Nónioblog

quinta-feira, setembro 30, 2004

E quem ri por último? - ou a história de um amor que é cego


"Eu até me fico a rir porque ele puxa para o meu lado, pois sou portista. Mas sei ver que não está certo", este foi o comentário de um colega adepto e sócio do F. C. Porto a propósito da notícia de hoje na Visão, em que Pinto da Costa e o Futebol Clube do Porto são envolvidos num esquema com a Câmara de Gaia. (ver também artigo posterior do JN)
É por isso que Pinto da Costa não conseguiu nem nunca conseguirá vingar na vida política. Enquanto "marcar golos" para o Porto e as suas "manobras manhosas" forem entendidas como a mão de Maradona a dar à Argentina um golo ilegal, mas saboroso, os portistas vão-se rindo e festejando e Pinto da Costa será "o maior".
Já votar nele para gerir os dinheiros dos nossos impostos - provaram todas as sondagens e até eleições - nem pensar! Aí, Pinto da Costa vale zero.
No fundo, o dirigente postista deve viver numa imensa angústia, pois saberá - como eu e como o meu colega - que já ganhou muita coisa, mas que, no fundo, nunca convenceu ninguém (nem os seus) de que o faz de forma séria.
Odiado pelos que perdem, amado pelos que ganham, ele viu, como eu, que apenas alguns meses passados e já os seus adeptos cospem no treinador que os levou ao céu muitas vezes, em apenas dois anos. Só que, para Mourinho, há tantos clubes como os que ele quiser representar por essa Europa e Mundo fora. Para Pinto da Costa, só há um...
Ele sabe, por isso, que não pode deixar de ser o presidente do Futebol Clube do Porto. No dia em que isso acontecer, ele sabe que a sua mão escondida não mais marcará golos à Maradona e, tal como o craque argentino, corre o risco de se tornar numa anedota sem glória e, já sem utilidade, será levado a tribunal pelos próprios portistas.
Serão eles mesmos, como aconteceu no Benfica de Vale e Azevedo, a perguntarem-se para que serviam as ligações à famosa agência de viagens, às Câmaras Municipais, a ex-ministros, a empresários, de que era feita a sua solidariedade para com os espíritas do "Coração da Cidade" e quais os destinos das "ajudas" do Futebol Clube do Porto a esta suposta instituição de caridade. Serão eles ainda a perguntar-se, por onde anda tanto "capital" conquistado por tantos jogadores, tantos treinadores e, sobretudo, pela tanta paixão de tantos adeptos. Serão eles, a quererem revistar-lhe os bolsos antes de sair.
Se "o amor é cego", a frase do meu colega significa, pelo menos, que o amor futebolístico o é apenas até certo ponto. Até ao ponto em que somos apenas cidadãos e despimos a bandeira e o cachecol para passarmos a contribuintes, pais e filhos de Portugal.
Como em quase todos os outros assuntos da vida, "o tempo fará a sua história".
Se preferirem, de uma forma mais popular, "quem ri por último..."

terça-feira, setembro 28, 2004

O comandante e o farol


Sempre senti uma inexplicável paixão por faróis. Uma espécie de atracção esotérica e, não fosse eu ser dos cépticos em relação à reencarnação, teria que acreditar num passado trágico ou glorioso aos comandos de um farol.
Subir ao farol e de lá pairar sobre os medos, os receios, as fantasias e os gozos que o imenso oceano sempre nos sugere, faria de mim o comandante de toda a terra. Os navios ao longe, seriam para mim rochedos, dos quais me desviaria com o poder da luz. E a luz é o que mais perto nos coloca de entender a energia e Einstein.
No fundo, eu seria o marinheiro, ao leme de uma imensa nau de bonita madeira, resistente como a fria pedra, onde conviveriam piratas violadores, idosas moribundas, sorrisos de crianças descalças, tesouros de ouro falso.
A minha nau seria húmida e desconfortável, com tragédias, traições e estranhas formas de solidariedade e improvável amor. A minha nau, seria uma sociedade de condenados sem esperança e de heróis imortais sem consciência… como Einstein.
Também inventaríamos bombas atómicas que não rebentaríamos e novas formas de remar mais depressa. Também estenderíamos grandes velas, não só para que o vento nos levasse, mas também para que nos vissem ao longe. Para que nos vissem e de nós se desviassem.
Rasgando o mar, ignorando Neptuno, o meu farol seria, talvez, afinal, apenas um desejo de nostalgia, uma canção de embalar ou uma forma de poder espreitar, guiar, salvar, sem que, para tal, tivesse que suportar o olhar de quem receia naufragar…

A propósito da menina do Algarve...

Estava a evitar este assunto, um pouco inconscientemente. Mas enfrento-o agora para dizer duas coisas:
1. Que me atormenta tanto a morte violenta como a vida violenta que aquela menina teve. Menina que se repete tantas vezes como nem eu imagino em tantas casas portuguesas. Muitas, muitas, sem morte, mas com a tal vida que me atormenta.
2. Que me apetece lembrar um "post" que coloquei há uns tempos neste blog e que intitulei: "Pena de Morte"

A culpa é do Governo, está-se mesmo a ver...

"Atestados médicos falsos podem levar a mais atrasos", in TSF Online, sobre a crise dos professores.
Enquanto durar neste país o vício instalado de encontrar "bodes espiatórios", sem que se abandone de uma vez por todas corporativismos bacocos de que professores e médicos são exemplares afamados. Enquanto professores não denunciarem professores e médicos não denunciarem médicos. Enquanto os sindicados continuarem à espreita de motivos para cumprir os objectivos políticos ocultos (ou nem tanto) de quem os instrumentaliza. Enquanto a Comunicação Social se deixar embalar pelas ondas da agenda político-partidária em lugar de construir a sua própria agenda... Portugal será um país de pobres doentes, de tristes alunos e fracos costumes.

segunda-feira, setembro 27, 2004

A quem pesa a consciência?

Aparentemente, os casos do "acelera" de Palmela e da morte da menina do Algarve nada têm em comum. Mas, na realidade, têm muito. Em ambos, as autoridades estavam avisadas, em ambos, a população fez avisos e denúncias, em ambos, a Lei teve uma oportunidade de ser aplicada, em ambos, os tribunais puderam decidir e prevenir, em ambos, a morte e o sofrimento acabaram por se sobrepor aos mais elementares direitos humanos.
Hoje, a Lei, os tribunais, os advogados, a polícia e os governantes têm a possibilidade de reflectir sobre desgraças evitáveis. Será que o irão fazer? E reflectindo, será que farão alguma coisa diferente amanhã?

Sobre a Justiça

Sobre a Justiça portuguesa, a sua prática, as suas protectoras Leis, sabe-se hoje que está a potenciar desejos primários de justiça popular por esse país fora. Não está longe o dia em que o povo irá fazer a sua justiça (injusta, naturalmente) sobre um culpado dos "telejornais"...

Os "aceleras"

A propósito do ocorrido em Palmela, com a morte de espectadores de uma corrida "piarata", repito dois "post" publicados em Agosto no antigo Nónio.

Passou-se em Portugal

Há mais de três anos, quando viajava tranquilamente na VCI, no Porto (para quem não sabe é uma auto-estrada), pelas 13 horas, um miúdo de 22 anos colou-se com o seu Audi A3 à traseira do meu carro. De tal forma que me era impossível ver a grelha do seu carro. Como viajava a cerca de 90 km/h, tornava-se muito perigoso. Levantei-lhe um braço para lhe indicar calma, até porque ele acendia os máximos furiosamente, como seu eu estivesse a fazer algo de errado.
O que fazia era apenas uma ultrapassagem que, assim que terminada, me levou à faixa do lado direito de novo. O “puto” não gostou, ultrapassou-me e colocou-se à frente do meu carro, travando a fundo. Consegui desviar-me, mas mais à frente voltou a fazê-lo. Seguíamos a cerca de 100 km/h numa auto-estrada muito movimentada, mas fê-lo na faixa do lado esquerdo, depois de uma lomba, em pleno viaduto do Amial. Consegui parar, talvez avisado pela irresponsabilidade criminosa do condutor, mas atrás de mim bateram dez outros carros, alguns dos quais tiveram a sucata como destino e alguns feridos foram contabilizados.
Não satisfeito, o rapaz saiu do seu carro e agrediu-me em plena auto-estrada. É evidente que me deixei estar dentro carro, com o cinto apertado, esperando que não me caísse em cima um camião cisterna ou coisa do género, mas o seu estado era tal que nem isso ele ponderou, o risco de vida que estava a correr ao parar daquela forma, naquele sítio e, ainda por cima, saindo do carro.
Para felicidade minha, um carro da Polícia Judiciária perseguia-o, pois já antes de se encontrar comigo na VCI tinha feito disparates do género, presenciados por três inspectores da PJ, que lhe chegaram a ligar a sirene. Era tal o seu estado… que não tinha dado conta e prosseguiu a sua caminhada criminosa.
Os três inspectores presenciaram as manobras, a agressão e detiveram-no de imediato, tentando controlar o pânico que se gerava na via pública, em plena auto-estrada. Apreenderam o carro, considerando as suas manobras criminosas e o carro como “arma do crime”.
Mesmo detido, o rapaz lançava insultos e ameaças em todas as direcções.Na PJ apresentei queixa e depus, como todos os outros que assistiram ao que se tinha passado, nomeadamente três inspectores da PJ. Felizmente, e por muita sorte, não foi necessário relatar a morte de ninguém, mas poderia obviamente ter acontecido.
Presente ao Juiz umas horas depois, o rapaz foi posto em liberdade, foi-lhe devolvida a carta de condução e o carro, aguardando julgamento com termo de identidade e residência. Há dias, três anos depois, fui chamado a depor em Tribunal, o rapaz ia a ser julgado, com a carta no bolso e com a arma do crime no parque de estacionamento.
Em Tribunal, pude ouvir todo o tipo de argumentação do seu advogado e do advogado da sua companhia de seguros, que se recusa a pagar indeminizações.Infelizmente, não me admira que um advogado de má qualidade defenda o seu cliente, mesmo quando todas as evidências apontam para que os seus actos tenham sido criminosos. Mas fico perplexo com a qualidade da Lei e da prática judicial portuguesa e pergunto: se eu possuir uma pistola, e licença de porte de arma e a usar gratuitamente contra alguém, provocando feridos, avultados prejuízos materiais e perigo de morte, o Juiz coloca-me em liberdade, três anos a aguardar julgamento, devolve-me a pistola, a licença de porte de arma e manda-me disparar mais vezes?
Foi o que se passou!
Ah! Não sei qual foi a sentença do julgamento de há dias, mas admitido que entre recursos e atenuantes, o rapaz ande por aí até matar alguém (ou já terá matado?).
Não sei qual foi a sentença, nem quero saber! Seja qual for, parecer-nos-á sempre uma decisão arbitrária de um Juiz, que decidiu interpretar uma Lei que é a mais avançada do Mundo, a proteger… criminosos.A vida, integridade, segurança, bens, a paz e os DIREITOS dos cidadãos que naquele dia por ali passavam, é que não foi, não está nem parece estar em vias de estar protegida pela Lei, pelos senhores Juizes e pelo Direito... mais avançado do Mundo.

