redacções de muitos órgãos de comunicação social, não me parece que esteja o Presidente da República disponível.

7. De toda esta história, resultam (até ao momento) apenas três factos: a) Um Ministro fez declarações inaceitáveis e censórias e disse porquê; b) Marcelo Demitiu-se sem dizer porquê; c) O Presidente da República ouviu Marcelo sem dizer porquê.

8. Ainda se lembram da “consomé” que Marcelo tinha tomado em casa de Manuel Monteiro? Ele não. Nunca a tomou, como se veio a saber…

quinta-feira, outubro 07, 2004

Os sinais de fumo de Jorge Sampaio

Por alguma estranha razão, convencionou-se em Portugal que a função do Presidente da República é nada dizer. Quanto mais tempo estiver calado sobre determinada matéria... mas importante é a sua função. Sampaio leva isto ao limite, comunicando com os portugueses por sinais de fumo, transmitindo mensagens pela duração das reuniões que convoca e pela "qualidade" das pessoas que convida, julgando que a autoridade é directamente proporcional ao seu silêncio. Mandando recados pelos que com ele acabaram de falar.
No caso da Casa Pia, assistiu em silêncio à devassa de vidas privadas, de vítimas, supostos inocentes, alegados violadores, assistiu às mais execráveis formas de sensacionalismo, atropelos à Justiça, acusações de conspirações improváveis ao próprio aparelho de Estado e, no final, quando alguém escreveu sobre um facto do processo (a existência de uma carta anónima a seu respeito), explodiu numa histeria incontida.
Sampaio, nesse momento, passou uma mensagem ao país, aos jornalistas, aos directores, ao povo: “canibalizem-se como quiserem, mas não me comam”!
Esta mensagem de Sampaio, condicionadora da liberdade de expressão e da verdadeira Liberdade de Imprensa, sublinha-se hoje com a anedótica convocação de Marcelo Rebelo de Sousa para um encontro no Palácio Presidencial.
Posso entender nestes “sinais” presidenciais uma censura à TVI? O que fez a TVI, Sampaio sabe o teor das conversas dos jantares entre Marcelo e Pais do Amaral?
E quem é Marcelo, afinal? Além de um brilhante comentador político?
Quais as preocupações do Presidente da República para com jornalistas que são condicionados todos os dias nas redacções? Quais as preocupações do Presidente da República para com os profissionais da comunicação social que permanecem em trabalho precário e são explorados de forma que não só atenta aos seus direitos fundamentais enquanto trabalhadores como lhes penaliza a capacidade de decidir livremente sobre o que escrevem e como escrevem.
Onde tem estado Sampaio? Em que país tem ele vivido? De que país são os jornais que lê? Ou será que apenas se preocupa com os 52% de audiência televisiva que gerava Marcelo?
Aguardo mais sinais de fumo… senhor Presidente!

A este propósito, será interessante ler as palavras do Presidente sobre a informação na sua página oficial.

Marcelo, Sampaio, Pinto da Costa… haverá independência jornalística?

Parece que o país descobriu, de repente, que há pressões, que há intocáveis, que o poder político e económico condiciona conteúdos editoriais e que a Imprensa não é absolutamente livre, que, afinal, tudo se compra e tudo se vende, inclusivamente a informação.
Sempre assim foi e não vejo hipóteses de mudar. Torna-se até ridículo que o Presidente da República venha agora preocupar-se com isso, se nunca o fez e se sempre soube que assim era.
Afinal, o que posso concluir, é que, mais uma vez, há os “uns” e os “outros” e que “uns” são mais livres do que “outros” e que a liberdade de expressão e o valor da verdade só é preocupação presidencial se estiver em causa uma personalidade como Marcelo Rebelo de Sousa.
Se há quem não precisa que o defendam, se há quem consiga sempre ser ouvido e chegar com a sua opinião a todo o lado (estando ou não na TVI), esse alguém é Marcelo.
É evidente que este caso pode servir como exemplo e os políticos estão (de uma forma ou de outra) a aproveitar-se do ocorrido para tomarem posição, mas, a mim, não é Marcelo que me preocupa.
Afinal, sejamos francos, já toda a gente esqueceu a leveza com que a imprensa nacional sempre tratou os Governos de António Guterres? Se hoje é apresentado e “trabalhado” com foros de primeira página o suposto “escândalo” de um Ministro que no final da sua função governativa de dois anos (que termina de forma “natural”) aceita um cargo numa empresa pública, porque razão não foi “ao fundo” a imprensa, os cronistas, os “opinion makers” quando Murteira Nabo saiu do Governo de Guterres, 15 dias depois de ter tomado posse como Ministro, pela porta pequena, reconhecendo fraude fiscal… para 15 dias depois ser Presidente do Conselho de Administração da Portugal Telecom?
As “reservas”, a “auto-censura” a outra “censura”, a influência, o “conselho do director”, a “pressão” – de outra maneira – o comprometimento da imprensa e dos seus conteúdos editoriais com os interesses politico-partidários e com o poder económico não são de hoje, não nasceram com Santana Lopes, não surgiram sobre Marcelo.
Essas pressões sobre os jornalistas são um facto jornalístico que, paradigmaticamente, é censurado pelos jornalistas. Nas conversas de café todos dizem que existe, mas nenhum assume já ter escrito de outra forma ou ter deixado de escrever por causa das “pressões” e dos “conselhos”.
Um erro político colossal de um Ministro terá lançado uma discussão na opinião pública, mas no final sobrará o quê? Essa é a questão que coloco. E como estou pessimista! Nada de bom daqui resultará, senão um nefasto aviso à navegação, pois nem todos podem bater com a porta como Marcelo, nem todos merecem a preocupação do Presidente da República. Afinal, não somos todos portugueses da mesma estirpe. Essa é a verdade.
Influências? Auto-censura? Pressão? Descobriram isso hoje? Nunca leram O Jogo, A Bola, O Record? É diferente? Porquê? A única diferença é que a jogada do Deco ou do Simão todos vemos na televisão e as jogadas políticas são mais rasteiras. Mas a massa de que é feito o papel de jornal é a mesma.
Alguém pode imaginar que os jornalistas de O JOGO vêem sempre o penaltie para o mesmo lado? E que no Record é ao contrário? É uma questão de “ponto de vista”? Ou uma gravíssima influência da direcção e dos proprietários do jornal sobre a independência editorial do jornalista?
Conheço tantos jornalistas que trocaram O JOGO por A BOLA, esta pelo Record e o este por O JOGO… terá sido necessário ao director dirigir-lhes uma palavra sobre “não agressão” a Pinto da Costa quando ingressou neste último?
Estará o Presidente da República preocupado com isso? Saberá Jorge Sampaio que o jornalista de O JOGO é o mesmo que amanhã escreve sobre a sessão da Assembleia da República num jornal dito “generalista”? Saberá ele que efeitos tem este "facto" naquilo que deveria ser a credibilidade jornalística?
Será que isso o preocupa, ou terá a Presidência da República em relação aos jornais, televisões e rádios, a mesma benevolência e “tolerância jornalística” de que gozam determinados dirigentes desportivos em relação a determinados “jornais”?
Por mim, ainda me lembro dos recados ofendidos de Sampaio quando o envolveram no caso da Pedofilia da Casa Pia, contrastando com o seu insuportável silêncio até então. Sampaio, tinha até aquela data mantido uma reserva estranha, quando estava em causa a violação sistemática e nojenta de crianças a cargo do Estado, abriu o livro, quando não concordou com uma notícia... sintomático!