Passou-se no Japão

Encontrei esta história (a notícia parece que estava publicada no Público) no Blog do Alex e achei importante colocar aqui. Amanhã conto uma história à portuguesa para contrastar com esta:
18 ANOS DE PRISÃO POR ACIDENTE DE VIAÇÃO Um cidadão peruano, Enrique Morales Jorge Toguchi, de 22 anos, foi condenado ontema 18 anos de prisão (...) por ter morto duas pessoas com o seu veículo. Conduzia embriagado um automóvel sem seguro, sem matrícula registada e sem carta de condução, em Mouka, 100km a Norte de Tóquio. Passou um sinal vermelho a 135km/h, ultrapassando a velocidade limite de 60km/h, e embateu noutro veículo num cruzamento, o que levou à morte de 2 dos seus ocupantes. 4 peruanos que viajavam com Enrique Toguchi ficaram gravemente feridos. "Não há que sentir piedade pelo acusado que menosprezou a vida e a saúde de outras pessoas", declarou o juiz, Susumu Iibuchi (Público, 4/8/04: 22)

domingo, setembro 26, 2004

Já não há pachorra

Diz Pinto da Costa: "Já não é admissível anular-se um golo como este". Isto é, queria ele dizer, que já não é admissível haver roubalheira... Era engraçado que Pinto da Costa dissesse quando foi ou é admissível que se anulem golos limpos...

sexta-feira, setembro 24, 2004

O erro de Fernandez

Na minha vida profissional fui aprendendo várias coisas. Uma delas, é que a deslealdade entre colegas, a falta de ética e as faltas deontológicas, mais tarde ou mais cedo, pagam-se caras.
Vem isto a propósito de Vitor Fernandez e do desempenho do Futebol Clube do Porto.
Quando entrou, o espanhol tinha duas hipóteses: ou aceitava treinar a equipa, ou aceitava treinar a equipa entrando no habitual esquema viciado de Pinto da Costa, que desta vez visava deitar a baixo Del Neri, ganhar um processo em tribunal e agradar aos Super-Dragões, mesmo que para tal fosse necessário faltar às mais elementares regras deontológicas e éticas. Fernandez foi por esta segunda via, afirmando que “não era inteligente mudar o que ganha” e dizendo que “é preciso respeitar os hábitos dos jogadores”.
Só que, os “hábitos” dos jogadores, toda a gente sabe, nunca foram assunto recomendável para uma equipa que se quer ganhadora.
O estranho nesta história, no entanto, não é falha ética de Fernandez – infelizmente estamos fartos de coisas semelhantes no futebol – nem sequer acho estranho verificar que o Porto não consegue ganhar, na ressaca de uma campanha fantástica que durou dois anos, o estranho é Fernandez ter acreditado que seria possível obter resultados com semelhantes princípios, em que quem manda são os jogadores e as camisolas hão-de fazer o resto.
Os três pontos do Futebol Clube do Porto, com que vergonhosamente acompanha o Sporting, a seis do Benfica, deixam antever um ano muito complicado para a equipa e para Pinto da Costa, mas acima de tudo, provam que o crime nem sempre compensa, mesmo quando se trata de futebol e mesmo quando Pinto da Costa é o patrão.

quarta-feira, setembro 22, 2004

Artigo quarto

Estou um bocado confuso... acho que vou meter um "artigo quarto", que é aquela coisa que só os professores podem fazer para faltar sem dar cavaco quando lhes apetece.
Depois vou pensar nas férias, nas férias, nas férias e nas outras férias, que duram três meses. Depois vou ficar chateado porque ainda estou de férias e, depois, vou ficar mais chateado porque o se o Estado não me der emprego vou chorar para a televisão.
Sim, porque o Estado é obrigado a dar emprego aos professores, seja lá de que forma for. A professores e a médicos.... Olha se a moda pega aos engenheiros, arquitectos e advogados... e se pega aos arrumadores? Sim se os arrumadores se acharem no direito de ter um emprego do Estado, no dia que querem, na cidade que querem, com o horário que querem, sem dar cavaco a ninguém, sem chefe para lhe chatear a cabeça e sem ninguém a avaliá-los?
Sabem o que falta nesta conversa da treta? Falar dos alunos, do destino da produção do sistema educativo. Porque as nossas escolas, em lugar de serem fábricas de conhecimento, são um enorme centro de emprego, num sistema onde o objectivo, os vícios, os trâmites são guiados pelo interesse do emprego dos professores. O ensino que se lixe.
E esse não é um mal de hoje, é um mal histórico que precisa de tratamento de choque e ninguém parece ter coragem para o fazer.

terça-feira, setembro 21, 2004

Sem desculpa... ou coragem política?

O caso da colocação dos professores é indesculpável. De facto, "trapalhada" é a única palavra que me ocorre dizer nesta altura e a demissão de algumas pessoas, nomeadamente da Ministra da Educação, parece-me inevitável quando o processo terminar.
Mas não posso, apesar de partilhar estas emoções que relato atrás, deixar de meditar.
Hoje ouvi vários informáticos afirmarem que um programa para fazer tal tarefa sem erros é praticamente impossível de concretizar.
Esta afirmação, partilhada por muita gente, deixa-me a pensar sobre como foram colocados em anos anteriores e levanta-me uma legítima dúvida: estará o pecado nesta Ministra, neste programa informático e neste Governo, ou estaremos antes na presença das primeiras pessoas sérias em muitos anos? Será que os alegados erros não terão desde sempre ocorrido e, perante a complexidade do sistema, não terão a maioria dos professores ficado simplesmente resignados à colocação que lhes atribuíram?
Será que o zelo desta Ministra está a cavar a sua própria sepultura política?
Se assim é, então esta Ministra, que será sempre crucificada, pode estar já com a consciência corajosa (é que continua a dar a cara e a manter-se no lugar) de que este processo, mesmo penoso e vergonhoso, servirá para que o sistema de colocação de professores mude completamente e, de uma vez por todas, terminem as injustiças que, desconfio, sempre se passaram.
E há mais uma coisa. Mais uma vez, o Presidente da República, com o seu ar saloio, vem pedir calma e serenidade, colocando, logo de seguida, um tom de gravidade que apenas alarma. Parece que assopra para uma chama, fingindo que a tenta apagar mas, afinal, apenas consegue atiçá-la mais com o seu sopro venenoso.
Além de tudo, o drama (e não nego que exista entre toda a comunidade escolar e sobretudo entre os alunos que, é bom não esquecer, são a finalidade do sistema) não será assim tão grande. Afinal, durante décadas e até há muito pouco tempo, o ano escolar começava em Outubro, acabava antes do que agora acaba, dando uns três longos meses de férias no Verão, e nunca ouvi dizer que viesse mal ao Mundo. Se encurtarem a semana estupidificante de férias em Outubro, as idiotas férias de Carnaval, as longíssimas férias da Páscoa e as férias do Verão, será fácil, não só compensar o atraso, como prolongar o número de dias de aulas total... afinal não é isso que querem os professores? Trabalhar?

sexta-feira, setembro 17, 2004

Como é duro trabalhar

"Como é duro trabalhar" é uma canção brasileira, que se aplica ao Brasil.
Hoje, o Governo admitiu que as empresas públicas de transportes podem ver o seu capital parcialmente vendido a privados. A notícia provocou a ira dos sindicatos dos trabalhadores do sector, que disseram temer pelo futuro das empresas e pelo bem-estar dos trabalhadores.
Ora, não percebo!
Se os trabalhadores das empresas públicas se queixam constantemente do Estado, dizendo que são mal pagos e que trabalham que nem uns mouros. E que o Estado não lhes garante segurança. E mais não sei o quê... Porque razão ficam furiosos quando o Estado parece querer abrir mão de ser o seu único patrão?
Ás vezes, fico com a ideia de que a velha canção brasileira, na realidade, é portuguesa e tem letra e música da autoria de alguns sindicalistas da função pública.

A Casa da Música ou um monumento à nossa passividade

O que mais me confunde na história da Casa da Música, como em todo processo do “Porto Capital Europeia da Cultura”, são os crimes que foram cometidos em seu nome. O primeiro desses crimes foi um crime cultural. A propósito de algo que deveria ter sido uma forma de promoção da cidade e da sua cultura (e que só poderia ser feito com a realização de eventos culturais o mais alargados, abrangentes, populares (no seu mais nobre sentido) e publicitados possível, o “Porto Capital Europeia da Cultura” transformou-se numa forma de empreiteiros ganharem dinheiro.
Do dinheiro ilegítimos que terão ou não ganho, do dinheiro ilegítimo que a sociedade terá ou não gasto (o dinheiro era nosso, recordo), já nem falo. É demasiado escandaloso e obsceno para me ocupar com isso. Penso que deveria ser algo de que se deveriam ocupar organismos como a Polícia Judiciária e o Ministério Público, pois não vejo razão de ser para tais obras senão o interesse particular. Interesse público, não tiveram nenhum e quando o nosso dinheiro é gasto dessa forma…
Mas o tal crime cultural que foi cometido, foi ter-se perdido uma oportunidade. Em lugar de mostrar a cultura, de promover as salas, museus e outros aparelhos culturais, em lugar de se estimular a criação popular, as associação recreativas, trazendo para o povo e para a rua a cultura, em toda a sua expressão, criaram-se espectáculos de elite, para os quais era quase impossível obter bilhetes e aos quais era quase impossível chegar, devido a obras absurdas, caríssimas, inúteis e despropositadas.
O outro crime, foi o de ter dado uma imagem do Porto aos poucos e enganados turistas que cá vieram que em nada o enaltece. Entre obras embargadas e buracos despropositados, os turistas devem ter ficado com uma ideia do Porto muito aproximada à de Sarajevo. Ícone da cidade, a Torre dos Clérigos transformou-se, rodeada de buracos e tapumes, num monumento à estupidez.
O Porto perdeu uma oportunidade. Nós gastámos imenso dinheiro. Alguns ganharam imenso dinheiro.
A Casa da Música, verdadeiro sorvedor de dinheiro, continua a gastar os nossos impostos e subsiste como um pesada e eterna herança de meia-dúzia de palermas. Até hoje, ninguém conseguiu dizer para que serve tal equipamento, nem os sucessivos presidentes que por lá passam (e já vão cinco).
A única coisa estranha nesta história, é pensarmos que ninguém está na cadeia por causa disto.

quarta-feira, setembro 15, 2004

Em Portugal também há terrorismo. Em Portugal também há furacões.

O novo ano parlamentar começa hoje.
Num país onde há tanto por fazer, é quase impossível eleger quais as prioridades dos cidadãos e o que deveria ser debatido naquela casa onde nos deveríamos sentir representados. Ainda assim, quando hoje ouvia um programa de rádio com intervenção de ouvintes sobre esta matéria, ocorreu-me de como somos egoístas e temos a memória curta.
Ouvi falar de professores e aborto. Ouvi falar do preço da gasolina e das rendas. Ouvi falar de aumentos e do sistema de saúde, sobretudo sobre taxas moderadores e pagamentos e ouvi falar de autos-estradas e preços das portagens.
É evidente que essas são matérias importantes, que fazem parte da vida das pessoas e que ocupam as agendas partidárias. Nomeadamente a agenda da oposição.
Mas, curiosamente, continua a adiado um tema que deveria preocupar muito mais a opinião pública e a classe política: a sinistralidade rodoviária.
Ainda ontem li uma notícia que me deixou a pensar e que relatava o facto de em Portugal terem morrido menos pessoas este ano do que em 2003 nas estradas portuguesas. Quase se poderia considerar uma boa notícia, se a morte de alguém pudesse alguma vez ser considerada como uma boa notícia.
O facto, é que em Agosto morreram mais de 130 pessoas nas estradas portugueses. Milhares ficaram feridas, muitas com incapacidades para o resto da vida.
Questiono-me então, porque razão se abrem inquéritos e se ocupam telejornais porque um avião se desviou do seu normal caminho e algumas pessoas bateram com a cabeça no tecto e não se abre um inquérito para determinar porque raio isto acontece!
Em 1976 caiu um avião na Madeira. Morreram menos pessoas nesse acidente do que num mês nas estradas portuguesas. Lembram-se da cobertura mediática que teve tal acontecimento? Sabem quantos milhões foram gastos para prolongar a pista do aeroporto do Funchal?
Há 20 anos, em Alcafache deu-se um brutal acidente ferroviário. Hoje, a passagem desse dia (11 de Setembro de 1984) ainda é notícia nos nossos telejornais, logo a seguir à preocupação com 50 portugues em férias em Cuba porque vem aí um furacão ou, mais simplesmente, porque o avião nunca mais levanta "e já estamos fartos de esperar".
Porque razão a tragédia diária se banaliza? Porque razão não nos incomodamos mais (os políticos também) com a morte lenta e macabra que acontece à nossa porta todos os dias e nos impressionamos com as nódoas negras de 30 pessoas dentro de um avião?
A verdade, é que, numa altura em que tanto se fala de segurança contra o terrorismo, segurança nos aeroportos, luta contra o Cancro, luta contra a SIDA, aumento da criminalidade violenta, continuamos a não fazer nada em relação a um assunto do máximo interesse nacional, que tem consequências catastróficas no bem estar das famílias, na sobrevivência das mesmas, na economia e, mais importante, na vida.
Todas as semanas deixamos que acontece nas nossas estradas um atentado bombista como vemos em Israel, com dezenas de mortos e centenas de feridos.
Todos os meses, vemos cair um avião, com centena e meia de pessoas, provocando em terra milhares de feridos e levados prejuízos materiais, deixando filhos órfãos e pais viúvos. A cada trimestre, vemos terroristas sequestrar uma escola, com crinaças que podem ser os nossos filhos, e dispararem contra ela, matando centenas e deixando outras com traumas para a vida. Todos os anos, vemos cair uma das torres do WTC, provocando mais de um milhar de mortos, a que juntamos um terramoto, com centenas de milhares de feridos, entre ligeiros e graves, alguns deles (muitos, demais) ficarão para sempre agarrados a uma cadeira de rodas. A cada década, assistimos nas estradas portuguesas a um violento terramoto, como o de 1755, matando dezenas de milhares de pessoas e ferindo gravemente outras tantas.
Portugal (nós) e os políticos (o Parlamento, o Governo, o Presidente da República) não podem continuar de costas voltadas para esta realidade, fingindo ou que não existe ou que não tem solução.
Mas não tem que ser assim. Portugal não precisa esvair-se em sangue na estrada todos os anos. Há alternativas. Os números não têm que ser estes.
A causa, ao contrário da imagem que o facilitismo político gosta de fazer passar, não é uma só. Recuso-me a aceitar que o povo português é mais inconsciente, mais irresponsável, mais destravado que os outros, por natureza. Ser latino e ser português não é sinal de ser anormal, alarve, estúpido e assassino. Ou se o é (em parte), não é mais do que o alemão, o sueco, e americano, o francês ou o grego (essa é, aliás, uma ideia apenas de quem nunca saiu de Portugal).
Por isso, é preciso discutir tudo. O ensino, a educação, a sinalização, o estado das estradas, a reciclagem dos condutores mais velhos, a actuação policial, a política de multas e apreensões de carta, a Lei, a forma como é aplicada, as sanções inibitórias, a sua eficácia, a política das seguradores, a actuação das câmaras, o estudo sistemático dos acidentes e dos pontos negros, a fiscalidade automóvel.
Sem assumirmos que, politicamente, temos que pegar em tudo isto de uma vez só, mudando a autoridade do Estado nesta matéria e dizendo, de uma vez por todas, que não tem que ser assim como é hoje, nunca deixaremos de assistir à triste e escandalosa realidade da sinistralidade rodoviária em Portugal.
Não tem que ser assim, mas é e há culpados. O maior de todos é o Estado que, comandado por políticos, vai deixando que a teoria de que morremos na estrada por sermos um povo estúpido e sistematicamente por “excesso de velocidade”. Nós, eleitores envergonhados, acreditamos e não obrigamos quem manda a mudar tudo.
A realidade, é que mudar (mudar mesmo) a política em relação à circulação automóvel em Portugal, será penoso, duro, caro e durará mais do que uma legislatura.
Em resumo: não dá votos.

segunda-feira, setembro 13, 2004

A "Síndrome José Mourinho"

Sem perceber muito sobre futebol, já percebi uma coisa: 90% dos treinadores têm a "Síndrome José Mourinho".
Sem me querer ocupar em explicar o que isso quer dizer, posso nomear José Peseiro como o mais patológico. Ao ouvi-lo falar, fica-me a sensação que, quando não no campo de treinos, o senhor passa os dias ao espelho treinando os tiques do ex-treinador do Futebol Clube do Porto.
O sorriso já começa a ser parecido, o que ele diz nem é muito diferente, a cara de mau ainda emita muito mal... mas no que está mais atrasado é mesmo no futebol.
Além disso, creio que hoje lhe faltou o registo, já que nas cassetes com que treina não havia nenhuma em que Mourinho tivesse levado uma sova de uma equipa acabada de chegar à Superliga.
Assim, a cara do Peseiro, em vez de parecida com a do Mourinho, era mais a expressão do... "e agora, o que é que eu digo? Ou melhor, o que diria Mourinho?"...

domingo, setembro 12, 2004

Bin Laden é quem manda

Percebo, compreendo, aceito e até concordo que se façam homenagens e se recorde o 11 de Setembro. Mas a realidade é que a sua recordação, naquilo que tem de transmissão de insegurança, medo, receio ou só cautela, é nem mais nem menos do que a vitória de Bin Laden. A sua intenção ao derrubar as torres tem sido atingida tantas vezes quantas vemos a imagem do nosso mundo desmoronar-se perante a nossa desorientação patética, engulida por poeira.
Bin Laden continua a derrubar as nossas torres em nossas casas e imortalizou-se mais, ao fazê-lo, do que figuras que quase anonimamente passaram ao lado da perpetuação histórica e ali mereciam mais do que leves referências.
Lembrando a sinistra personagem "Hannibal", medito sobre se alguém recorda, no famoso filme, o rosto, expressão os olhar de alguma das suas vítimas? Mas alguém alguma vez esquecerá os seus trejeitos ou a sua presença?
A 11 de Setembro o mundo ocidental falhou em toda a linha, pois não nos passou pela cabeça que alguém possa planear fria e profissionalmente durante anos, sem desvios, sem quebras, sem falhas, a sua própria morte, quanto mais a sua e a de mais 3.000 pessoas. Hoje, o mundo ocidental falha, quando mergulha numa histeria de segurança que consiste em prender os inocentes, para que os bandidos à solta os não assassinem. Não percebemos, contudo, que nos encurralamos cada vez mais e nos colocamos à sua mercê.
E estamos de tal forma encurralados que todos os valores em que se baseava a nossa sociedade começam a ser substituídos por um único valor: o da segurança ou o da insegurança. Zapatero herdou um lugar no poder, oferecido por Bin Laden. Bush ganhará a continuação no poder graças a Bin Laden. Berlusconi pode perder um lugar no poder que Bin Laden lhe roubará. Putine vê o seu inequívoco poder posto em causa pela primeira vez por Bin Laden.
O lugar de Presidente dos Estados Unidos já não é uma eleição decidida por americanos, mas sim por americanos aterrorizados. Bin Laden já ganhou e pode até estar já morto, que não mais interessará: o seu nome já tem lugar ao lado de Hannibal, Hitler, Pinochet... Ele perpetuou-se. Ele manda mesmo além da sua morte. Nós continuamos a saber que morremos quando ele quiser e como ele quiser... pelo menos enquanto estivermos convencidos disso - e estamos!

sábado, setembro 11, 2004

Depois do adeus

Já tinha encerrado mais ou menos a questão neste blog, mas os 115 comentários que o meu post "Pontapé na Barriga" mereceu na sua reprodução no Micróbio levam-me a reabrir para o seguinte post que não é mais do que o meu comentário aos comentários ali colocados:

Fico satisfeito por ver que um post meu revelou tanto interesse e discussão e que há muita gente que entendeu o que queria dizer. Como comentário aos comentários, gostaria de acrescentar que, após o barco ter zarpado para casa, fico com algumas ideias muito claras (as mesmas que tinha antes de ele cá vir)
1. Aquele gente não tem nada a ver com os direitos das mulheres e está-se nas tintas para a sua saúde e bem estar.
2. Aquela gente está-se nas tintas para a vida humana (em toda a sua plenitude)
3. Aquela gente está-se nas tintas para Portugal.
4. O único interesse daquela gente é politico-partidário, financiando-se na extrema esquerda que assim vê a possibilidade de ganhar uns votos e tornar a nossa vida democrática o mais complicada possível.
5. A Lei está errada há muito e toda a gente sabe disso.
6. Os portugueses (o povo, em primeiro lugar, os políticos em segundo, os médicos em terceiro) são os culpados da Lei continuar como está.
7. Este barco não contribuiu em nada para a livre e séria discussão do que quer que fosse.
8. Mesmo que a Lei mude, o aborto, a clandestinidade, o abuso, a miséria continuará a ser a mesma, com a mesma intensidade e com os mesmos problemas.
9. Abortar não é colocar um preservativo ou tomar a pílula.
10. Abortar é matar. Há países onde matar criminosos é legal e decretado por tribunais. Em Portugal, temos que decidir se devemos matar fetos legalmente ou não. Para mim, se o decidirmos fazer, estarei contra. Não me conseguirá sair da cabeça que estamos a matar inocentes... e se me custa a aceitar que se matem os criminosos...
11. O direito à opinião é universal e ninguém tem o direito de diminuir itelectualmente ninguém por ter determinada opinião. Ser contra o aborto não é ser inculto. Se esta foi a mensagem que a Rebeca nos quis trazer, comigo FALHOU!

sexta-feira, setembro 10, 2004

Dispenso-me de comentários

Este deve ser o último "post" sobre este assunto nos próximos tempos. E resume-se a isto: sigam este link de um artigo do "Público" transcrito no Clix. Os comentários, considerações e juizos que eventualmente alguém queira fazer sobre o comportamento, responsabilidade e interesses da Women on Waves, deixo para quem os quiser fazer.

Medicamento para abortar causa graves lesões nas mães e nos bebés

quarta-feira, setembro 08, 2004

Mulheres e socialistas primeiro...

Oiço ratos a mergulhar a 13 milhas da costa portuguesa?

Instinto

O ser humano (à semelhança de outras espécies animais) tem uma capacidade incrível de adaptação. É por isso que uma semana depois de um terramoto ainda saem dos escombros crianças vivas. É por isso que há relações que duram décadas em cenários de violência doméstica. É por isso que em Los Angeles se vive alegremente, mesmo sabendo-se que um terramoto os pode destruir a qualquer instante.
Essa capacidade de conviver com o risco, com a tragédia, com a dor é necessária, para que a espécie se perpetue. Mas esta característica de sobrevivência, esta espécie de “estado de emergência animal” a que chamamos "instinto" e que nos permite superar as nossas próprias forças, medos e nos faz ultrapassar, por vezes, dores, estados de alma ou situações aparentemente insuperáveis e inimagináveis, tem um reverso: o risco da banalização do sofrimento e da vida humana.
Na questão do aborto, como na questão do terrorismo, como na nossa vida caseira, social, política, profissional, o pior de tudo está na perversão dessa nossa notável capacidade e no terrível momento em que a adaptação passa a acomodação.
Que a minha consciência vá um dia adaptar-se a algumas novas regras e condicionalismos da sociedade, fazendo-me (a mim e aos outros) suportar violências e atropelos à vida, de forma sistemática, consentida e impune, como ultimamente tenho assistido, até acredito. Espero, no entanto, manter sempre o grau de lucidez e consciência necessários, para que me distinga de outros animais e me permita nunca me acomodar.

terça-feira, setembro 07, 2004

Os valores envergonhados

A propósito do "post" anterior e de outros sobre a mesma matéria e até de outros lamentáveis acontecimentos sobre o mesmo tema, gostaria de escrever o seguinte:
Curiosamente, neste país que se diz livre, a opinião mais envergonhada é a que zela pelos valores e pela vida e não a dos que enchem a boca de "democracia" e "liberdade" e não conseguem ter a mínima cultura democrática. Com certeza, as suas doutrinas politico-partidárias ainda estão embebidas do que durante décadas chamaram "socialismo democrático" e que não lhes permitiu (às doutrinas) crescer no respeito pela opinião. É uma cultura de protesto que dispara confronto e insulto e que, muitas vezes, empurra para a discrição os que, tendo opinião diferente e verdadeira cultura democrática, não precisam de bandeiras para ver as suas ideias triunfarem. No fundo, essas doutrinas que propalam as "aplíssimas liberdades" são, todos os dias, opressoras da razão ou, pelo menos, da razão democrática.

Pontapé na barriga

"Rebeca Gomperts anunciou, esta noite, à Sic Notícias, que a WW vai disponibilizar no seu site informação sobre medicação. Os medicamentos de venda livre em Portugal, segundo a presidente, provocarão um aborto nas mulheres que o desejarem.
A informação será para todas as mulheres que quiserem abortar em suas casas e em segurança. «Nós explicaremos o que as mulheres têm de fazer. Nós estamos aqui para proporcionar abortos seguros», explicou Rebecca Gomperts".
in IOL

Se não fosse trágico, era a anedota do ano!!!!!!!!
No mesmo dia em que os tribunais deram razão ao Governo, em desespero de causa, esta senhora, que não sei sequer de onde saiu ou qual a sua formação, confirmou não só a falta de cultura democrática e respeito pelo Estado Português da Women on Waves , como revelou uma alarmante irresponsabilidade. Não sei mesmo se não deveria ser detida e julgada, depois de incitar a actos ilegais e contribuir de forma evidente para eventuais problemas de saúde pública e desinformação.
Mas agora, pergunto eu: não vieram cá estas senhoras com a "bandeira" de que por causa da proibição em Portugal se fazem abortos em casa e sem condições que colocam em risco as mulheres que abortam, fazendo-as sofrer?
Senhora Rebeca: cá em Portugal somos um pouco mais pobres do que os holandeses, mas não somos estúpidos.
E pergunto também eu que não sou médico: perante a dimensão deste tipo de afirmações, não estaremos eventualmente a falar de um atentado contra a saúde pública mundial? Que tem a Organização Mundial de Saúde a dizer sobre uma "clínica" ambulante que visa provocar abortos e cuja responsabilidade ética e deontológica se revela em afirmações e apelos desta natureza? Já se preocuparam os zelosos jornalistas/navegadores portugueses em questionar esta organização sobre em que condições e com que segurança opera este tipo de clínica? O que acontece às mulheres quando entram naquele barco? Dão-lhes um comprimido em alto mar e mandam-nas para casa? Para que servem então as arrepiantes cadeiras que vimos nas imagens televisivas e que baloiçam ao sabor das ondas dentro do Borndiep? Depois do comprimido, fazem nesse barco mais qualquer coisa às mulheres? Essa "qualquer coisa" deixou agora de ser necessária em casa com um milagroso comprimido de venda livre nas farmácias portuguesas?
E que comentário fará a Organização Mundial de Saúde a tudo isto e a este arrepiante e preocupante apelo de Rebeca?
Inicialmente poderia até parecer-me, com boa vontade, que esta senhora e os seus amiguinhos tinham por finalidade proteger as mulheres portuguesas em situação difícil. Fica agora evidente que esta senhora Rebeca e os seus amiguinhos têm como único objectivo o aborto. Puro e simples! É esse o seu prazer: o aborto, custe o que custar. A segurança e o sofrimento das portuguesas e dos portugueses, a sua condição e acompanhamento médico e psicológico deixaram de ser importantes e até necessários. A única coisa que importa é que se aborte em Portugal. Seja com "fórceps" no barco da vergonha, seja com envenenamentos em farmácias ou, daqui a pouco, com um pontapé na barriga.
Odete Santos, Francisco Louçã, Juventude Socialista... que dizem disto?

segunda-feira, setembro 06, 2004

Quem quer casar com a Carochina?

Nada poderá ser tão enganador como uma "sondagem" num site. Sem qualquer fidelidade técnica e científica, este tipo de sondagem serve sobretudo para a malta se divertir.
Hoje, quando visitava o site da Visão, lá estava uma pergunta: Que lider para o PS? E, nas respostas, as opções que se conhecem e ainda uma oportuna "Nenhum deles". Tendo votado na última, mais por pena dos próprios do que do partido, fui depois ver os resultados, que davam uma esmagadora maioria ao primeiro.
A piada desta estória (se é que tem alguma) é que, por lapso, quando abri o site li erradamente e de relanço: "Quer ser lider do PS?".
Só dei conta que me tinha enganado e que tinha mesmo lido o que lá não estava, porque não havia maneira de encontrar o "Não" que me apressei a procurar, não fosse alguém aceitar a minha candidatura e empurrar-me também para o Congresso. Afinal, quantos mais candidatos, maior será a vitória de Sócrates... ou sou eu que estou outra vez enganado?

domingo, setembro 05, 2004

Pena de Morte

Muitas vezes oiço o "lugar comum" de que a Lei portuguesa é quase perfeita. Um dos exemplos que dão acerca do avanço do nosso Código Penal é o facto de termos sido dos primeiros do Mundo a abolir a Pena de Morte. Abolimos também a prisão perpétua e fomos ainda mais longe ao limitar a prisão máxima a 25 anos.
Compreendo que quem defende estes valores, nomeadamente o valor da vida, o faça na mais profunda convicção. Mas não deixa de ser uma convicção de circunstância. Ou, pergunto eu, que respostas têm esses para o que se passou por estes dias na Ossétia do Norte? O que lhes oiço, ao ver as imagens é: "Era fujilá-los a todos".
Sim, imaginemos semelhante em Portugal, ao abrigo das nossas avançadas e respeitadoras Leis.
Os terroristas detidos seriam condenados, no máximo, a 25 anos de cadeia. Ou seja, os terroristas com 20 ou 25 anos, estariam em liberdade com uns 45 ou 50 anos.
Que estranho legado estaríamos a deixar aos nossos netos…

Será verdade?

O que por estes dias se passou na Tchechénia é quase impossível de comentar. Não o faço, por sentir uma enorme vergonha por ser humano e por me sentir absolutamente incompetente para transmitir os mais básicos sentimentos do que dali prevalece.
Mas há uma interrogação que gostaria de deixar convosco: será que existe por detrás disto a ideia de libertação de um país? Por mais desatentos, inumanos e covardes que possam ser os terroristas, não acredito que lhes tenha passado pela cabeça que uma acção como esta pudesse levar um dia à independência de um Estado.
Contem-me, por isso, outra história, que esta eu não engulo. Contem-me aliás tantas histórias quantos os atentados da ETA, do IRA, da Alcaeda... Não podem estas organizações, superinteligentes, superdotadas e superoganizadas, ser simultaneamente dotadas de ataques de estupidez que os façam colocar a Tchechénia, o País Basco, a Irlanda do Norte, o Islão, mais longe da independência e liberdade que proclamam. Pois, de facto, do que por estes dias aconteceu, apenas resta uma certeza: nunca a Tchechénia será independente.
Pergunto, por isso, que estranha força é esta que nos ataca? Que visão apocalíptica tão nítida recebemos nos nossos ecrãs? O que a move? Quem a move?
Alguém saberá responder a estas questões? Se sabe e o não diz, e deixa que a história que nos contam continue a ser o mito da libertação de povos, então, é tão criminoso como os primeiros.

sábado, setembro 04, 2004

Alguns "post" do antigo Nónio

Este blog é a continuação do Nónio anteriormente alojado no Sapo. Infelizmente, depois de ter experimentado a triste experiência de ser cliente PT, de ser cliente Netcabo e de ser cliente ADSL Sapo, ainda caí na asneira de abrir um blog no Sapo. Acabei achando que a eutanásia deveria ser legalizada. Perante semelhante incompetência, os funcionários e Administração do Grupo PT deveriam ter vontade de morrer e nós não deveríamos ser presos por ter vontade de ajudá-los... O Nónio continua aqui. Para já, colocando alguns dos post que considero mais importantes do antigo Nónio, cujo endereço é http://nonio.blogs.sapo.pt/ e que, para já, continua online. Nos próximos dias este blog será trabalhado, sendo introduzidos os links dos blogs que mais aprecio e de algumas pessoas que têm visitado e comentado o anterior Nónio.

sexta-feira, setembro 03, 2004

Amplas liberdades...

O que mais me irrita nesta história do barco da Women on Waves é que quem mais apela aos direitos e liberdades não respeite o direito e a liberdade de quem não tem a mesma opinião, que por acaso é a maioria e que, por acaso, está de acordo com a Lei. E cria-se esta coisa estranha e perversa de se ouvir que ou se é democrata e se está contra o voto da maioria ou se dá aval a ilegalidades e passa-se automaticamente da estúpida tacanhez ao estatuto de intelectual de Esquerda.Até percebo que a Lei esteja errada, tenha que mudar e seja melhorável, mas se há algo que este barco mitigante conseguiu foi impossibilitar que, num futuro breve, a questão do aborto seja séria e serenamente discutida em Portugal. Se era essa a intenção, municiando Louçã para as próximas eleições, já pode levantar âncora, pois o BE vai poder chegar às próximas eleições com a mesmíssima Lei e com um renovado argumento para arrecadar votos. Com eles, vai fazer o mesmo que todos os outros fizeram sobre este assunto: demagogia. (publicado a 1 de Setembro).

A ditadura da liberdade

No “Euro 2004” fomos todos para a rua pelo futebol. Antes tínhamos ido por Timor. Agora, parece que há quem queira obrigar quem foi para a rua por uma e outra coisa a ir de novo por uma causa. Pela causa, até poderia ir. Pelos direitos de quem não os tem, talvez fosse. Contra a miséria humana, iria certamente. Contra a pobreza de espírito e contra o desrespeito, também. Por clínicas flutuantes, não vou.E não vou porque não posso aceitar que numa democracia haja opiniões inconfessáveis. Ser de Direita continua a ser um estigma numa sociedade que mais de 30 anos depois da revolução que nos devolveu a liberdade ainda não aprendeu a vivê-la.No meu post anterior não me pronunciei sobre o aborto ou sobre a interrupção da gravidez (chamem-lhe como quiserem) apenas lamentei que a Imprensa continue a deslumbrar-se pelas causas que não têm que ser as suas causas e que continue incapaz de manter em relação às causas dos outros o distanciamento que se lhe exige.Por mim (e apenas para esclarecer os que quiseram ler o que não escrevi e com pouco respeito o comentaram) gostaria que o Barco do Aborto viajasse de imediato para a China e ajudasse milhões de mães a darem à luz as filhas que estão proibidas de ter.Gostaria ainda que, de seguida, viajasse até Cuba, onde poderia certamente ajudar as crianças e adolescentes que sistematicamente engravidam graças ao patrocinado turismo sexual, que perpetua Fidel Castro no poder ditatorial.Finalmente, poderia navegar até aos países de Leste, onde a depauperada economia herdada dos regimes ditatoriais de esquerda (vulgo comunismo), obriga a que todos os dias migrem para Portugal centenas de mulheres que, nos nossos semáforos, nos pedem esmola com crianças de meses ao colo, atropelando os mais básicos direitos humanos.É evidente que poderia e deveria também navegar até aos Estados Unidos, à Inglaterra, à Itália, à Espanha, à Austrália, à Indonésia… em todos esses países há Leis diferentes, regimes diferentes de Esquerda e Direita. Em alguns o aborto é legal, noutros nem por isso. Mas em todos eles morrem diariamente mulheres na sequência de abortos clandestinos em clínicas de luxo, ou legais e no vão de uma escada.Quero com isto dizer que a miséria humana não tem cor partidária, não se resolve nas ondas dos mares internacionais nem esta Esquerda panfletária e com os piores vícios da pior direita tem qualquer intenção de a resolver.Resolve-se com educação, prevenção, evolução. Resolve-se com a cultura de um povo que um dia terá que resolver dizer sim àquilo que acredita. Livremente, democraticamente e conscientemente.Até lá, respeito a opinião de todos, mas todos terão também que respeitar a opinião da maioria. Caso contrário, cairemos na ditadura da liberdade… não a liberdade de escolha, mas a liberdade que uma qualquer Rebeca nos ditou! (publicado a 31 de Agosto).

O barco do aborto ou um jornalista em missão

A missão do jornalista é bem clara: contar a verdade. Mas, por vezes, o jornalista tem a tentação de se tornar no herói da sua própria história ou, pelo menos, de tomar parte da acção e abraçar causas, esquecendo-se que há quem, por vezes, habilmente se aperceba disso e saiba capitalizar a seu favor essa tentação.Foi o caso dos responsáveis pelo famigerado Barco do Aborto, que, além de terem uma clínica flutuante (chamar-lhe clínica é um grande favor, uma vez que a dita cuja não serve especificamente os propósitos da cura) devem ter uma muito boa máquina de Relações Públicas e Assessoria de Imprensa a funcionar.Ontem, quando assistia ao regresso dos jornalistas portugueses que se deixaram enredar na rede de pesca dessa máquina e embarcaram rumo ao barco, ouvi o jornalista da SIC dizer, "estamos a chegar e agora vou falar com a Rebeca....". Rebeca é a Relações Públicas, Assessora de Imprensa, activista, feminista e mais qualquer coisa da organização.Este tratamento - "a Rebeca" - indicia desde logo que o jornalista, ao aceitar a boleia da organização rumo ao barco onde foi obter "zero" informações, aceitou também vender um bocadinho da sua alma jornalística à causa.Certamente que poderia também ter aceite um convite de Paulo Portas para um passeio numa fragata portuguesa rumo a águas internacionais, esperando que no final não tratasse o Ministro por "o Paulo".Rebeca, a tal senhora, era até há 5 dias desconhecida dos portugueses e do próprio jornalista e este tratamento quase íntimo, quase amigável é denunciador de que o jornalista, ao embarcar, assumiu (se não consciente pelo menos inconscientemente) algum espírito de missão, não pela causa do jornalismo e pela boa informação, mas pela causa do aborto livre em Portugal, saltando de vaga em vaga pelo mar alteroso por entre fragatas de guerra que, ao mais distraído pareceriam prontas a disparar.Este tipo de estratégia de manipulação dos jornalistas (com sucesso), jogando com as suas emoções, é frequente nos dias de hoje, confundindo-se assessoria de imprensa e acções de relações públicas com controlo de repórteres transformados em “paus de microfone”, e publicidade gratuita.Mário Soares foi um dos primeiros a dominar esta arte em Portugal, pelo menos na política. As suas "presidências abertas" não tinham outro objectivo e enquanto o presidente ditava a agenda da informação em Portugal e provocava reportagens clonadas em todas as televisões ao mesmo tempo, com semelhante teor, conteúdo e abordagem, ia seduzindo jornalistas que no ambiente da sua acolhedora comitiva se iam deixando seduzir. Eles e os órgãos de informação para os quais trabalhavam e cujos gastos eram nulos, uma vez que a Presidência da República pagava todas as despesas.Espanto? Nenhum, hoje toda a gente faz isso, até porque ninguém esquece a simpatia que Soares conquistou na opinião pública e no eleitorado nacional. Os “planos” da reeleição passavam muito por este tipo de acção e ficaram em Belém para quem os quisesse seguir (e têm seguido).Valha-nos o mal dos outros: na Holanda, de onde veio o “Barco do Aborto”, não deve ser muito diferente, pois "a Rebeca", traz a lição bem estudada.Um último comentário: não deixa de ser curioso que sejam organizações deste tipo, normalmente conotadas com a Esquerda, que melhor dominem as perversões da máquina resultante da “livre sociedade da informação”, sustentada nos países ocidentais naquilo que historicamente a Esquerda sempre rejeitou quando foi poder: a liberdade e a democracia. (publicado a 30 de Agosto).

Jornalistas competentes, Robin dos Bosques falhados e prostitutas incompetentes

Um dia contaram-me uma história de um homem que foi à esquadra apresentar queixa de uma prostituta, uma vez que depois do pagamento feito, esta não terá sido capaz de cumprir em tempo útil a sua função profissional. Pensei que seria mais uma falsa história dessas que corre entre os polícias e serve para se entreter a família em festas de aniversário e coisas do género. Mas agora, que leio sobre jornalistas que clamam propriedade intelectual sobre gravações ilegais e se dão ao luxo de "não autorizar" a sua divulgação, parece-me que talvez seja verdade.E não me venham de novo com a ridícula história do interesse público, pois se assim é, quem as roubou ou receptou tem então toda a legitimidade para as divulgar... pois se são de interesse público! Aliás, a pergunta que se impõe é: se já eram de interesse público quando as gravou... porque razão as não divulgou?Corremos ainda o risco de, em nome do interesse público, ver aparecer os "ladrões" das cassetes clamarem direitos de autor sobre o roubo e uma editora chamar a si "royalties" sobre a compilação... de interesse público!Um destes dias, vamos ver um jornalista a roubar aos ricos para dar aos pobres (pois será do interesse público que ele próprio definiu naquele instante). E atrás dele, antes de entregar os bens roubados àqueles pobres, virá o Robin dos Bosques do jornal ao lado, que o roubará e entregará a os bens a outros que achará ainda mais pobres... No fim, queixar-se-ão todos à polícia, menos os que foram roubados. (publicado a 13 de Agosto).

As inacreditáveis afirmações de Óscar Mascarenhas sujam o nome do jornalismo

O Comunicado da Procuradoria da República sobre o caso das cassetes roubadas diz o seguinte:"Tendo tais gravações sido realizadas à completa revelia de vários interlocutores daquele jornalistas, estar-se-á perante um comportamento deontologicamente censurável e juridicamente ilícito, que não pode deixar de ter repercussões no futuro sobre o trabalho de outros profissionais da comunicação social, dificultando-o. À luz de jurisprudência que acabou por vingar num caso com contornos semelhantes ao presente e que teve uma enorme repercussão pública, o suposto material das gravações em causa poderá revelar-se inócuo como prova de crimes que possam ser cometidos com as conversas que hajam sido gravadas ilicitamente. Não obstante, tal não impede que a partir do processo que sobre o assunto pende no Departamento de Investigação e Acção Penal desde 6 de Agosto de 2004, venham a investigar-se todos os comportamentos relacionados com o caso que tenham relevância penal, daí se retirando as devidas consequências".Óscar Mascarenhas, armado mais uma vez em representante e defensor de jornalistas (quem o elegeu?) disse, em reacção à TSF que “A Procuradoria já arquivou o processo”, citando o Código dos jornalistas para dizer que quando está em causa a segurança de pessoas ou o interesse público tais gravações podem ser feitas.Gostava de saber que interesse público e que segurança estava em causa para legitimar tais gravações sistemáticas e feitas “por princípio” pelo jornalista, que notícias de interesse público daí resultaram e como raios será possível que 50 (cinquenta) horas de conversa possam ter interesse público. Mascarenhas conhece os conteúdos? Sabe que motivações de interesse público ou segurança levaram o jornalista a fazer estas gravações? Não sabe, não quer saber, nem investiga. Toma partido, legitimando que a Lei continue a ser violada por supostos jornalistas que atropelam as mais básicas regras deontológicas e de lealdade. Óscar Mascarenhas envergonha a classe, séria e trabalhadora.Mas há pior nas suas afirmações, para legitimar o seu discurso preconcebido contra quem investiga (e que no passado foi criticado por ter feito escutas legítimas, legais e, essas sim, com interesse para o processo), Óscar Mascarenhas sustenta-se em algo que o comunicado não diz. Nas suas patéticas e despropositadas afirmações à TSF diz que a Procuradoria no comunicado diz que já arquivou o processo. Ou não sabe ler ou ouve mal ou, possivelmente, Óscar Mascarenhas tem um problema grave de interpretação que o devia levar a abster-se de ter quaisquer funções em actividades que vaga ou mais directamente tivessem a ver com a área de humanísticas.As suas afirmações são, por isso, um autêntico compêndio sobre os erros que não se podem cometer no jornalismo, pela falta de rigor, falta de sustentação e pela falácia que significam.E agora pergunto. Porque estou eu a escrever sobre tão estranha personagem? (publicado a 9 de Agosto).

A fonte jornalística, o Off-the-record e a cassete pirada do "Correio da Manhã"

A questão das cassetes roubadas ao jornalista do Correio da Manhã suscita evidentes questões deontológicas e legais. Na minha opinião, há alguns aspectos fundamentais para podermos “medir” esta questão que estão a ser relevadas.Um deles tem a ver com o seguinte: se o jornalista não pretendia utilizar as gravações como “prova” ou “documento”, como o mesmo parece confirmar nas afirmações que faz, isto é, se as gravações eram meras “notas”, como as tomadas num bloco de apontamentos, então, as pessoas com quem falava não eram entrevistados ou meros interlocutores, uma vez que não iriam ser citadas como tal. Aliás, se o tivessem sido, então qual o problema de haver uma gravação com o mesmo conteúdo da notícia?A questão toda, é que as pessoas com quem falava eram “fontes” e apenas poderiam ser classificadas como tal.Estando classificadas como tal, manda a deontologia que haja uma confiança mútua que permita ao jornalista publicar as informações que são prestadas pela mesma e à “fonte” a tranquilidade de poder estar a prestá-las sem receios.Ora, o pressuposto de que alguém grava, sem aviso, uma conversa é algo inequivocamente indiciador de quebra de confiança, para não afirmar mesmo, de desonestidade, não compatível com a relação que uma “fonte jornalística” deverá pressupor.Por outro lado, podemos imaginar e até alegar (como já ouvi para defender o jornalista) que se este tivesse avisado as suas fontes do facto de estar a gravar, então estas poderiam já não revelar as mesmas informações. Ora isso prova a falta de confiança da fonte no jornalista e a falta de confiança que o próprio jornalista deveria ter tido em relação à credibilidade da mesma.Ou seja, ao gravar uma conversa onde lhe são prestadas informações por alguém, não o tendo avisado, o jornalista quebrou definitivamente a linha de confiança inerente à fonte, desclassificando-a automaticamente enquanto tal, devendo portanto abster-se de utilizar o conteúdo das conversas, quanto mais, transcrever gravações e guardar as ditas.A gravação, sendo, por outro lado, um mero instrumento de memória (e admitindo tal hipótese rebuscada) deveria, se assim fosse, ser imediatamente destruída após ter-se escrito a notícia.Alegar interesse público neste caso parece-me, por outro lado, absolutamente ridículo. Uma coisa é o interesse público do assunto, mas outra coisa é o interesse público do conteúdo das gravações e o interesse público de as fazer sem aviso e de as ter guardado (negligentemente, ao que parece). Não conheço o conteúdo das mesmas, mas será que tinham interesse público? Que notícias produziram essas gravações que fossem do interesse público?Por outro lado, até as gravações de escutas telefónicas feitas com mandado judicial são posteriormente destruídas, quando deixam de poder constituir prova, sendo expurgadas de tudo o que não interessa. Isto é, mantêm-se apenas as partes de interesse judicial. O pressuposto de que o jornalista possuía 50 horas de conversas de relevante interesse público sobre a Casa Pia é, no mínimo anedótico.Conclusão: estamos aqui perante um caso evidente de “off-the-record”, nada diferente do tão propalado caso António Oliveira. Ou seja, uma falsa fonte, dirige-se a um jornalista (não interesse se por iniciativa deste ou do mesmo) e faz-lhe revelações, que não confirma, não permite que sejam registadas e que não têm outro objectivo que não condicionar, influenciar e manobrar a opinião do jornalista e, logo, o conteúdo das notícias do mesmo. Ingenuamente, este, que porventura não confia no que lhe dizem, grava tudo, pensando que com isso obtém a sua inocência ao publicar conteúdos de fonte inquinada e que, em nada, poderão alguma vez contribuir para o esclarecimento público.Ao leitor, no fim de tudo, fica a ideia de que cada um diz o que lhe apetece, abrindo aspas e fechando aspas a cada parágrafo, citando essa figura inexistente da “fonte próxima de…”Na verdade, o “off-the-record” (e a esperteza saloia de quem grava dissertações de um treinador de futebol no final de um treino) é a figura mais abominável do jornalismo, não confundível com a verdadeira “fonte jornalística”.Ao jornalista, perante um “off-the-record” apenas cabe uma atitude, sacar do gravador e passar à entrevista de cara destapada ou virar costas a quem apenas pretende usá-lo para ver publicadas informações de origem duvidosa ou para ver os seus interesses reflectidos na imprensa.A "Fonte Jornalística" é outra coisa. Dela não se desconfia. Essa, não requer prova ou gravação. (publicado a 8 de Agosto).

Qualquer coincidência

Imaginem que amanhã, o capitão de uma equipa de futebol se demite, porque o treinador colocou outro a jogar no seu lugar e ele já tinha feito contas aquele prémio de jogo. O treinador convoca eleições entre os jogadores para escolher o novo líder da equipa.O guarda-redes começa logo a fazer campanha nos balneários, mas logo dá umas entrevistas para fazer sabê-lo. Mas o médio de ataque também quer o lugar!Depois, aparece o lateral esquerdo também a candidatar-se, contra o lateral direito que se alia ao ponta-de-lança que no dia seguinte se demite porque afinal não era aliado. Era só um apoio de circunstância e, portanto, ia deixar de marcar golos a partir daquele momento.Mas o lateral esquerdo logo desistia a favor do extremo esquerdo que também se candidatou, entretanto.Tudo isto acontece depois de um jogo importante que a equipa venceu 3-0 mas onde um dos jogadores morreu em campo, enquanto o maqueiro e o massagista se degladeavam furiosamente porque queriam ambos ser protagonistas do socorro a um lesionado.A seguir, ameaçam desistir todos se o jogador que estava emprestado a outro clube e se dizia que ia voltar depois de um pequeno-almoço indigesto com um que afinal também lhe ia roubar o lugar, se candidatasse. Mas, afinal, o que estava emprestado não quis candidatar-se, e os ex-futuros-candidatos voltaram todos a ser candidatos a candidatos.Depois, o guarda-redes, que via as coisas mal paradas e que até era filho de uma ex-glória do clube, alega que o avançado-centro lhe tinha dito que ele ia perder porque o médio defensivo lhe tinha dito que ia roubar os votos. Logo a seguir, o mesmo desmentia, afirmando que não, ele é que já andava a arranjar desculpas para a derrota!Já imaginaram isto dentro de um clube de futebol? Distraído do mais importante: fazer ganhar o clube. E do ainda mais importante: fazer do futebol uma modalidade credível?É claro que se Pinto da Costa, Dias da Cunha ou até Vale e Azevedo fossem presidentes de um clube assim, todos acabariam despedidos, sem emprego e sem jogar futebol, por ser obviamente incompatível a sua postura com o profissionalismo e a lealdade que se exige em qualquer equipa de futebol. Além disso, não seria tolerável em matéria de imagem que uma coisa destas se passasse!Agora imaginem que os jogadores são afinal políticos, que o clube é um partido político (o mais importante da oposição), que o campeonato é a luta pela governação e que o futebol, em vez de uma modalidade desportiva, é um país!NAH! Isto nunca poderia acontecer! Tenho a certeza! Nem no futebol da quinta Divisão, nem no rancho folclórico lá do bairro. No rancho fazem folclore mas não são estúpidos e na quinta Divisão não se divertem tanto! (publicado a 3 de Agosto).

Para que serve Narciso Miranda?

Sobre a explosão do fim-de-semana em Matosinhos, alguns pormenores apenas medíveis a Nónio me fazem meditar.A refinaria talvez não devesse estar naquele local. Mas está. E, ou se retira de lá ou se deixa lá estar.O que não faz sentido é deixar lá estar e construir à volta empreendimentos residenciais onde moram milhares de pessoas. No entanto, tal tem-se passado de forma absolutamente exponencial. Poderíamos então pensar que a Câmara Municipal entenderia irresponsavelmente que não existe risco (ou não licenciaria os milhares de fogos que tem vindo a licenciar). Mas não, é a própria Câmara Municipal quem tem ao longo dos tempos estado contra a presença da refinaria…Esta aparente incongruência apenas pode ter uma explicação lógica, a Câmara de Matosinhos apenas está interessada em licenciar, licenciar, licenciar e o desaparecimento da refinaria permitir-lhe-ia licenciar mais…Sobre as razões deste “interesse” da Câmara, ou do(s) autarcas, há quem fale em “pressão” imobiliária. Mas, então, como se faz essa pressão? Enviam-se 300 cartas à Câmara pedindo o licenciamento de um prédio de habitação? Não! Isso não é “pressão imobiliária”, isso não resulta. Aquilo que vulgarmente e diplomaticamente chamamos “pressão imobiliária” é outra coisa. Uma coisa que resulta muito em Portugal e que tem vindo a gerir este país. Corrupção? Nah! Isso não existe!Mas o mais espectacular de tudo para mim é os pormenores com que algumas pessoas me querem fazer de estúpido.A este propósito, disse Narciso Miranda este fim-de-semana, ainda as praias de Matosinhos fumegavam, que “em Matosinhos todos os empreendimentos são bem vindos desde que encaixem na baliza da legislação portuguesa”.Esta afirmação é extraordinária, mas carece de uma melhor explicação: referia-se Narciso Miranda (o grande responsável pelas cedências à tal “pressão imobiliária” que irresponsavelmente colocou milhares de pessoas a viver ao lado de um “barril de pólvora”) à refinaria? Isto é: mesmo que aquela coisa possa ir pelos ares daqui a pouco e com ela milhares de pessoas, se for legal, o autarca aceita-a e não faz nada?Ou referia-se o autarca aos licenciamentos que ele próprio autorizou para construção desenfreada com vista para uma refinaria com mais de 35 anos?É legal? Licencio! É legal? Não me oponho!Este conceito que Narciso Miranda adoptou é a confissão da nulidade, da incompetência ou apenas uma desculpa para distraído engolir?Se o que cabe na baliza legal do país fosse sempre bem-vindo em todas as autarquias do país, se a moda pegasse, então poderíamos acabar com essa reles classe política que nos consome impostos nas Câmaras Municipais, pois a utilidade dos autarcas seria nula.Impõe-se então a pergunta: para que serve Narciso?Algo me diz que a sua utilidade se resumirá à gestão das tais “pressões imobiliárias”… como lhe chamam! (publicado a 2 de Agosto).

O "jornaleirismo" de José Rodrigues dos Santos

No Jornal de Notícias de ontem (segunda-feira) li uma entrevista que me deixou perplexo. Reconheço o caminho correcto que a RTP tem seguido ultimamente, perseguindo pela primeira vez em muitos anos verdadeiros objectivos de serviço público. Um caminho que a informação também tem seguido, e não só a programação, mas que continua a ter falhas (no próximo artigo darei um exemplo) tremendas, que me deixam por vezes boquiaberto.
A entrevista de José Rodrigues do Santos ao JN vem mostrar o porquê dessas falhas, senão, vejam o seguinte excerto:
JN - Pode o jornalista fazer juízos de valor?
JRS - Se calhar, até pode. A Cristiane Amanpour, da CNN, sobre a guerra da Bósnia, diz que não pode tratar um genocida e uma vítima indirecta desse genocida da mesma maneira. Por hipótese, se tivesse que fazer o momento de libertação dos judeus do campo de Auschwitz, não sei com que objectividade eu poderia fazer aquele trabalho, tendo em conta as imagens de horror conhecidas. Até os mais puristas teriam a mesma reacção. Durante o Euro 2004, as pessoas mudaram muito, até na maneira como olhavam para os símbolos nacionais.
JN - Mas não será o futebol um fenómeno fútil, atendendo às comparações que fez?
JRS - As coisas têm a importância que lhes quisermos dar. O futebol não tem importância nenhuma e tem toda a importância. Depende do valor que lhe atribuirmos.
Daqui faço dois comentários.
1. Mas, afinal, que grande baralhada vai na cabeça do Director de Informação da RTP? De repente está a falar de genocidas (isso existe??? O que é um genocida??? Genocídio conheço) e de Auschwitz e… acto contínuo pega no futebol!!!!!! Ainda pensei: “não, foi o jornalista que baralhou tudo, é um erro tipográfico? Como é possível estabelecer a despropósito tamanha comparação que, ainda por cima está totalmente desfocada? O que é isto’”. Mas, logo a seguir, vê-se que não. O meu espanto é afinal igual ao do jornalista, como se prova na pergunta seguinte! Sendo a resposta igualmente esclarecedora sobre o estado de saúde mental do entrevistado ou, se preferirem que seja mais brando, da sua incapacidade para dirigir o jornal lá da rua, quanto mais a Direcção de Informação da RTP.
2. O segundo comentário vai para o conteúdo em si. Por um lado, defende-se o Serviço Público e a informação credível, por outro, cita-se Cristiane Amanpour, o paradigma da desinformação de guerra, do jornalismo cozinhado, do américo-jornalismo pseudo-livre e mal amanhado que a CNN protagoniza, por vezes. Indo mais a fundo no conteúdo e nos desígnios jornalísticos, é claro que está completamente errada esta visão que José Rodrigues dos Santos deveria ter deixado no banco da escola onde andou de que o jornalista pode fazer juízos de valor. O jornalista não “trata” nem tem que “tratar” ninguém. O jornalista relata, investiga, conta, questiona. Se um jornalista descrever o horror de Auschwitz de forma correcta (emocionada? Por que não, se o cenário for - e seria - humanamente chocante) e profissional, seria necessário o seu juízo de valor? Não será o ouvinte, telespectador, leitor, suficientemente inteligente e humano para daí retirar o seu juízo de valor? E quanto ao genocida(?) – seja lá quem for esse ente a que Cristiane Amanpour se referia, será mesmo esse o genocida? Quem o investigou, provou, julgou? É este jornalismo de julgamentos sumários, tão ou mais penalizadores para o “réu” do que por vezes os legais, que os defensores do jornalismo sério (melhor dizendo, do JORNALISMO) tanto têm criticado, sobretudo em relação a algumas televisões concorrentes da RTP. Resta-me uma questão que alguém há-de saber responder, mas que a entrevista não responde: porque é que José Rodrigues dos Santos é Director de Informação da RTP? Ou será que perguntar isto implicaria um juízo de valor que desta vez (só desta vez) não caberia ao jornalista? (publicado a 27 de Julho).

Sr. Presidente

Sr. Presidente
É certamente uma coisa pequena, apenas medível a Nónio. Mas é o tipo de "coisa" que me ocupa a alma, não sei porquê. Ou talvez saiba!Adiante! Aqui vai a minha interrogação sobre este nada (e deve mesmo ser nada, porque a todos os jornalistas, directores, editores a quem coloco a questão, respondem com... resposta nenhuma): por que razão, quando a generalidade dos jornalistas se referem ou dirigem a Pinto da Costa lhe chamam "Presidente"? Não tenho estatística à mão, mas diria que 90% das vezes o fazem e 90% das vezes não o fazem em relação a mais nenhum dirigente/presidente, seja de um clube (maior ou menor) seja de um órgão oficial do Estado. Diria até, que nem o nosso único e verdadeiro Presidente dos portugueses (de todos, dizem mesmo) merece tal reverência verbal. Por que será?E acreditem que tenho procurado medir esta minha "birra" em considerar isto uma questão mensurável (talvez apenas com Nónio, é certo, mas mensurável). Até já me questionei, nessa procura interna de respostas, se o facto de chamarem Major a Valentim Loureiro teria algo a ver com o assunto. Aí, meditei bastante! Será que o facto de Pinto da Costa não ser Doutor, Engenheiro ou Arquitecto o levam a "pedir" uma referência superior ao do simples "Senhor"? Ou, pelo contrário, são os jornalistas que, face aos modos por vezes menos elevados de Pinto da Costa têm dificuldade em chamar-lhe "Senhor" (que nas sociedades ancestrais era um termo de grande respeito)? O mistério, confesso, pode ter à primeira vista alguma falta de interesse, mas a mim ocupa-me o espírito e leva-me a questões deontológicas sobre o jornalismo e até à velha questão da auto-censura (um dia explicarei porquê).Mas este mistério permanecerá mistério, pois até hoje ninguém conseguiu explicá-lo, nem parece estar a ponto de conseguí-lo.Uma certeza tenho eu: sorte tiveram os que não chamavam "Presidente" a Vale e Azevedo (praticamente todos). Chamavam-lhe Dr. Vale e Azevedo. Mesmo depois de ter deixado o Benfica e ter sido detido pela PJ, continuou a ser tratado dessa forma. Já a Pinto da Costa, fica-me a dúvida se em situação idêntica continuaria a ser tratado pelo seu cargo (ou estado, se o destino fosse, por hipótese absurda, a zona de detenção da Polícia Judiciária). Como o tratariam então? Por "Senhor Detido"? Ou por "Senhor Arguido"? Ou simplesmente por Pinto, Costa ou seria por Ex-presidente? Ou será que mesmo nessa desconfortável situação, continuaria para alguns a ser “Presidente”?Perdoem-me esta última comparação. De facto, isso nunca acontecerá e Pinto da Costa nunca deixará de ser Presidente do Futebol Clube do Porto. Como os jornalistas que se lhe dirigem reverentemente e parcialmente, nunca serão verdadeiramente jornalistas. Por isso, esta é uma questão puramente académica e que, segundo qualquer director de TV, Rádio ou Jornal, não passa de uma questão menor. Medível apenas a Nónio, digo eu! (publicado a 15 de Julho).

Nascimento

NascimentoPequenas são as fracções de tempo com que construímos olhares, amores, gostos e opiniões. Pequenas são as fracções de nós que nos permitem sermos amados, odiados, atacados ou defendidos. Pequenos somos nós quando à nossa volta se enovela luz, escuridão, informação e ruído. Olhemos então o pequeno que nos toca, nos constrói e nos assombra. Desviemos do Mundo o olhar para (re)descobrirmos que pequenos mundos nos aconchegam. Nónio é um instrumento (ou um método, se quiserem) inventado por Pedro Nunes (1502-1577), um destacado cientista português, que de uma forma simples conseguiu medir de forma precisa pequenos nadas que, afinal, segundo a sua escala, podem ter tamanhos muito variáveis. E fê-lo sem precisar de distorcer o olhar por acção de uma qualquer lente de microscópico. Mas Nunes ("que significa o filho de Nuno"), ou Nónio (como o próprio baptizou o seu invento em honra do seu próprio nome), se quiserem, fizeram mais do que isso, ao indicarem o método para que todos o possam também fazer. Neste blog, tentarei fazer como ele. Roubo-lhe o método e o nome, que agora aplico àquilo que mais nos custa entender: nós próprios (publicado a 15 de Julho).

Nónio II

Este blog é a continuação do Nónio anteriormente alojado no Sapo. Infelizmente, depois de ter experimentado a triste experiência de ser cliente PT, de ser cliente Netcabo e de ser cliente ADSL Sapo, ainda caí na asneira de abrir um blog no Sapo. Acabei achando que a eutanásia deveria ser legalizada. Perante semelhante ioncompetência, os funcionários e Administração do Grupo PT deveriam ter vontade de morrer e nós não deveríamos ser presos por ter vontade de ajudá-los... O Nónio continua aqui. Para já, colocando alguns dos post que considero mais importantes do antigo Nónio, cujo endereço é http://nonio.blogs.sapo.pt/ e que, para já, continua online.